Mais um ano chega ao fim. Para muitos isso é importantíssimo. Pra mim, nem tanto. Não sou desses paranóicos que se fixam na contagem regressiva para a mera passagem das 23 horas e 59 minutos do dia 31 de dezembro para a zero hora do dia primeiro de janeiro, como se a protocolar função do relógio fosse um imperativo categórico ao qual devêssemos todos nós submeter nossos anseios. Nada mais é do que o tempo seguindo seu inexorável caminho. Por este caminho muitos ficam, outros prosseguem. Muitos morrem, mas também muitos nascem. Uns se curam, outros caem enfermos. Uns fazem do nascer do sol de cada dia como se este fosse o último, outros choram por um novo dia ter raiado. Uns agradecem a Deus; outros, a deuses; outros, a ninguém; outros, a eles mesmos. Sim, o sol nasce pra todos nós, indivíduos, iluminando nossas particularidades, nossas virtudes, nossos defeitos, nossas esperanças, nossas frustrações…
Não esperem de mim efusivas comemorações por um ano que se vai e outro que já bate às portas. Não tomo isso por festa nem por simbologia. A crença de que tudo se fará novo porque mudou o calendário é risível. Nossos destinos são traçados pelas nossas escolhas, não pelo passar do tempo. Fico matutando com meus zíperes que raio de lógica as pessoas vêem em no último dia do ano fazer um resgate de tudo o que foi feito nos 364 dias anteriores para em 2012 fazer melhor. É sempre assim: espera-se o ano novo para começar s cumprir o velho. A dieta, a academia, a procura por um emprego, a nova casa, o novo carro, a nova profissão, o novo sentido da vida, o namorado, a namorada, e assim vai. Por que raio as pessoas não fazem seus próprios reveillons? Se até 2 de outubro deu tudo errado, decrete seu ano novo em 3 de outubro, oras.
É nesse ponto que discordo radicalmente de Carlos Drummond de Andrade e seu Cortar o Tempo. Disse o poeta:
Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente
Eu diria que um mês dá pra qualquer se humano se cansar e entregar os pontos. Um mês não, uma semana. Um dia. Uma hora. Um minuto. E nada impede que o tal “milagre da renovação” comece imediatamente após o declínio, no minuto seguinte, na hora após, no dia iminente. Essa é a graça da vida!
De todo jeito, não me cabe contestar o que cada um faz de seu ano novo, de seus dias, de seus meses, de seus minutos. Se você renova suas esperanças anualmente, tudo bem. Como creio que ela é atemporal, eu a renovo sempre que me dá na telha.
A todos, aquele abraço.
Feliz 2012.
Feliz 29 de dezembro.
Feliz uma da manhã
Enfim, seja feliz.
Ter memória proustiana tem lá suas vantagens. O PT, como é de costume, fez uma campanha canalha em 2010 nas eleições para o governo do estado de São Paulo. Criticaram mais tonicamente a qualidade de vida dos paulistas e os atuais sistemas de educação e segurança. Pois é. São Paulo, hoje, já não está mais na zona de homicídios considerada epidêmica pela Organização Mundial de Saúde, de 10 mortes para cada 100 mil habitantes ao ano. Segundo o último levantamento divulgado pela Secretaria de Segurança Pública, a atual taxa de São Paulo é de 9,6 para cada 100 mil. A média nacional é de 25! Na Bahia, cujo governo é do petista Jaques Wagner, esse índice é de 34,7 por 100 mil.
Por que trago à baila essas questões? Bem, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) acaba de divulgar o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal, que avalia e consolida dados sobre emprego, renda, educação e saúde de todos os 5.564 municípios brasileiros. A íntegra está aqui.
Algumas conclusões deste levantamento merecem destaque, pois esfacelam o discurso mal ajambrado do PT. “Pô, mas um ano depois?”. Sim! Que fossem 10 anos! Pouco me importa. Isso porque, se necessário for, não tenham dúvidas que petistas recorrerão às mistificações novamente. Devem fazê-lo, escrevam o que estou dizendo, no próximo ano, durante as eleições municipais. E combate-los é preciso.
As notas de avaliação variam entre 0 (pior cenário) e 1(melhor). Levando em consideração os resultados gerais, as primeiras posições das cidades com os melhores IDFM estão congeladas desde 2006. O grupo é liderado por São Paulo (0,8796), seguido pelo Paraná (0,8222) e Rio de Janeiro (0,8062).
Considerando o índice Emprego e Renda, dentre os 500 melhores resultados o estado de São Paulo tem 168 municípios, concentrando a maioria absoluta. Nesse quesito, esse resultado garante ao estado a nota 0.86888, seguido pelo Rio (0,8541) e Paraná (0,8022).
Sobre educação, diz o estudo: “os municípios paulistas mantiveram a supremacia no ranking de educação: dos 100 melhores resultados de 2009, 98 são do estado de São Paulo. Como corolário dos resultados de seus municípios, o estado de São Paulo também figurou como primeiro do ranking estadual do IFDM – Educação com 0,8909 pontos”. E sobre saúde: “os municípios do Rio Grande do Sul apareceram, pelo quinto ano consecutivo, no topo do ranking do IFDM – Saúde: 165 dos 500 maiores são gaúchos. Este seleto rol tem também participação expressiva do Paraná e de São Paulo: 118 e 95 municípios, respectivamente”. Vale lembrar que em entrevista à rádio CBN em setembro do ano passado, Mercadante chegou a declarar que a educaçãoem São Paulosofria um verdadeiro “pedagocídio”.
O delineio desses cenários levou a um resultado que desbanca o discurso de Aloízio Mercante. Das 15 melhores cidades em qualidade de vida, 14 estãoem São Paulo.
E aí, Mercadante? Cadê o caos? “Ah, mas estamos longe da perfeição”, podem argumentar. Mas também estamos longe da perfeição do desastre, conforme delineado por aquela gente.
Guardem essas informações. Elas são uma arma contra a mentira e o embuste “deles”.
Duas, digamos, campanhas têm varrido as redes sociais: uma pede que Lula trate seu câncer no SUS; outra manda os adeptos da primeira aos quintos dos infernos acusando-os de exploradores políticos da desgraça alheia. Antes de prosseguir, peço que assistam ao vídeo abaixo. Trata-se de Lula agradecendo aos brasileiros pelo carinho e pela solidariedade recebidos.
Pois bem. A partir dos 47 segundos começa a se manifestar o Lula palanqueiro que nunca deixou de ser. Podem me xingar, não estou nem aí! Já escrevi aqui que doença não é objeto imaculador: não torna ninguém pior nem melhor do que já é. Disse Lula: “eu acho que é preciso agente continuar acreditando no Brasil, botando fé nesse país. Será inexorável a caminhada desse país para se transformar numa grande economia, sabe?, na alegria, na qualidade do povo brasileiro. E a gente fazer o que tem de ser feito: acreditar na nossa presidenta, ajudá-la, sabe?, porque é assim que o Brasil vai pra frente. Não existe espaço pra pessimismo”.
Lula começou agradecendo aos milhares de brasileiros e, não demorou muito, como se nota, para introduzir em meio ao próprio drama uma pitada de proselitismo político. Não, Lula nunca deixará de fazer isso! Durante as eleições 2010 não foram poucas as vezes em que,MESMO NA CONDIÇÃO DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA, renunciou ao decoro e fez campanha explícita à então candidata Dilma Rousseff. Mentiu, mandou a legislação eleitoral às favas e fez chacota das punições impostas pelo TSE. Repito: como doença não é sinônimo de alvação moral, Lula, na esteira do combate ao câncer, recorre, atenção, aos mesmos métodos condenáveis da campanha para obter dividendos ao seu partido.
Por que Lula, ao falar de sua doença, lembra que é preciso continuar acreditando no Brasil? Qual a relação entre as causas? O que a transformação econômica brasileira tem a ver com o drama do ex-presidente? Que raio de função cumpre o pedido de “acreditar na nossa presidenta” em meio a agradecimentos de solidariedade? Essencialmente, isso não deixa de trazer à luz os métodos do lulismo.
Agora, meus caros, é imperativo: as mesmas pessoas que julgam ilegítimo o pedido de milhares para que Lula vá encarar o SUS deveriam também se voltar às palavras do próprio ex-presidente e manifestar indignação semelhante. Ou, senão, que se calem e admitam ser portentosos relativistas morais. Lula não está acima do bem e do mal. Se ninguém pode lançar à baila seu câncer para cobrar nada, que Lula também não o faça! Trata-se de uma questão de equidade!
Lula no SUS? Sim, o pedido é legítimo! Assistam a mais um vídeo. Volto em seguida.
Disse o ex-presidente em Recife, Pernambuco, durante inauguração de uma Unidade de Pronto Atendimento: “Quero ser o primeiro paciente desta UPA aqui. (…) Ela tá tão bem estruturada que dá até vontade da gente ficar doente pra ser atendido aqui”. Esse discurso foi feito em 2010. Antes, em 2006, Lula havia declarado que o SUS estava “perto da perfeição”. Pois bem. Poucas horas depois de elogiar o próprio feito, o então presidente teve uma crise de hipertensão. Seu presságio deu certo: surgiu o motivo para ser atendido na UPA. Mas aonde foi Lula? Foi socorrido ao Hospital Português de Recife, um dos melhores das regiões Norte e Nordeste e um dos mais bem equipados do Brasil.
Lula precisa ser inquirido pelas besteiras que fala? Claro que sim! Dado esse cenário, quem cobra que ele trate seu câncer no SUS nada mais é que conseqüência das próprias tolices que fala.
Não, não sou signatário do movimento. Se Lula tem dinheiro para bancar o Sírio-Libanês, que faça-o, oras. MAS NÃO É PORQUE EU PENSO ISSO QUE OS DEMAIS NÃO TÊM O DIREITO DE ACHAR O CONTRÁRIO. Quem pede Lula na fila do SUS não faz demagogia, APENAS PEDE QUE ELE PROVE SER VERDADE O QUE DISSE SOBRE O SISTEMA PÚBLICO DE SAÚDE. Trata-se de um direito, e não de uso da desgraça alheia por vis motivos.
OS QUE ACUSAM DE INSENSÍVEIS, IMORAIS E APROVEITADORES AQUELES QUE DESEJAM LULA NO SUS, ANTES, PRECISAM REVISITAR A HISTÓRIA RECENTE. Assistam a mais um videozinho.
E agora, hein? Apontam o dedo a quem sugere que Lula prove de fato a quase excelência do SUS, mas o que dizem a respeito da convocação de José Dirceu aos professores da rede pública de ensino do estado de São Paulo? “Eles têm de apanhar NAS RUAS e nas urnas”, disse o bruto em plena onda de greve da classe. O resultado está no próprio vídeo. À época, em 2000, Mário Covas, atenção, JÁ DEBILITADO PELO CÂNCER, foi brutalmente agredido pelos asseclas de Dirceu em plena Praça da República. Quem vocês pensam que são para, agora, colocar alguém contra a parede?
Não, eu não vou me rebaixar ao mesmo nível deles e sugerir semelhante agressão a Lula. Tudo que o ex-presidente merece são nossos sinceros desejos de recuperação. O que não quer dizer que também esteja imune de ser cobrado pelas tolices palanqueiras que já disse e ainda diz. Não é exploração política. É democracia! O resto é papo daquela turminha politicamente correta.
O ex-presidente Lula gravou um vídeo agradecendo a todos os que manifestaram solidariedade a ele. Aproveitou para, como sempre, tirar uma lasquinha política da própria tragédia. Assistam.
Na madrugada escreverei a respeito. Também aproveitarei para explicar o porquê a campanha que pede que Lula se trate no SUS é LEGÍTIMA!
Não integro o grupo dos que crêem que a doença torna uma pessoa melhor. Trata-se de um pensamento cruel com quem porta a enfermidade. Quanto mais profundo o sofrimento, quanto mais lancinantes forem as dores, caso escape do certame, melhor sairá o sujeito, rezam alguns. É uma tolice! A tricomoníase enfrentada por Mao Tse Tung não o fez menos cruel e assassino. O câncer de Hugo Chávez não o imacula de seu autoritarismo. Mao foi um tirano porque quis, mas não adquiriu tricomoníase por escolha. Chávez é um déspota porque sente prazer nisso, mas não contraiu câncer por lhe parecer prazeroso.
Acho condenável qualquer tipo de tentativa de traçar paralelos entre a doença do indivíduo com sua trajetória pessoal ou profissional. O PT fez isso comedidamente quando Dilma Rousseff, então candidata à Presidência, foi diagnosticada com câncer no sistema linfático. Dilma optou por disputar uma eleição porque quis, mas sua doença no linfoma não foi adquirida por seu desejo. Doença não se escolhe! Eis o motivo por que mando às favas qualquer discurso cujas veredas me convida a fazer hagiografias de quem está enfermo: doenças não tornam ninguém melhor e nem pior!
Como já foi amplamente noticiado, o ex-presidente Lula está com câncer na laringe. Segundo os médicos, o tumor pode ser removido. Até o momento, não há metástase. Melhor assim! Desejo, sinceramente, plena recuperação a Lula. Combato suas idéias, não sua pessoa.
No entanto uma coisa pode despontar no horizonte: uma espécie de glorificação a Lula, como se o seu câncer assumisse a forma de razão moral superior para que, nesse momento de dor do ex-presidente, todos fôssemos compelidos a prestar-lhe solidariedade. Esse “prestar-lhe solidariedade”, leia-se, iria além dos desejos de vida longa ao demiurgo, assumiria um ato de exceção, como se sua trajetória enquanto presidente da República fosse tão alva quanto a neve, livre de qualquer mancha de desabono.
Não é bem assim! Sim, que Lula atravesse e supere com sucesso esse episódio difícil de sua vida. Trata-se de um desejo pessoal, e por três motivos: 1- porque, como humano, comovo-me com o que é humano, quase parafraseando Terêncio; 2- porque Lula ainda deve muitas explicações; 3- porque sua visão de mundo precisa ser derrotada, não por um câncer, mas pela luz da história e da verdade, em prol de um Brasil melhor!
Lula foi uma das piores coisas que o País já teve em sua recente história. Não, não foi o PT nem o lulismo que inventaram as mazelas do Brasil, mas foram eles que legitimaram essas práticas como método de poder. Isso é fato, e não é um câncer que vai apaga-lo. Apoderaram-se do Estado e dele fizeram seus domínios, como se as instituições fossem uma extensão do quintal de suas próprias residências. Mandaram às favas o Estado Democrático de Direito. Raymond Faoro certamente faria um excelente ensaio sobre nossos tempos.
Encabeçados por Lula, os atuais donos do poder recorreram à mentira para transfigurar a verdade. Pior: fizeram disso uma armadura de resistência. Aquele exclusivismo ético de outrora ruiu, mas, faceiros, levantaram a bandeira do tal “quem nunca fez?”. Emplacaram tal combatividade interesseira e a grande parte da sociedade, genuflexa, aquiesceu, mesmo isso significando o sacrifício da decência dos homens de bem.
Lula encabeçou o movimento contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, e ela era boa para o País. Lula liderou a turba que vociferou contra as privatizações recorrendo ao discurso de que o patrimônio do povo estava indo para o ralo em prol de poucos ricos. Vigarista, não reconheceu, 12 anos depois, que as privatizações foram benéficas ao Brasil. Lula e sua patota não queriam o País na rota dos investimentos internacionais, e eles se demonstraram bons à nossa economia. Lula demonizou o Proer, asseverando que não passava de um projeto para enriquecer banqueiros. E o projeto também era bom. Os programas sociais arquitetados no governo FHC, para Lula, eram “esmola”. Bastou o demiurgo assumir a presidência para ampliá-los e, mais tarde, chamar de seus. Isso são fatos que nenhuma doença apaga!!! Convidado em duas ocasiões para debater com Fernando Henrique a fim de ver quem de fato mudou o Brasil, declinou dos convites.
Sim, Lula e o PT frustraram muita gente. Hoje, sob suas asas, estão o que é de mais condenável na política brasileira, mais atrasado, mais reacionário e mais vigarista. Sarney já foi o que de pior o Maranhão teve, segundo Lula. Não demorou muito para que Sarney se tornasse o suprassumo do Senado, também segundo Lula. PT e Lula inauguraram a metamorfose contínua da corrupção do caráter. Por mais cruel que seja um câncer, ele não altera os delineios morais do corrutor.
O Congresso, casa de todos os cidadãos de bem deste País, onde homens e mulheres democraticamente eleitos fazem valer o que o povo trabalhador e honesto quer, foi esfacelado pela suserania dos valentes. Com o mensalão, tentaram comprar o Senado e a Câmara. Preocupados com o impacto que isso poderia ter nas eleições seguintes, tentaram limar os adversários políticos com falsos dossiês. Tudo isso dentro do Palácio do Planalto, sob as narinas do comandante-em-chefe. Ah, mas ele de nada sabia.
Pouco apreciadores das virtudes da democracia, infantilizaram a população brasileira. Ele virou nosso “pai”, que nos passou aos cuidados da “mãe”. E houve quem achou isso lindo de morrer! Não, não se trata de um discurso carinhoso. Há aí embutida a vocação para o mando.
Lula comandou atos de desagravo a José Dirceu, chefe de quadrilha e que, recentemente, assumiu desavergonhadamente ter roubado hóstias da igreja. Prometeu não mais meter o bedelho no governo depois de aposentado, mas não titubeou em arquitetar a permanência de Orlando Silva no Ministério do Esporte. Autoritário, impôs goela abaixo do PT paulista, sem prévias, Haddad como candidato a prefeito de São Paulo. Ainda mais autoritário, em Santa Catarina, afirmou que o DEM deveria ser extirpado da política nacional. O “outro” não pode existir, claro. A chave da história só pode estar nas mãos de alguém ou de um partido.
Lula tolerou a tentativa de compra do Congresso, deu curso às incursões para eliminar a oposição, tentou intimidar a imprensa e, como pai, sorriu às investidas do PT contra os valores das instituições. Irônico, menosprezou a condição de intelectual de FHC e de forma descarada fez – e ainda faz — apologia à ignorância.
Os matizes desse enredo fazem do Brasil um país pior.
É por isso que Lula precisa se recuperar. Primeiro porque é o meu desejo como ser humano. E segundo porque sua ideologia precisa ser desmascarada.
Abaixo vocês podem ler post meu de segunda-feira dando conta das grandes mentiras que se tem dito sobre o novo Código Florestal. Chega a ser um acinte o volume de barbaridades ditas por gente que sequer passou os olhos pela proposta de Aldo Rebelo e, num lampejo de dar dó, empunham a bandeira do ambientalismo de cabresto. Pior: essa gente – artistas, “intelequituais”, modelos, etc – se utiliza do prestígio conseguido em suas vidas profissionais para destruir a verdade em outro campo. A saber:
- é mentira que o novo código proponha anistia a desmatadores;
- é mentira que as áreas de mata diminuirão; pelo contrário: elas aumentarão;
- é mentira que a Ciência sequer foi ouvida. Aldo convocou a SBPC para um debate na Câmara, por exemplo. O que os valentes fizeram? Deram de ombros e ignoraram o convite. Depois emitiram uma nota ridícula afirmando que foram deixados de fora do debate. Cambada!
- é mentira que os grandes produtores são os maiores beneficiários da proposta. Em geral, são os pequenos agricultores que terão oportunidade de se regularizarem;
Basta ler o código, santo Deus!
Quem assiste a esse show de horrores em que se transformou o debate pode até ficar com uma pulga atrás da orelha. “Ora, mas se tanta gente assim está dando conta de que as florestas desaparecerão, algo de estranho tem aí”, podem pensar inocentemente. Pois é. Quem ouve Marina Silva e os ongueiros apocalípticos falarem fica com margem para interpretar que os agricultores, esses malvados inimigos das saúvas e das capororocas, dominam nosso território em detrimento das matas. O IBGE tem dados interessantíssimos a respeito disso. Vejam a tabela abaixo.
As informações foram concebidas a partir do Censo Agropecuário feito em 2006. Basta analisar detalhadamente a tabela para se chegar a conclusões de deixar Marina Silva e ONGs da causa com o nariz marrom. Como se nota, a agropecuária que produz a comida mais barata do mundo ocupa apenas 329.941.393 milhões de hectares – ou 38,8% – de um total de 851.000.000 do território nacional. Detalhe: dentro desses 329.941.393 hectares, 98.479.628 (29,84%) correspondem a matas e florestas, as quais integram as Áreas de Preservação Permanente e de Reserva Legal. Ou seja: para a atividade agroindustrial sobram 231.461.765 – 27,2%.
Segundo o Ipea, o passivo ambiental brasileiro é de 159,3 milhões de hectares. Como não sou nenhum matematicamente distraído, às contas: considerado este número, é preciso entregar às florestas 69% da atual área destinada à agricultura. Sendo assim, a agricultura mais competitiva do mundo teria apenas 8% do território para produzir, ou 72.161.766. Loucura, não? Pois não é isso que pensam os salafrários de plantão.
Trata-se de pura mistificação debitar da conta dos produtores de comida o ônus pelo desmatamento de nossas florestas. Sob o nariz do Ibama, madeireiros devastam hectares e mais hectares de mata. Desmatar para deixar terra batida é barato. Desmatar, preparar a terra para cultivo e produzir comida é caro e dá trabalho pra chuchu. No entanto, se levar a cabo o que dizem entidades como a SBPC ao afirmar que bastam umas cerquinhas aqui e uns manejadinhos ali para que a área agricultável do País ganhe mais 60 milhões de hectares, somos obrigados a concluir que nossos agricultores estão aproveitando mal mais de 25% de suas terras, justamente num contexto global de demanda por comida e dificuldade para encontrar terras para plantar. É de rolar de rir.
E, claro, na esteira do circo da desinformação, o novo código acaba levando chibatada por conseqüência.
Poucas coisas no País foram vítimas de tanta desfaçatez e vigarice quanto as análises que têm sido emitidas sobre o novo Código Florestal. Não, não tenho uma vírgula de afinidade ideológica com o autor do relatório, deputado comunista Aldo Rebelo, mas nem por isso deixo de reconhecer a razoabilidade de seu trabalho. E quando divirjo, bem, costumo coser meus contrapontos à sombra da verdade.
Na revista Isto É desta semana o cineasta Fernando Meirelles fala sobre o movimento Floresta Faz a Diferença, capitaneado por ele juntamente com atores, modelos e famosidades em geral. O objetivo: pressionar os senadores para que votem contra o novo Código Florestal. Disse ele: “Tivemos a ideia de pedir para alguns amigos gravarem um depoimento de casa, em vez de deslocar uma equipe. Deu certo! A adesão foi praticamente na hora. Fizemos uma campanha grande e com nomes como Rodrigo Santoro e Gisele Bündchen de uma forma sustentável. Enquanto a CNA (Confederação Nacional da Agricultura) gastou R$ 15 milhões para a campanha “Eu sou agro”, gastamos apenas R$ 400 em um café da manhã de lançamento”.
É MENTIRA QUE A CNA GASTOU R$ 15 MILHÕES COM A CAMPANHA “EU SOU AGRO”. As entidades e empresas que integram o movimento são a Andef, Aprosoja, Bracelpa, Bunge, Cargill, Vale, Abrapa, OCB e Única. A CNA NÃO FAZ PARTE DO ‘EU SOU AGRO”. Meirelles deveria se informar antes de dizer bobagens. Sim, Meirelles é livre para confabular contra o código com quem ele quiser, assim como entidades e empresas podem se associar para apoiar a causa que lhes dêem na telha. O que não pode é Meirelles mentir para fazer valer sua opinião.
Segue abaixo o vídeo que ele gravou para a campanha. Em seguida, transcrevo alguns trechos.
Acho muita bonita a preocupação altruísta de alguns setores do agronegócio ou de alguns congressistas quando eles defendem a mudança no Código Florestal com o argumento de que o Brasil precisa de mais áreas de agricultura para combater a fome no mundo. Novamente Meirelles mente e deturpa a verdade para consagrar tão-somente seu ponto de vista. As mudanças propostas por Aldo Rebelo nada têm a ver com aumento da produção de comida. O negócio é corrigir a anomalia do código vigente, um esqueleto jurídico de 76 anos que nunca de fato foi cumprido. A primeira versão desse código foi concebida em 1934 e sua validade se estendeu até 1965. Depois, foi prorrogada novamente até 1996, quando uma MP (sempre elas, hehe) deu-lhe mais algum tempo de fôlego. Qual o busílis, então? Simples: a produção agropecuária evoluiu nos últimos anos, mas o Código Florestal não acompanhou essa evolução. Levando à risca o tempo em que produtores e ambientalistas polarizam a questão sem chegar a um senso comum, tem-se mais de um século de adiamento do problema. Se a atual legislação for levada a cabo, parte importante do que se produz hoje no Brasil iria para a bacia das almas. Voltarei a esse ponto da produção de comida mais adiante para desmascarar outro mentiroso. O novo código, portanto, não quer aumentar a produção agrícola, mas dar uma solução definitiva a um adágio de muitos anos. Adiante.
Eu acho que essa questão do Código Florestal é uma questão científica e quem deveria dar a última palavra é a Ciência, e não os setores interessados. A Ciência deveria dar a última palavra uma ova, meu senhor. Olha como o rapaz é democrático: num amplo debate sobre uma legislação que impactará a vida de muitos (principalmente a de pequenos agricultores, e não dos latifundiários, ao contrário do que se tem falado por aí) ele acha razoável que sejam excluídos da conversa os interessados na trama. Não, Meirelles, você vive num Estado Democrático de Direito em que todos têm direito à voz. Se isso é bom ou ruim, é outra coisa; mas não se pode mudar as regras do jogo só porque o senhor assim quer. Aldo Rebelo fez um verdadeiro périplo pelo País discutindo ponto a ponto do novo código, debatendo, inclusive, com cientistas da Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência. NA DEMOCRACIA, A CIÊNCIA TAMBÉM É OUVIDA; NÃO DÁ A ÚLTIMA SENTENÇA.
O ator gugu-dadá Wagner Moura também resolveu dar seus pitacos sobre o código. Segue vídeo.
Senadores, dentre as diversas barbaridades contidas na revisão do Código Florestal, uma me chamou muito a atenção. A palavra anistia, que, em sua origem, é uma palavra muito bonita, no Brasil ela adquiriu um significado nesfasto. Eu não entendo anistia para quem torturou e matou durante o Regime Militar assim como não entendo anistiar grandes proprietários de terra que passaram anos desobedecendo a lei, avançando sobre reservas florestais protegidas pelo governo. É assim que a banda toca: o camarada faz sucesso no cinema, amealha fãs em todo o Brasil e, com esse ativo profissional, resolve usar o prestígio conseguido numa área de atuação para eclipsar a verdade em assunto sobre o qual não tem nenhum domínio. Wagner Moura não leu o Novo Código Florestal. Deveria fazê-lo. É MENTIRA QUE O NOVO CONJUNTO DE REGRAS ANISTIE QUEM DESMATOU. Está claro nos artigos 33, 34 e 35 do código que a regularização só se dará mediante adequações. Mais: só não serão multados se fizerem as compensações ambientais exigidas. SE O PROPRIETÁRIO DE TERRA, PARA SE MANTER LEGALIZADO, PRECISA COMPENSAR AMBIENTALMENTE SEU ENTORNO, NÃO HÁ ANISTIA! Anistia é perdão, é não-punição, e isso não está previsto no relatório de Aldo Rebelo. Custa ler o código? Custa folhear míseras 36 páginas antes de emitir juízo? Chega a ser constrangedor ver figurões como Moura praticando genuflexão irrefletida frente à torrente de sandices em cadência! Tudo isso pra quê? O que ele ganha com tantas iludições? Ah, claro, todos nós queremos que as palmeiras, o macaco-prego e os minhocuçus sejam preservados, mas recorrer à fraude para legitimar essa convicção já é demais.
Gisele Bündchen também mentiu. Claro que ela, semelhante aos demais, ignorou o texto de Aldo Rebelo e só falou o que lhe mandaram. Dá pra perceber os titubeios típicos de fala decorada em sua voz. Às barbaridades.
O projeto diminui em até 50% o tamanho das matas ciliares além de ignorar completamente todas as áreas que foram desmatadas de forma criminosa. Quem vê a moça falando até pensa que ela se informou bem sobre o assunto. Mas que… Vá estudar o texto, guria! Ela diz isso porque em virtude de o código prever a redução de 30 metros para 15 metros as áreas de manutenção de matas ciliares no entorno dos rios com até cinco metros de largura. “Diminuiu metade, logo perdemos 50% de preservação”, deve ter concluído a moça. O gênio e jornalista norte-americano H.L. Mencken não perdoaria Bündchen e a chamaria de boa idealista. Escreveu ele certa vez: o idealista percebe que uma rosa é mais cheirosa que um repolho e logo conclui que também é mais nutritiva. Na mosca! Se o texto prevê que áreas hoje desmatadas sejam recuperadas, a lógica de que a diminuição de áreas de preservação das matas ciliares implica, por conseguinte, mais desmatação é falsa. Exemplo: se Gisele tem em seu freezer 100 Chicabons mas sonha em ter 300, entretanto, só cabem mais 30, ela não perde 170 Chicabons, mas ganha 30. Ficou claro? Ao contrário do que diz Gisele, o novo código AUMENTA as áreas de floresta, e não diminui. Basta ler o texto, santo Deus!
Agora vem a cerejinha do bolo: Marcos Palmeira. Segue.
Gente, eu não entendo! Se já existe um Código Florestal, por que é que a gente tem que votar um novo código florestal? Claro, Marcos Palmeira, claro. Vamos pensar bem: se o Brasil já tinha uma lei do inquilinato, por que se votou outra? Se já tínhamos a lei do estágio, por que fizemos outra? Se já havia a lei do divórcio, por que colocamos outra em vigor? Se outrora já existia lei de prisões, por que cargas d’água votamos uma nova? Não sei se sinto pena de sua ignorância ou raiva de sua pernosticidade. O rapaz não entende o que são leis.
Não basta colocar em prática o código que já existe? Quando você tem dez ex-ministros do Meio Ambiente defendendo o antigo Código Florestal é porque alguma coisa tem de importante nisso. O engraçado é que nenhum desses dez ex-ministros conseguiu fazer o antigo código vigorar como deveria, nem Marina Silva, o ícone dos ambientalistas que, não contentes em criar minhoca na terra, também criam na cabeça. E ainda bem que não conseguiram. Se o fizessem, hoje o Brasil não teria a comida mais barata do mundo. Mas tratarei disso mais detalhadamente em um outro post.
Mas como dez ex-ministros não são ouvidos, né, em prol de uma “pseudo-agricultura”, “pseudo-alimentação brasileira”, tem alguma coisa de estranha nisso tudo. Palmeira chama de “pseudo-alimentação” brasileira o que? A comida mais barata do mundo? Ah, esses ruralistas, não é mesmo? Graças a eles muitos pobres têm um prato de arroz e feijão na mesa diariamente. E essa tal de “pseudo-agricultura”? Estaria ele se referindo ao superávit da balança comercial brasileira gerado por esses malditos agricultores? Será que Palmeira, antes de dizer tamanha barbaridade, dedicou um naco de seu tempo a analisar que o agronegócio responde praticamente sozinho pelas reservas cambiais do Brasil, as quais vêm do acúmulo de dólares nas relações de troca com outros países? Saberia ele que essa “pseudo-agricultura” é agente importantíssimo quando se fala da estabilidade da nossa economia? Se nossa alimentação e agricultura, para ele, são pseudos, quais seriam, então, as efetivas?
Claro: Meirelles, Moura, Bündchen e Palmeira são livres para manifestar suas opiniões, mas não livres para mentir, usar de seus prestígios na área artística para solapar a verdade em outro campo. Isso é canalhice, e das mais porcas. Nesse caso, é bom que calem a boca.
Milhares e milhares de pessoas cultivam a música; poucas, porém, têm a revelação dessa grande arte. A frase é do grande compositor alemão Ludwig Van Beethoven (1770 – 1827), revolucionário no seu tempo – foi o primeiro a usar um coral de vozes em uma sinfonia, sua famosa Nona. A máxima de Beethoven merece ser apreciada a fundo. Como, afinal das contas, tem-se a “revelação” dessa grande arte?
Desenvolver a capacidade de sensibilizar-se mediante uma peça musical (e estamos falando de música erudita, registre-se) é atividade a ser exercida em doses homeopáticas, a qual, num paralelo, podemos tê-la sob o mesmo prisma de Éthienne Bonnot de Condillac quando tratou da noção do eu em seu Traité des sensations (1754), reproduzido pelo excelente escritor argentino Jorge Luis Borges n’O Livro dos Seres Imaginários. Condillac nos convida a refletir sobre a origem das ideias. A figura utilizada para tal é uma estátua de mármore cujas feições assemelham-se às humanas. Num primeiro momento, Cadillac atribui ao monumento apenas um sentido: o olfativo, aquele que chama de “talvez o menos complexo de todos”. Um cheiro de jasmim é o começo da biografia da estátua. Por um instante, tão-somente esse cheiro é o único presente no universo. Ele é o universo. Depois, esse universo também será o cheiro da rosa, e do cravo, e da dama-da-noite… Consideremos que na consciência da estátua haja um cheiro único, e já teremos a atenção; que perdure um aroma quando o estímulo tiver cessado, e teremos a memória. Que uma impressão atual e outra reminiscente ocupem a atenção da estátua: eis a comparação. Percebendo analogias e diferenças, temos o juízo. Que a comparação e o juízo novamente ocorram, e temos a reflexão. Que uma lembrança agradável seja mais fulgurante que uma impressão desgostosa: já temos a imaginação. Concebidas as faculdades do entendimento, as da vontade surgirão após: amor e ódio, esperança e medo. E assim Condillac percorre um instigante caminho, atribuindo à estátua sentidos desencadeados a partir de outros até que se chegue ao cume: a noção do eu.
Que sejamos todos estátuas. Nosso universo é o silêncio. Irrompe um som uníssono e trêmulo como o de muitas abelhas cujo bater das asas é perfeitamente sincronizado. Em seguida, um conjunto de graves veludos quase que truculentamente atravessa esse trêmulo. Os primeiros são sons de violinos e violas, os segundos cellos e contrabaixos; todos nos atraindo para o mundo da 2ª Sinfonia do compositor austríaco Gustav Mahler, Ressurreição. Se mantivermos o trêmulo em nossa consciência, eis a memória. A atenção é desviada para o grave. Percebemos a diferença de timbres? Eis a comparação! E assim vamos… À noção do eu – e a outras, como veremos adiante — se chega pelo som também.
Para executar Ressurreição são necessários 4 flautas, 2 piccolos, 4 oboés, 2 english horns (também conhecidos como oboé d’amore), 5 clarinetes, 4 fagotes, 1 contrafagote, 10 trompas, 8 trompetes, 4 trombones, 1 tuba, 2 tam-tams, 1 bass drum, 1 snare drum, 1 teclado de glockenpiel, 1 triângulo, cymbals (suspensos e raspados), chimes, 8 tímpanos, 1 órgão, 2 harpas, violinos, violas, cellos, contrabaixos, coral de vozes e duas solistas. Grandes formações orquestrais são características das obras de Mahler. Sua oitava sinfonia, por exemplo, é mundialmente conhecida como a “Dos Mil”, por exigir mais de mil pessoas entre orquestra, solistas, corais adulto e infantil para tocá-la. Além da quantidade de pessoas, Mahler também quase sempre escrevia obras longas, com mais de uma hora de duração. Ele dizia que suas sinfonias deveriam ser tão grandiosas como o mundo, e elas deveriam abraça-lo.
Graças à sua ousadia de escrever para um grande número de instrumentos, Mahler conseguiu explorar sonoridades diversas, nos chamando a atenção para diferentes coloridos orquestrais, os quais se apresentam de formas alegres a tristes, de folclóricas a temas infantis, de melodia e harmonia introspectivas a explosões sonoras que nos remetem efusivas marchas militares e majestosos pesantes!
E é passando por todas essas variações que em Ressurreição, que nos conta o triunfo da vida sobre a morte, Mahler nos envolve num mundo cuja tônica é mostrar como a vida é bela e horrorosa; que, sim, há dores, mas elas hão de cessar. É uma mensagem de esperança. Se por um lado a morte é atroz, é também libertadora, pois nos arrebata dos malgrados inerentes à condição humana. “Devo morrer para viver”, canta o coral já no final da sinfonia (essa parte se inicia aos 48 segundos do vídeo abaixo), versos de Goethe que, em Ressurreição, surgem fortemente nas vozes em uníssono de um coral sustentado por cordas em tremulo e respondido por um estouro dos pratos, marcando o início de uma escala ascendente das trompas e, após, novamente, o coral repete: “Devo morrer para viver”.
“Ah, mas que coisa mais pessimista”, podem observar alguns. Não necessariamente. O homem é uma herança de si mesmo. Cada instante devemos decidir o que fazer no instante seguinte, já diria Ortega y Gasset, e isto faz da vida do homem um problema permanente. Morremos um pouco a cada minuto, mas ressurgimos também em momentos mil. Ninguém é plenamente feliz. Vivemos em busca de felicidades momentâneas como compensatórias dos únicos nirvanas plenos aos quais temos direito: um no útero da mãe, e outro na…morte. Mas isso já é assunto para a Psicanálise.
Mas qual, afinal das contas, é a revelação da música, para volvermos ao inicio do texto? No caso específico da Segunda Sinfonia de Mahler, podemos afirmar que a essência é a eterna ressurreição do homem. Viver é ressurgir de um amor não correspondido, é ressurgir da perda de um ente querido, é ressurgir das intrigas do cotidiano, é ressurgir dos medos, é ressurgir das inseguranças, é ressurgir das calúnias que nos torpedeiam, é ressurgir das frustrações, é ressurgir de um momento, de um pensamento, de um preconceito, de uma rejeição, de uma rusga, de uma lágrima que cai…
Por isso vivemos.
Por isso ressurgimos.
Abaixo, o final da Segunda Sinfonia de Mahler. A orquestra é a Filarmônica de Viena, conduzida por Leonard Bernstein.
Ai, que preguiça. Falar mal do Carnaval é quase tão insuportável quanto o próprio Carnaval. Fico cá com meus zíperes a matutar sobre o que leva a essa gente do balacobaco tanta empolgação. Nunca nada muda! É sempre o mesmo ziriguidum, o mesmo bundalelê. Comentarias das transmissões insistem em nos fazer acreditar que os enredos são composições artísticas cuja poesia revela nossa subantropologia. E dá-lhe aquela bateria toda! Tum-ba-ba-ba-tim-bum e paniticambá – em compassos quartenários, evidentemente. Os cantores, sempre seu gingado similar ao balançar de um pêndulo, provocam espasmos em suas laringes afim de produzir o costumeiro timbre barítono – risos! – berrado. E como suam, meu Deus; como suam!
Como se não bastasse o Carnaval ele-mesmo, a cobertura da festança nos brinda com a exposição da metafísica carnavalesca. O objetivo é claro: despertar em nós o frêmito de sair por aí rodopiando ao som das batucadas e a sacolejar o traseiro para lá e para cá. Vocês sabem: nossas raízes, nossa brasilidade, nossa gente… Sempre dão um jeitinho de colar santo disso e santo daquilo em algum momento da festa. E claro, a mãe maior também não pode ficar de fora – assim como o comando “tira o pé do chão” (assim, ignorando a forma correta de um verbo no imperativo).
Dilma Rousseff não fala. Já criaram-se até mesmo alguns clichês sobre seu jeito de ser. Ela não recebe visitantes, recebe pautas; almoça com o prato de comida em seu gabinete enquanto manda a ver em um notebook (quem não se lembra de quando Lula atribuiu a ela a idéia de se adotar computadores móveis na histórica política do País?); ela não fala, seus ministros falam; escolhe a dedo as indicações de aliados esgueirada em princípios técnicos; peita adversários, e, se estes optarem por lhe causar dor de cabeça no Congresso, então é porque não são aliados; se seu antecessor pecava pelo excesso de palavras, ela não incorre no mesmo erro… E a toada assim se segue, como se os contornos de personalidade e de seu estilo por si só configurassem um corolário inquestionável: ela é competente!
Nunca fui de seguir correntes influentes de opinião. Estou pouco me lixando se os antes críticos ferrenhos do governo Lula começam a ver um quê de graça no estilo silencioso de Dilma. Em pouco mais de um mês ocupando o cargo de presidente, sua gestão já começa a ganhar os contornos de uma fraude. Em agosto, no calor da disputa eleitoral, questionada se o futuro governo ver-se-ia compelido a fazer ajuste de contas para atingir a meta fiscal, Dilma foi certeira: “Com o país crescendo a 7%, com inflação sob controle, com o atual nível de reservas (internacionais)… eu vou fazer ajuste fiscal para que, hein?”, assegurara. “Eu não concordo que o Brasil tenha que se submeter sistematicamente a cada fim de governo a um ajuste fiscal”. Seis meses depois, a mesma Dilma anuncia um corte fantasioso (já explico o porquê) de R$ 50 bilhões no orçamento.
Num silêncio incompreensível, a imprensa vem condescendendo com as contradições de Dilma num ritmo alarmante. O governo anuncia um corte de R$ 50 bi e todo mundo aquiesce, como se cortar verbas e sacrificar compromissos eleitorais não fossem coisas indissociáveis. Uma de suas promessas de campanha foi construir só em 2011 1.695 creches. Até 2014, seriam 5 mil, segundo a então candidata. Mais: também prometeu 2 milhões casas financiadas pelo Minha Casa Minha Vida II (vale lembrar que a primeira versão programa entregou pouco mais de 15% do prometido) e 1.000 Unidades de Pronto Atendimento (UPA). E o que foi que fez Dilma em seu discurso no Congresso? Reduziu, na maior sem-cerimônia, sua promessa de campanha e disse que entregará 500 UPAs até o final de 2014. E a oposição, toda lá, ficou caladinha – mas isso já é assunto pra outro post.
Muitas perguntas estão deixando de ser feitas em meio à parolagem oficial. Miriam Belchior, Guido Mantega (que deu um pito no FMI quando o órgão manifestou preocupação com a meta fiscal do Brasil) e a própria Dilma garantiram que os programas sociais, Saúde e Educação não seriam atingidos pelo corte. Sendo assim, eles têm de vir a público explicar de onde tirarão recursos. O economista do Ipea Mansueto Almeida fez picadinho desse ajuste prometido pela santa trindade econômica. Segue abaixo análise extraída de seu blog:
Vamos ver cada uma das medidas anunciadas e fazer as malditas contas:
(1) Primeira medida: o primeiro foco do ajuste fiscal será na folha de pagamentos, um dos maiores gastos da União. Para tanto, o governo está contratando junto à Fundação Getúlio Vargas (FGV) uma auditoria externa na folha de pagamentos para detectar incorreções.
Isso chega a ser brincadeira de mau gosto. No âmbito de estados e municípios, no passado, isso fazia até sentido quando a contabilidade pública era rudimentar e existiam funcionários fantasmas. Mas no caso do Governo Federal que tem o Sistema Integrado de Administração Financeira (SIAFI) é muito improvável que haja “fantasmas” no serviço público federal, a não ser que o governo desconfie da lisura do governo Lula. Os gastos com pessoal aumentaram não por causa de fraudes, mas porque o governo Lula aumentou os salários e contratou mais funcionários. Ao longo de oito anos do governo Lula, o gasto com pessoal ficou entre 4,30% (2005) e 4,76% do PIB (2009), terminando em 4,55% do PIB, em 2010. O peso da folha de pessoal do governo federal poderia ter sido muito menor se os aumentos ao setor público tivessem sido mais seletivos, mas acho difícil e improvável que haja fraudes que exija uma auditoria externa da FGV.
(2) A ministra também disse que novas contratações no setor público serão olhadas com lupa e que não há neste momento qualquer medida para elevação dos valores pagos para os funcionários em cargo em comissão.
Não sei dizer se a suspensão de concursos públicos é uma medida boa ou ruim, já que há órgãos com excesso de funcionários e outros com carência. A Ministra deveria ter dito quais carreiras não precisam de novos funcionários e aquelas que ainda precisam de funcionários, até porque há ainda uma parte de terceirizados que têm que ser substituídos por funcionários concursados. De qualquer forma, a economia possivel destas medidas é mínima neste ano. Assim, não vai ajudar muito no esforço de R$ 50 bilhões anunciado.
Quanto aos cargos de DAS (comissão dos cagos de direção do serviço público federal), duvido que não haja um aumento pelo seguinte motivo: os cargos de comissão no legislativo aumentaram muito. Um assessor técnico hoje no legislativo (sem vinculo com o setor público) ganha uma comissão de R$ 16 mil. Se você tiver vinculo no executivo, seu salário mensal aumenta em R$ 10 mil. O salário do Secretário de Política Econômica, DAS-6, é de R$ 11.179,36 (sem vinculo com o setor público). Ou seja, do ponto de vista estritamente financeiro, vale mais assessorar um Senador da República do que ser Secretário de Politica Econômica.
(3) Segundo a ministra do planejamento, há a intenção de publicar um decreto reduzindo em 50% em termos nominais as despesas com viagens e diárias.
Impressionante? Acho que não. Algum de vocês sabem o potencial de economia decorrente dessa medida? OK, vamos aos números. Em 2010, o governo federal gastou R$ 976,9 milhões com passagens e despesas com locomoção; R$ 1,04 bilhão com diárias de pessoal civil e mais R$ 220,2 milhões com diárias de militares. Somando tudo temos R$ 2,2 bilhões. Uma redução de 50% significa um economia potencial de R$ 1,1 bilhão, ou apenas 2% do que foi anunciado (R$ 50 bilhões). como falam meus amigos americanos: “No big deal”.
(4) PAC não sofre corte: Ministra do Planejamento afirmou ainda que não haverá corte no Orçamento do PAC nem adiamento na execução das obras. Segundo ela, a maior parte do corte anunciado nesta quarta será no custeio como, por exemplo, na redução das despesas com telefonia, energia elétrica, água e consumo de materiais, em geral.
Não quero ser pessimista, mas isso é impossível. Vou repetir: é impossível um corte de custeio de R$ 30 bilhões, R$ 40 Bilhões ou R$ 50 bilhões de um ano para outro. Um corte de custeio dessa magnitude só seria possível se o governo deixasse de pagar dividas judiciais, cortasse a compra de várias despesas do SUS, não pagasse despesas de indenizações e restituições, etc. Serei mais específico correndo o risco de ser chato.
(a) quais as principais despesas de custeio?
A tabela abaixo detalha as principais despesas de custeio, todas aquelas que em 2010 foram acima de R$ 1 bilhão. O total das principais despesas de custeio foi de R$ 194,5 bilhões. Assim, poderia parecer que um corte de R$ 50 bilhões em cima de R$ 194 bilhões, um corte de 25%, seria factivel.
Em seguida, ele vai fundo na desmistificação da bazófia, usando-se de tabelas confeccionadas a partir de dados oficiais. Vale a pena ler a íntegra do artigo (aqui)
E o malogro das promessas ainda não para por aqui. Ainda na esteira da disputa pela Presidência, Dilma alardeou em todas as tribunas nas quais teve oportunidade de falar que seu governo teria uma marca: a da meritocracia. Ela até acolheria aliados políticos para cargos-chave, mas desde que fossem gabaritados para a função indicada. Também emendou que não seria tolerante com erros, os quais poderiam culminar em escarcéus. No entanto, depois de descer do palanque e vestir a faixa presidencial, não deixou por menos: indicou Ideli Salvatti para o Ministério da Pesca – cujos méritos na área só o éter conhece – e Pedro Novaes para o Ministério do Turismo – cuja trajetória no ramo também é tão relevante quanto um dólar zimbabuense em 2008. Se o critério técnico foi às favas, a intolerância com o erro seguiu o mesmo caminho: Salvatti usou irregularmente verbais oficiais para custear estadia em um hotel de luxo em Brasília e Pedro Novaes gastou R$ 2.156,00 do erário em uma noitada em um motel em São Luís. O que fez a incorrigível Dilma? Como costuma dizer um amigo, manteve-os lindos e belos em seus lugares.
E aí? Vamos continuar com o festival de confetes em cima da competente-imaculada-gerente-técnica-muda-rigorosa-asseriva Dilma? Não contem comigo para isso. Não agora, pelo menos.