Troféu à realidade

  O filme “Tropa de Elite” foi condecorado com o prêmio do “Urso de Ouro”, em Berlim. José Padilha, o diretor do longa-metragem, pode respirar aliviado.  

 A produção foi alvo de críticas no Brasil e também em alguns setores da mídia internacional. Mostrando o lado verdadeiro do cotidiano das favelas e da polícia do Rio de Janeiro, o filme “Tropa de Elite” foi para a Alemanha não somente levando um material representativo do dia-a-dia carioca, mas sim um material que conta uma história recorrente no Rio de Janeiro.  

 O prêmio anterior foi conquistado nesse mesmo festival com Fernanda  Montenegro e o filme “Central do Brasil”. Neste longa, a miséria dos sertões brasileiros e do Rio [de novo] é explorada com bastante riqueza.  

 Foram coroadas produções? Sim. Mas, eu diria que foi além disso. 

   “Central do Brasil” e “Tropa de Elite” mostram realidades de milhares de pessoas que vivem nesse país afora. A violência em um e a miséria em outro ganharam um sentido além de cinematográfico. Auferiram uma acepção de um verdadeiro tapa na cara da sociedade.  

 O brasileiro, insurrecto e intransigente com a violência, viu no capitão Nascimento o seu porta voz. Dar alguns tabefes na cara de marginal, na verdade, é a vontade de pelo menos mais 180 milhões de brasileiros.  

  A miséria do povo nordestino, sofredor com a seca persistente, foi espelhada em alguns momentos por Fernanda Montenegro. Furtou uma rodoviária para alimentar uma criança.  

  Não fica só nos grotões dos nossos sertões. Na rodoviária, a personagem enganava passageiros fingindo que enviava para os destinatários as cartas que escrevia. Assim ganhava a vida.  

 Dois filmes vencedores de um prêmio internacional. Dois filmes que retratam nossa miséria social e moral. Dois filmes que inserem no seu enredo o que nosso país é. Dois filmes premiados pelo seu excelente elenco e produção. Produções galardoadas pelo excelente contexto nele contido. Filmes laureados por serem ótimos.  

 Mas, para mim, foram premiados por um simples aspecto: por assoalharem exatamente duas amplas realidades do Brasil. Infelizmente!