Verdades distintas do Caso Isabella.

Qual é a verdade absoluta do caso Isabella Nardoni? Simples. Não há verdade absoluta. Não pensem que estou colocando em xeque a credibilidade dos quefazeres da perícia, do Ministério Público, dos advogados de defesa e nem da Polícia Civil. Refiro-me ao conceito epistemológico do Relativismo Sofista. Essa corrente de pensamentos filosóficos defende que a verdade absoluta simplesmente não existe.

Uma questão cabível nesse caso seria o motivo de matar uma criança de cinco anos. Para mim e a maioria da população é injustificável e não existe verdade alguma que justifique. Mas para o autor do crime existe uma verdade completamente diferente da minha. Logo, não existe a verdade absoluta. Cada individuo possui sua própria verdade e a põe à prova para fidedignação de sua defesa e razão.

Crueldade contra um ser incapaz de se defender comove e choca o público, ainda mais se tratando de criança O sentimento condenável, odioso, execrável, abjeto e ignóbil de fazer justiça com as próprias mãos logo é despertado na massa (povo), o que a faz descer do seu próprio palanque de discurso politicamente correto para corrigir e punir o SUSPEITO. Para quê? Para defender a sua verdade absoluta.

Leia abaixo (em azul) uma matéria publicada no jornal Folha de S.Paulo de ontem (19/04/2008).

“Autônomo”. “Mas o que o senhor faz para viver?” “Eeeee… Sou carroceiro.” David Rogério Caminha, 36, é o homem de voz possante e hálito alcoólico que, diante do 9º DP, puxa o coro de cerca de 200 vozes que protestam contra o assassinato de Isabella Nardoni, acusam o pai e a madrasta pelo crime, cobram punição -sem descartar o linchamento- e ainda entoam de quando em quando uma versão furiosa e anormalmente acelerada de “Parabéns a Você” (ontem, Isabella completaria seis anos).
Trabalhadora em empresa de ônibus, “com carteira assinada”, como faz questão de declarar, Maria do Rosário da Silva, 43, quer que a polícia entregue o pai e a madrasta de Isabella à turma que se aglomera na porta do DP. “Eu mesma quero asfixiá-lo e depois pisar no pescoço dele quando ele estiver caído”, diz, revirando os olhos como quem saboreia uma idéia.
Maria do Rosário lava ônibus. Trabalha de madrugada. “Quando o povo acorda e pega os ônibus limpinhos, nem pára para pensar. Mas quem deixou assim fui eu”, diz, cercada por faxineiras, manicures, depiladoras, acompanhantes de idosos, esteticistas, vendedores, pedreiros, aposentados, desempregados -essas as ocupações encontradas pela Folha entre os que se acotovelam na frente do DP, além de uma administradora de empresas, de dois cantores e de cerca de 20 crianças com os pais. Um “Bin Laden”, o homem-caveira, um anjo da guarda e um homem-pomba também estavam entre os manifestantes.
Contribuição
Às 19h30, Jefferson da Rocha, 38, autônomo, mal se sustentava nas pernas. Estava exausto. Morador em Cuiabá, Rocha pegou seu Corsa 95 anteontem à tarde e dirigiu 12 horas sozinho rumo a São Paulo. “Era eu, o carro e Deus”, disse. “Mas eu preciso trazer minha contribuição à Isabellinha.”
Foi a essa hora que a multidão organizou um novo coro: “Pega lá, pega lá, pega lá… o casal pra nóis linchá [sic].”
Algo como cem profissionais da imprensa (entre repórteres, fotógrafos, cinegrafistas e pessoal técnico) acompanham a turma dos manifestantes. Tudo foi muito bem organizado pelo delegado Luiz Antonio Pinheiro, do GOE (Grupo de Operações Especiais).
A calçada da delegacia ficou para os policiais (os do GOE são os fortões vestidos de negro, cerca de 30). Também para a polícia ficou uma faixa da rua, visando ao trânsito dos veículos oficiais. Logo depois, vinha o cercado da imprensa, espécie de camarote vip do lugar, equipado com cem cadeiras e um farto suprimento de água mineral. Atrás do pessoal da imprensa, na calçada oposta ao DP, estava o povo. E havia ainda quatro banheiros químicos.
Parecia coisa de show, e logo começaram a chegar os carrinhos de sorvete, de refrigerante, de pipoca e de algodão-doce.
Quatro helicópteros sobrevoavam a cena e caminhões das emissoras de TV espichavam suas antenas de microondas para transmissões ao vivo.
Bolo de R$ 32
Às 12h30, o autônomo Roberto Leite da Silva, 46, apareceu com um bolo floresta negra, produzido pela panificadora São José, “a melhor do bairro”, como todos garantem, que lhe custou R$ 32. Era para lembrar o aniversário de Isabella. Mais um “Parabéns a Você” e, em menos de 15 segundos, o bolo acabou.
A essa altura, o depoimento de Alexandre Nardoni já havia começado havia 45 minutos. Não foi fácil ele chegar lá.
Para conseguir entrar no carro da polícia que os levou pela manhã ao DP, ele e Anna Jatobá precisaram da proteção de 25 policiais armados, cinco seguranças particulares desarmados e dois escudos.
Às 10h da manhã, perto de 300 pessoas estavam diante da casa de três andares do pai de Nardoni, no Tucuruvi, gritando “assassinos” e “justiça”.
Por volta das 10h30, o pai e a madrasta de Isabella tentaram sair de casa num carro da família. O portão da garagem chegou a ser aberto, mas foi logo cercado pelos manifestantes. Não deu para os dois saírem.
Cordão de isolamento
Quinze policiais do GOE foram chamados para ajudar. Com o apoio de dez PMs, eles fizeram um cordão de isolamento para evitar a aproximação das pessoas.
“Sai da frente, porque quero cuspir na cara desse homem [Nardoni]“, gritou uma adolescente, tentando ultrapassar a barreira policial. “Vocês [policiais] querem trabalhar, e nós queremos fazer justiça”, tentou argumentar um homem.
Minutos antes das 11h, com a proteção policial, Nardoni e Anna Carolina desceram as escadas da casa em direção a um carro preto do GOE. Ela foi a primeira a aparecer, chorando. Ele veio logo atrás.
Nesse momento, o clima ficou ainda mais hostil. Uma pedra voou contra a casa, e dois escudos da polícia foram erguidos para proteger o casal. Assim que eles entraram, outra pedra foi atirada contra o carro de polícia. Trincou o vidro.

Como diria o jurista Moro Giaferri: “Opinião pública, esta prostituta que puxa o juiz pela manga”. O conceito de público é muito bem empregado neste dizer. A vontade linchar o casal é desejo individual que se soma ao semelhante sentimento de outros milhares de pessoas. Pessoas estas, que formam a massa. Massa é o povo. Povo leigo e desprovido de cognição suficiente para compreender o processo penal do crime.

A massa é anencéfala, não pensa e não é cognicente, muito menos cogniscível. Age por impulsão sem prezar pelo direito do próximo, que por sinal, é o mesmo direito que lhe assiste.

O grande problema em casos de comoção nacional é a reação hostil das pessoas. Manifestar em prol de uma causa é garantia da Constituição, mas apedrejar alguém é condenável. Mesmo com o direito da liberdade de expressão assegurado pela lei, a massa não tem que protestar em frente à casa da família do acusado nem em frente à delegacia. Primeiro porque o direito à privacidade também é garantia de qualquer cidadão, e, segundo, ao delegado não cabe fazer justiça, e sim, ao juiz de direito.

Assisti um link na porta da casa da família Nardoni na manhã de sexta-feira. A repórter questionava o que aquela gente toda fazia lá. Para minha surpresa, havia uma senhora que tinha viajado 400 quilômetros de sua cidade até São Paulo somente para pedir justiça. Ora, esta senhora aqui em São Paulo ou seja lá de onde ela for não vai influenciar em nada na decisão final.

Que estejam todos sentidos e abalados, compreende-se. Mas acreditar que tal comoção pública pode influenciar na sentença é piada. Se isso acontecer, o Judiciário tem que baixar as portas e fechar para balanço.

Não cabe ao povo pressionar ninguém do Poder Judiciário. A população deve manifestar-se ao Legislativo e Executivo. Quem conhece a teoria de Montesquieu sabe que o Judiciário deve funcionar como a fiel balança entre os poderes da República. O Judiciário apenas interpreta as leis que são fruto dos demais poderes.

E outra, o caso vai a júri. Então o povo leigo estará devidamente representado por sete pessoas.

Quanto à frase de Moro Giaferri, destaco o termo que ele mesmo utilizou: prostituta. Prostitutas utilizam-se da lascívia e de atos libidinosos para ganhar dinheiro sem comprometimento moral ou amoroso nenhum com seu cliente. Logo, é uma figura sem crédito e moral para querer julgar alguém. Se um juiz de direito deixa-se influenciar por uma prostituta, que vá ser cafetão, não uma pessoa a quem o Estado lhe confiou a capacidade postulatória.

Lamentável, também, foi a cobertura da mídia. Tenho aval para criticá-la pois também sou de mídia.

No anseio de colocar no ar assuntos irrelevantes que muitas vezes só serviam de gancho, a imprensa, involuntariamente, jogava a população cada vez mais contra o casal. A opinião pública é o que se publica. Portanto, se hoje o casal perdeu completamente o direito de ir e vir, créditos à imprensa.

Não me venham os colegas de sites, jornais, emissoras de rádio e tv dizer que “só estamos cumprindo com nossa função”. Certo seria noticiar o fato, a conclusão do inquérito e a sentença quando proclamada. Mas não. Todos os dias e noites haviam furgões de link, aparato cinematográfico, repórteres, fotógrafos e tantas outras coisas na porta da casa dos acusados e na frente da delegacia. E tudo isso para quê? Para muitas vezes falar que “a movimentação de jornalistas e curiosos é muito grande”, ou ainda que “a expectativa é grande para a chegada dos advogados”, quando não: “ninguém da família conversou com a imprensa”. Isso chegou a ser banalização de cobertura de imprensa. Deixou de ser jornalismo e virou novela, que não passa de entretenimento.

Outro ponto que a sociedade e a mídia, de uma forma geral, parecem esquecer: o desfecho desse caso não dar-se-á tão cedo. Jorge Farah matou Maria do Carmo Alves em 2003 e foi condenado somente na última quinta-feira, dia 17. E detalhe, ele não saiu do tribunal preso, pois o Supremo Tribunal Federal tem uma jurisprudência de que o réu só pode ser condenado à prisão depois do trânsito em julgado.

Portanto, não adianta o povo ficar fazendo bolinho, pintando cartazes comoventes, ofendendo os Nardoni, fazendo êxodo até São Paulo, orações ao santo que for, montando comunidades demagógicas no orkut; esperando que essas atitudes acelerem o processo de julgamento de Alexandre e Carolina. A verdade absoluta do Estado está acima da verdade absoluta da massa anencéfala. E graças a Deus por isso.

8 Respostas

  1. Gostaria de parabenizá-lo pela matéria.Julgo-me ser uma pessoa leiga tanto no assunto, quanto no conhecimento de mundo devido a minha pouca idade.Porém, ao buscar esclarecimentos ás minhas dúvidas em seu blog, extasiei-me com uma linguagem requintada e sarcástica, e que refletia, além do meu repúdio pelas reportagens tacanhas e enfadonhas circuladas pela mídia em geral,uma visão mais realista e objetiva dos fatos.
    Não considero meu comentário tão relevante, mas não podia deixar de fazê-lo.
    Obrigada!!!

  2. Caro, excelente texto. Parabéns.
    Gostei do último parágrafo…”não adianta fazer bolinho”..kkkkkkkkkkkkkk

  3. Nessas horas surgem gente para tudo. Atér para defender aqueles assasisnos!!!!!!!!!!

  4. Lamento muito.

    Você, meu caro, esqueceu que aquele que se diz pai, enm socorro prestou à filha. Tente explicar como em pouco tempo um terceiro elemento entrou naquele apartamento e matrou a menina. Ai sim você estará ajudando a justiça.

    Resposta do blog.
    Se em todo o momento defendi que as instituições democráticas é que devem fazer a justiça, como eu poderia fazê-la?

  5. Parabéns!!!
    vc conseguiu esclarecer e ser íntegro na sua matéria. Qualidade encontrada em poucos jornalistas, alem de tudo sem sensacionalismo!!!
    Me ajudou e muito num trabalho de redação sobre o poder da imprensa!!!!!
    Valeu!!!!

  6. vc disse que a verdade absoluta do estado esta a cima da verdade absoluta da massa anencefala… verdade esta que poem em liberdade pessoa que roubam milhoes e prendem pessoa que roubam um pote de margarina… que aprisiona um pai de familia que mata um bandido para se defender e poe em liberadade um assasino frio e calculista porque tem poder e prestigio … se e isso que vc chama de verdade absoluta… prefiro viver na mentira absoluta da massa anencefala… e deixar vc um jornalista de renome e inteligente como se julga a permacecer na sua verdade absoluta… e ser julgado … por quem deve julgar a todos…

  7. Sociopata: As características dos sociopatas englobam, principalmente, o desprezo pelas obrigações sociais e a falta de consideração com os sentimentos dos outros. Eles possuem um egocentrismo exageradamente patológico, emoções superficiais, teatrais e falsas, pobre ou nenhum controle da impulsividade, baixa tolerância para frustração, baixo limiar para descarga de agressão, irresponsabilidade, falta de empatia com outros seres humanos, ausência de sentimentos de remorso e de culpa em relação ao seu comportamento. Essas pessoas geralmente são cínicas, incapazes de manter uma relação leal e duradoura, manipuladoras, e incapazes de amar. Eles mentem exageradamente sem constrangimento ou vergonha, subestimam a insensatez das mentiras, roubam, abusam, trapaceiam, manipulam dolosamente seus familiares e parentes, colocam em risco a vida de outras pessoas e, decididamente, nunca são capazes de se corrigirem. Esse conjunto de caracteres faz com que os sociopatas sejam incapazes de aprender com a punição ou incapazes de modificar suas atitudes. Quando os sociopatas descobrem que seu teatro já está descoberto, eles são capazes de darem a falsa impressão de arrependimento, falseiam que mudarão “daqui para a frente”, mas nunca serão capazes de suprimir sua índole maldosa. Não obstante eles são artistas na capacidade de disfarçar de forma inteligente suas características de personalidade. Na vida social, o sociopata costuma ter um charme convincente e simpático para as outras pessoas e, não raramente, ele tem uma inteligência normal ou acima da média.

  8. A EMPRENSA COME COM OS PORCOS NESTE COXO DE IMUNDICE. A “LAVAGEM” suculenta que os alimenta engorda seus faturamentos, enquanto o povo em sua miserabilidade se delicia num mar de ignorancia. Um pais desgovernado, onde já não existe mais o senso do que é certo e do que é errado.Um mar de lamas e de mentiras onde a fantasia é tornada verdade há qualquer custo para abrilhantar o “EGO” de quem quer se promover ou se vingar de magoas passadas. Hoje nem mesmo que o casal confesse eu e muita gente nao acreditara pois para nós será resultado de pressões torturosas as quais estão sendo submetidos. Se frente as cameras de tv e para o mundo todo vendo fizeram as arbitrariedades que fizeram com eles, imagine o que não estão fazendo com eles mantidos encarcerados em solitárias e sem nem ao menos poderem receber a visita dos pais por dez dias.ABSURDO o que se tornou a morte da LINDA ISABELA.
    Se eles sao inocentes o que é o mais concebível, imagine como o (os) assassinos riem da burrice dos investigadores e dos erros das conclusões periciais.
    Lamentável que a pequena e LINDA ISABELA não tenha tido o direito de que sua morte fosse realmente investigada e os assassinos punidos.
    Este crime vai ficar impune sim porque ELES SÃO INOCENTES e não sou só eu que penso assim. MILHÕES de pessoas estão revoltadas de ver a justiça proceder desta forma “É PIOR DO QUE NÃO INVESTIGAR” “É PIOR DO QUE NÃO SE FAZER PRESENTE” “È A VERDADEIRA DEGLADAÇÃO DE UM POVO DESATINADO” !
    VEJA-se o caso do Jornalista GUILHERME FIUZA quando perdeu seu filho “PEDRO” que caiu de uma janela no Rio de Janeiro . ELE diria ao casal: “EU JÁ PASSEI POR ISTO.
    É impressionante a semelhança dos fatos. QUE DEUS TENHA MISERICÓRDIA DESTES QUE ATIRAM PEDRAS E QUE UM DIA ESTES QUE ESTÃO SENDO SUBMETIDOS A ESTA HUMILHAÇÃO E SOFRIMENTO ARBITRÁRIO E ILEGAL POSSA PERDOAR SEUS ALGOZES, SE SOBREVIVEREM
    Não posso deixar aqui de parabenizá-lo pelo rico teor acima, embora tenho certeza de que VC não o fez para brilhar ou se promover

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