A pressão das urnas em cima de Morales.

De O Correio Braziliense

O departamento de Santa Cruz, região que concentra 30% do Produto Interno Bruto (PIB) da Bolívia, encerrou ontem a campanha a favor do estatuto de autonomia, que será submetido a referendo popular neste domingo. Desafio aberto ao presidente Evo Morales, a iniciativa ameaça agravar as tensões decorrentes de dois projetos conflitantes e agravar as rupturas regionais em um país caracterizado pela instabilidade política. Uma delegação da Organização dos Estados Americanos (OEA), coordenada pelo subsecretário de Assuntos Políticos (e ex-chanceler argentino) Dante Caputo, encontra-se em La Paz para tentar restabelecer o diálogo e reaproximar as partes. Depois de conversar com o mandatário no Palácio Quemado, a comitiva seguiu para a província, onde tem agendada uma audiência com o prefeito (governador) Rubén Costas.
“O presidente manifestou a vontade de dialogar”, afirmou Caputo ao sair do encontro de quase duas horas com Morales. “Vamos ver qual é a disposição dos prefeitos”, disse o dirigente da OEA, que se reunirá também com os governadores de Tarija, Beni e Pando, que realizarão consultas similares em junho. Outras regiões estão divididas, como Chuquisaca e Cochabamba: os líderes conservadores apóiam a realização de referendos pela autonomia, enquanto grupos sociais locais rejeitam a iniciativa. La Paz, Oruro e Potosí, que no século passado sustentaram a economia nacional com a mineração, estão fechadas com Morales.
“A viabilidade do projeto político do governo e dos autonomistas passa por um acordo”, disse o professor Fernando Mayorga, da universidade pública de San Simón, em Cochabamba. No entanto, ninguém parece disposto a negociar. E, caso não haja diálogo, Tarija, Beni e Pando seguirão o caminho de Santa Cruz. “Será um efeito dominó”, garante Rubén Costas.
Conflito
A votação de domingo em Santa Cruz é considerada ilegal pela Corte Nacional Eleitoral, mas mesmo assim deve contar com elevada participação entre os mais de 900 mil eleitores habilitados. A Corte Departamental Eleitoral, em desafio direto ao poder central, está dando completo apoio ao plebiscito, mobilizando computadores e funcionários. Nos últimos dias, a mídia local publicou pesquisas apontando que mais de 70% da população votará a favor dos estatutos de autonomia. Se aprovados, eles entrariam em vigor já na próxima segunda-feira, segundo as autoridades locais.
O governo central se refere à votação como “uma simples pesquisa”. Mas a expectativa dos líderes regionais é bastante diferente. “Depois do referendo, nascerá uma nova República, não centralista”, declarou Costas. O vice-ministro de Coordenação com os Movimentos Sociais, Sacha Llorenti, rspondeu: “Isso demonstra as verdadeiras intenções deles”.
A Igreja católica, instituição de grande influência no país, preocupa-se com a radicalização e observa que, no momento, não existem condições para negociar o fim da crise. “Há três razões para o fracasso das conversações: a desconfiança entre as partes, a inexistência de interlocutores válidos e declarações assumidas como medidas de fato”, admitiu monsenhor Jesús Juárez, membro da Conferência Episcopal boliviana. “Ainda não foram dadas as condições para iniciar o diálogo.”

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