Combate à poluição ajuda a secar Amazônia

Da Folha de S.Paulo

O aquecimento global foi mesmo o responsável pela seca recorde que assolou a Amazônia em 2005. Mas ele não agiu sozinho, e sim com a ajuda de um comparsa insuspeito: o combate à chuva ácida nos Estados Unidos e na Europa nos últimos 30 anos.
Um estudo publicado por britânicos e brasileiros mostrou que a redução na quantidade de partículas (aerossóis) de enxofre no ar no hemisfério Norte, resultado de leis contra a poluição, acabou se somando às emissões de dióxido de carbono para produzir o clima anormal no oceano Atlântico que provocou a estiagem -uma das piores do último século.
Embora outros trabalhos anteriores já tivessem relacionado essa seca às temperaturas altas no Atlântico Norte, a nova pesquisa, publicada hoje na revista “Nature”, é a primeira a apontar culpados e estimar a responsabilidade humana.
A previsão dos cientistas é que, com o sucesso cada vez maior das políticas de combate à poluição por enxofre, grandes secas na Amazônia serão mais freqüentes. E a humanidade terá de se esforçar mais para reduzir a carga de CO2 na atmosfera se não quiser ver a floresta entrar em colapso até 2100.
Há boas razões para não querer isso, além da preservação da biodiversidade e da qualidade de vida dos brasileiros: a maior floresta tropical do mundo detém 10% do carbono armazenado nos ecossistemas terrestres. Se lançado na atmosfera, esse carbono ajudará a esquentar ainda mais o globo.
“A limpeza do ar no hemisfério Norte é completamente justificada no sentido de salvaguardar a saúde humana e reduzir a chuva ácida, mas ela aumenta a urgência com que nós devemos também lidar com as emissões globais de gases-estufa”, disse à Folha o climatologista Peter Cox, do Met Office (serviço meteorológico britânico). Ele é o autor principal do estudo, que teve participação de José Marengo e Carlos Nobre, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

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