Rodrigo Manzano
Revista Imprensa
Pequena menina Isabella, de apenas cinco anos:
Não me leve a mal: você já cansou. Melhor dizendo, estou cansado de você. Há mais de 30 corridos e longos dias, só ouvimos aqui falar na sua morte brutal, na estupidez de seu assassino, na batalha entre violência e delicadeza, na justiça, com caixa alta e caixa baixa. Se bem que toda essa publicidade não é culpa sua, nada tem a ver com o que você deseja ou permite. Fazem tudo isso em seu nome, mas sem seu consentimento.
Por favor, não me interprete rude, mas seria melhor que sua morte tivesse sido anônima, como são tantas outras mortes – igualmente brutas e violentas – no dia-a-dia. Jogado pela janela, que seu corpo ali estirado no chão se contabilizasse no perverso balanço das agressões cometidas contra crianças e adolescentes no Brasil e no mundo. E fosse registrado apenas num pé de página, numa nota pelada, lida apressadamente pela apresentadora de televisão. Seria melhor para todos nós, especialmente para você. Porque não faz sentido que a imprensa dê tanto destaque para seu assassinato se ele não ajudar a reduzir as outras centenas de mortes de crianças nas mesmas condições que a sua.
Você é muito nova, talvez ainda não tenha percebido que se transformou na principal atração de um grande e bizarro espetáculo. Não se iluda: os jornalistas querem mesmo é ganhar em cima de sua triste história. Se houvesse mais sangue, mais violência, mais absurdo, mais felizes eles ficariam. Repare bem nas cínicas caras dos repórteres de televisão. Enquanto parecem compungidos, sensibilizados com seu assassinato, escondem, no canto da boca, um perverso sorriso de satisfação e contentamento. Perceba também as planilhas de audiência das emissoras de televisão, a circulação das revistas que estampam a sua foto. Tudo isso pode lhe ajudar a compreender que sua morte é apenas um meio.
Enquanto seu sofrimento provoca gozo na mídia, o povo pede justiça. Não acredite no povo quando ele estiver debaixo dessas circunstâncias. O povo não quer justiça. O povo quer notoriedade. Empunham palavras de ordem, cartazes em cartolina, clamam por vinganças ou justiça. Mas o povo deseja, de verdade, tão e somente seus 15 segundos na televisão. Ontem eu vi uma mulher histérica, a sacudir o gordo corpo como quem manifesta demônios ou entidades sobrenaturais, clamando vingança e pedindo linchamento público de dois acusados, agora presos. Ela estava em seu júbilo particular. Desligadas as câmeras, o clamor desaparece. O aluguel atrasado é mais importante que sua morte e a notoriedade, mais desejada que sua vida.
Veja bem, no começo a chamavam “Isabella Nardoni”. Depois, “menina Isabella” ou “pequena Isabella”, bem como “Isabella, de apenas cinco anos”. Queriam qualificar você, provocar emoção sobre a barbárie. De minha parte, a chamo agora de “Pequena menina Isabella, de apenas cinco anos”. É uma ironia minha, não se entristeça. A imprensa, que empanturrou teu rosto de adjetivos, é a mesma que se recusa a adjetivar adequadamente tanto figuras de mérito, quanto canalhas com quem não tem vergonha de compartilhar a mesa e dividir o vinho.
Isabella, morra. Morra e suma, fuja dos jornalistas, dos repórteres, dos farejadores de sangue, dos comentaristas de polícia, dos especuladores, dos que clamam por justiça. Esconda-se deles como quem se esconde naquela antiga brincadeira de rua.
Atenciosamente e com a melhor das intenções,
Rodrigo
Rodrigo Manzano é Diretor Editorial da IMPRENSA e professor de Jornalismo na graduação e pós-graduação do UniFIAMFAAM, em São Paulo (inclusive, dá aula para o humilde signatário deste blog). É formado pela Universidade Estadual de Londrina e Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de SP.
Leia comentário do caso em “Verdades distintas do caso Isabella”. (20/04/2008 )
auhauahauhauha!
o manzano é foooooda, adoro as coisas q ele escreve. Vc lembra do dia da prova oral dele? eu fui dar o exemlo do caso isabellla e ele disse “não é só caso isabella,é a pqna isabella de apenas cinco anos” exatamente como ele escreveu auhauhauhauhauhau
quero ter mais aula com ele nos proximos semestres!
bjãoo
Fico me perguntando: O que leva um pai a matar sua própria filha?
Eu sei que eu não sou digna de julgar qualquer pessoa que seja, mas diante de tanta frieza
e violência, não consigo enxergar o perdão.
Era só uma criança, que nem sabia o que estava acontecendo,me coloco no lugar dessa menina primeiro,
e imagino o seu inocente pensamento:” Por que papai? Por que faz isso comigo, não me ama mais? O que eu fiz?”
E nesse momento respondo a ela: ” Por que os homens já perderam o respeito por si próprio, já
perderam a dignidade, e principalmente, perderam a essência da vida, O AMOR… Você querida
Isabella, nada fez, nada que a fizesse merecer esse fim!
Agora, me coloco no lugar dessa mãe, a qual deve se perguntar todas as noites
o porque de tanta crueldade, e quem sabe até já se culpou por ter dado a sua filha um
animal como PAI…fico a imaginar a dor dessa mulher toda vez que se deita e se lembra do seu
anjinho, como deve fazer falta tocá-la, abraçá-la, beijá-la…
Nenhum ser humano é digno de tanta perversidade, por mais imoral que ele saja, muito menos
uma criança!
Se eu tivesse a oportunidade de falar com esse homem, ao menos uma vez, lhe perguntaria o
que ele tem dentro dele, será que tem um monstro como nos filmes? Porque nenhuma resposta
racional lhe traria uma redimição…
” Por que homem, você não se jogou de lá? Por que não se matou? O que tinha na sua cabeça
quando teve esse ato de atrocidade com sua própria filha, sangue do seu sangue? Não tem sentimento?
Não dói sua consciência? Quando lembra do rostinho daquela doce criatura, não te traz um pouco de
arrependimento? Não digo arrependimento por você estar preso, mas por saber que nunca mais irá
ouvir a voz daquele anjo, que nunca mais irá olhar nos olhos dela”…
Se dói tanto em mim, imagino em você Ana Carolina, ou melhor, não imagino… Mas quero que você lembre
que acima de qualquer justiça humana, temos a justiça de Deus, e eu tenho certeza que isso doeu
muito mais no coração dele do que no de qualquer um de nós! Creia que o juiz eterno está ao NOSSO
favor( nosso, porque esse problema, essa dor não é só sua,e sim de todo o Brasil), ele irá nos “defender”
!!
Escrevo, porque creio que seja essa a vontade de todos os brasileiros,não de julgar esse homem
ou a infeliz da esposa dele,mas de abraçar Ana Carolina, dar as mãos a ela, e dizer que mesmo
não conhecendo Isabella, ela estará em nossos corações eternamente!!