Nada como um dia após o outro. Esse clichê também é aplicado à política.
Vejam que coisa. Anteontem, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, foi ao Senado para falar do PAC e do dossiê anti FHC. Enrolou todo mundo e ainda saiu por cima da carne seca depois de aproveitar muito bem a deixa de José Agripino.
Dilma afirmou veementemente que não há dossiê, há sim, banco de dados. O PAC, para ela, é um sucesso, mesmo tendo investido apenas 1,1% de todos os recursos previstos para o programa neste ano.
A ministra tem uma excelente oratória. Conseguiu sair da Comissão de Infra-Estrutura com uma imagem de mulher torturada pela ditadura e que preserva os valores de um Estado Democrático de Direito.
Realmente, mentir em estado de exceção é garantir sua própria vida e a vida de outros. Assim como a ministra, eu também sou contra qualquer governo militar e absolutista. Mas em democracia, que graças a Deus é a nossa realidade atual, não se faz necessária a mentira.
Se não existe dossiê, então por que José Aparecido Nunes, funcionário subordinado da Casa Civil, enviou planilhas com gastos de FHC para o e-mail do assessor de Álvaro Dias? Se não era dossiê, então qual era a finalidade desse e-mail?
Apesar de todos esses fatos concretos, Dilma Rousseff reiterou que inexiste qualquer tipo de dossiê. Claro. Se ela falasse a verdade no Senado, seria seu primeiro passo rumo a um cadafalso. Mas, aventemos a possibilidade de que a ministra realmente desconhece todos esses fatos. Se assim for, Erenice Guerra, que é seu braço direito na Casa Civil, deve ser imediatamente requerida pela ministra para prestar esclarecimentos.
Não é possível que dentro do Palácio do Planalto existam pessoas que usufruem do cargo lhes confiado afim de produzir papelórios ao seu bel-prazer sem que ninguém saiba disso. Tal fato demonstra a falta de gerência dos gestores palacianos.
Dilma sabia? Não? Então Erenice Guerra sabia – haja vista que o processo de montagem de banco de dados era liderado por ela. Ouvir que nem Dilma nem Erenice sabiam da existência do dossiê, desculpem-me, mas é porque tem gente mentindo descaradamente nessa história, mesmo não estando mais em uma ditadura.
Agora, resta à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito convocar imediatamente José Aparecido Nunes – assessor da Casa Civil; o assessor de Álvaro Dias e Erenice Guerra. Os argumentos da base governista de que não é viável a convocação de ninguém da Casa Civil porque o caso já é alvo de sindicância interna e de inquérito da Polícia Federal não são mais laudáveis. O dossiê tem viés explicitamente político. A investigação da PF não abrangerá o cerne da esguelha política como pode ser abarcada em uma CPMI.