Igualdade. Eis aí uma palavra que desencadeia nos defensores das ações afirmativas alguns relapsos sociais imperdoáveis. E o pior: acham que seguir até o fim com essa cega obstinação vai trazer eqüidade à nossa sociedade desigual. Pobres imbecis! Os cretinos acreditam piamente que um sistema de cotas de, pasmem, 60% (50% para pretos e 10% para deficientes físicos) traz mesmo igualdade.
O bom senso e a coerência levaram um pé nos fundilhos nesse debate. O sistema de cotas raciais tem berço americano, onde o conflito rácico foi iminente e inegável. Querer importá-lo não passa de uma incongruência por dois motivos: 1- no Brasil, nunca houve, digamos, institucionalização de raça; 2- a proposta é kafkaniana: ao querer atenuar pseudo-consequências históricas por intermédio de cotas o resultado só pode ser reverso.
No adágio incessante provocado por esse debate, somos obrigados agüentar chuvas torrenciais de besteiras vindas dos setores que lutam pelas minorias e, para promovê-las, atrevem-se a arriscar mistificações. O Frei David Raimundo dos Santos, diretor-geral do Educafro, afirma que 60% de cotas é um número ainda baixo. Para o valente, “se só 12% dos estudantes são formados em escolas particulares no ensino médio, essa deveria ser a participação desse grupo. Os outros 88% deveriam ser dos egressos de escolas públicas”. Em alusão a Voltaire, ao ler tal coisa, minha vontade é de andar sobre quatro patas!
Antônio Carlos Moraes, secretário de inclusão social da Universidade Federal do Espírito Santo, manifesta sua opinião sobre o assunto. Se você, nobre leitor, tem ojeriza a exacerbações sociais, não leia! Como eu já estou vacinado desses assuntos de manada, habituei-me. Segue, em azul, trechos do texto de Moraes. Farei algumas intervenções.
O sistema de cotas, em uma sociedade democrática, deve existir para corrigir distorções históricas nos campos social, cultural e econômico.
Muito bem. Ocorre que “distorções sociais” não são exclusivas dos pretos. Gays, lésbicas, bissexuais, gordos, pobres, soropositivos e feios também são vítimas das famigeradas “distorções sociais”. Sendo assim, que sejam criadas cotas para todas essas categorias de gente. Por que beneficiar somente os pretos? Ah, sim; antes que me chamem de racista – coisa que não sou – em virtude de eu chamar negros de pretos, dou uma elucidação: se não é racismo chamar uma pessoa caucasiana de branca, porque seria racismo chamar alguém negro de preto? Se formos apelar à História, o termo “negro” é muito mais pejorativo que “preto”. Nas senzalas, a tratativa-desdém por parte dos grandes fazendeiros se dava através de caracterizações como “negrinho”, “negrinha”… Ora, eu, hoje, sou moreno claro. (Como odeio o sol). Mas nasci branco de olhos verdes. Logo, se fosse seguir a cartilha dos pensantes do movimento politicamente correto, exigiria que me chamassem de meio-caucasiano-meio-negro. R-I-D-Í-C-U-L-O!
Tenho repugnância por coletividades aparelhadas. Essa gente vive procurando minorias para torná-las maiorias e impor novos pensamentos a fim de romper pseudo-establishments dominantes. Para isso, adoram inventar rótulos e distribuí-los a torto-e-à-direita. Montam um grupinho de sem-teto, de mulheres vítimas de violências domésticas, de crianças com nariz escorrendo e logo exigem uma legislação exclusiva para lhes defender e garantir direitos especiais. E isso é um perigo. A lei Maria da Penha, por exemplo, é uma aberração. A violência contra mulher foi hipervalorizada. Logo, vão querer hipervalorizar a violência contra homens, gagos, carecas, loiras, amantes de jazz, jogadores de malha… As minorias, como se nota, passam a configurar aquilo que Auden já falava: “And the crack in the-cup opens/ A lane to the land oh the dead”. A fenda na xícara de chá abre uma trilha para a terra dos mortos. As minorias, aqui, ficam representadas por essa fenda.
Mas voltemos ao texto de Antônio Carlos Moraes
É inaceitável viver uma democracia em que seus entes sejam separados em agrupamentos humanos que, coincidentemente, são interligados em suas condições objetivas de vida onde a ausência do ensino superior é elemento comum.
Nota-se que o rapaz é prolixo. Falou, falou, falou e não disse nada…
É coincidência que as pessoas com deficiência, dos pretos, dos índios e dos oriundos da escola básica pública sejam, em sua maioria, pobres e sem curso superior?
Não, meu caro, não é coincidência. Até porque conheço muitos loirinhos dos olhos azuis com gelzinho no topetinho que também não conseguem cursar o ensino superior. E isso se deve a duas razões: 1- falta de mérito e capacidade pra passar em vestibular de faculdades públicas; 2- não terem condições para pagar uma faculdade privada. Edson Arantes do Nascimento – justo ele!!! – fala muitas asneiras; mas, certa vez, disse algo sábio: o problema, no Brasil, não é com o negro, mas com o pobre. Na mosca!!! Se se quer diminuir distorções sociais no tocante ao ensino superior, que sejam criadas cotas para pessoas de classes sociais mais baixas, não cotas que atendem somente pretos e índios. (E nada de falar afro-descendentes nem índio-descendentes. Ora, ninguém chama minha mãe de ítalo-descendente).
Outro dia, alguém me perguntou: vamos transformar a universidade em uma pizza fatiada para vários setores da sociedade? Eu respondi que sim e as maiores fatias deveriam ser destinadas aos setores que mais precisam.
Quanta bobagem! Não existe isso de “maiores fatias deveriam ser destinadas aos setores que mais precisam”. Afinal, há uma obviedade inquestionável nessa história: TODAS AS FATIAS (que terminho mixuruca!) DA SOCIEDADE – DESDE O CARENTE DO CAPÃO REDONDO ATÉ QUEM MORA NA COBERTURA DEM UMA DAS TORRES DO PARQUE CIDADE JARDIM – PRECISAM DE ENSINO SUPERIOR. A diferença está na base educacional que cada um teve. O morador do Capão Redondo provavelmente não cursou em escolas do mesmo nível de quem mora no condomínio Cidade Jardim. Daí, repito: o critério de cotas por classe social seria mais justo que exclusivamente por raça.
Se é verdade que o curso superior muda a vida das pessoas, então não tenho dúvida de que tal possibilidade deve estar ao alcance do maior número de pessoas e, para corrigir as distorções históricas e colocar o Brasil nos trilhos da modernidade, as maiores fatias devem ser destinadas aos setores que mais precisam.
Até agora tanto as iniciativas isoladas das universidades quanto o projeto 180/2008 da Câmara são bastante generosas com os velhos “donos das vagas”. São menos de 20% e ficarão com 40% das vagas. Deficientes e estudantes de escolas públicas são mais de 80% e ficarão com apenas 60%.
Que coisa, não! O cotismo quer destinar 60% das vagas para pretos e deficientes e deixar 40% para os demais. Se a toada continuar assim, logo, os brancos e ricos vão olhar ao céu e clamar em alta voz: “Oh, Deus! Por que não me fizeste negro?”
O sistema de cotas é algo do qual os próprios negros deveriam se envergonhar. No cerne, o projeto tem um significante simpático, mas um significado horrendo. Dá-nos a impressão de que negros são inferiores e só conseguem espaço na sociedade através de cotas. A mistificação é pretérita. Querem recompensar todas as agruras por que os escravos passaram concedendo a seus consangüíneos do século XXI benesses coletivas.
A escravidão já acabou!
Chega de ficar tirando proveito de uma situação abominável para fazer justiçamentos baratos.
Nosso problema não são os negros, mas, sim, nossa miséria.
Nosso problema não são os negros, mas, sim, nosso sistema falido de Educação pública.
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