Copacabana no Reveillón? Deus me livre

Assistir aos telejornais momentos antes da virada de fim de ano é algo que desperta em nós, como diria Voltaire, aquela recôndita vontade de sair andando sobre quatro patas. O filósofo fez essa sagaz observação em cartinha endereçada a Rousseau, o pensador que acreditava que a civilização fez mal ao homem. A gente como é, né? Bom mesmo é ser selvagem, viver no estado de natureza, disputando um lote à base de paulada.

Volto aos jornais.

Estava eu vendo a Globo News horas antes da passagem de 23h59 de 31/12 para 00h00 de 1º/1. Os repórteres estavam ao vivo no Rio de Janeiro, de onde transmitiam ao mundo o que as pessoas que optaram por passar a virada lá tinham a falar, fazer, escutar. Sabemos como é: jornalista adora um fala-povo, essa maldita praga na profissão que consiste em nada mais nada menos do que fazer uma pergunta clichê a um-qualquer que se encaixe no cenário da reportagem e, assim, arrancar-lhe uma resposta igualmente clichê.

Sempre vemos esse tipo de coisa pipocar nos noticiários. Tem greve de metrô? Lá vai o repórter falar com a dona Maria das Dores, moradora de algum bairro periférico da cidade, auscultar suas agruras. O ramerrame costuma ser sempre o mesmo: diz que saiu de casa cedo, que foi apertada no ônibus, que vai se atrasar, que vai ter de ligar pro patrão etc etc etc… É Natal em tempo de crise? Então bora pro supermercado, em busca de uma dona de casa que trocou o peru por frango, a lichia por morango, a uva passa por nada… Inflação está pesada? Compras do dia a dia estão caras? Que tal sair à caça de alguém que trocou Tele Sena por maçã do amor?

Não que o fenômeno, em si, objeto das matérias, não seja interessante. A obstinação por chancelá-lo com a participação popular é que sempre beira a insignificância. Quase nunca agrega nada ao todo.

Não foi diferente na transmissão da virada de 2016 para 2017. No Rio de Janeiro, dois repórteres estavam lá, no meio do povo, para ouvi-lo, dar-lhe voz, conferir-lhe espaço. A troco de quê? Sei lá! Primeiro, o repórter conversou com uma turma que chegou lá 15h de 31/12 (“pra garantir lugar na areia”) e só iria embora 15h de 1º/1. A câmera focou a tenda das pessoas, a caixa com bebidas e, afastando-se para ampliar o ângulo, finalmente, captou a turma toda, que se reuniu em volta do repórter e começou a berrar aqueles “u-huuuus” insuportáveis.

Ainda no Rio, a Globo News mostrou como as pessoas fazem para garantir que ninguém se apoderará de seu espacinho previamente tomado na areia. Um monte de gente espalha guarda-sol, sob o luar de verão, em uns metrinhos quadrados na areia de Copacabana (“assim ninguém toma nosso lugar”). Onde estava o repórter, a pessoas pulavam ao som de funk, em passinhos de gosto duvidoso, em claro desafio à árdua habilidade de conciliar o etilismo com a capacidade de resistir à atratividade física exercida pelo chão, também conhecida como gravidade.

A razão áurea é um dos vetores do belo, já notavam os gregos. Trata-se de uma proporção algébrica que, sistematizada e aplicada em diversas esferas (biologia, arquitetura, literatura, arte…), confere a beleza e lógica àquilo em que foi utilizada. Botticelli usou a proporção áurea em O Nascimento de Vênus, por exemplo, ao desenhar Afrotite. Mona Lisa, de Da Vinci, foi pintada com as proporções áureas sendo respeitadas entre o tronco e a cabeça e nos traços do rosto. Disso, pode-se apreender que beleza, no ser humano, é o respeito à proporção — o cabelo proporcional ao rosto, os olhos ao nariz, a boca aos olhos e  ao nariz…

O Nascimento de Venus, de Botticelli. Afrodite, no centro, foi pintada respeitando a proporção áurea.

Nada na turma filmada em Copacabana era proporcional, se é que me entendem. Nem era meia-noite, e, naquele momento, pude constatar que Iemanjá já devolvera uma oferendas. Coisa ruim ela devolve mesmo. Certa ela!

Nas demais entradas ao vivo, a sina se repetiu. Pessoas suando bicas em um calor infernal, todas amontoadas uma em cima das outras, ávidas por se postarem em frente à câmera com seus drinks de péssima qualidade e seus sorrisos de felicidade por estarem lá, naquelas condições. Era a destruição da beleza, que arte nenhuma seria capaz de retratar nem com as mais sofisticadas técnicas de pintura surrealista ou abstrata. Juro que um dia vou entender a sina da Globo em mostrar gente feia como o suprassumo do brasileiro.

Desliguei a TV.

Saí andando sobre quatro patas.

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Copacabana no Reveillón? Deus me livre

O cúmulo da ingenuidade: acreditar no fim da corrupção

A ampla maioria das pessoas que tenta desqualificar as manifestações contra o governo recorre à desculpa que os manifestantes dão por estarem nas ruas: todos querem o fim da corrupção.

Isso é de uma ingenuidade supina, obviamente. Não que o desejo não seja legítimo. Quem de nós não quer um mundo justo, belo e perfumado, não é mesmo? Ocorre que, para que isso se viabilize, o Estado brasileiro teria de ser refundado. Missão impossível, claro. Depois de mais de meio milênio de patrimonialismo (leiam Os Donos do Poder, de Raymond Faoro; é leitura obrigatória a quem quer entender o Brasil), acreditar que um simples impeachment resolve tudo é um brinde à asnice.

A corrupção sempre existiu. Antecedeu Dilma, Lula, FHC, Itamar, Collor, a ditadura.. O PT foi — e é — o partido mais criticado por dois grandes motivos.

Leia mais aqui.

O cúmulo da ingenuidade: acreditar no fim da corrupção

FUI, MAS FICO

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FUI, MAS FICO

É de vomitar

Sabem a babá que virou fetiche social ?

Os colunistas do Facebook, tão logo a foto da moça empurrando o carrinho dos filhos brancos dos patrões disseminou-se pela internet, trataram de dar um tratamento bocó-marxista à questão, baixando o nível da discussão à velha luta de classes. É óbvio que o cheiro de naftalina tomou conta do ambiente. Ninguém mais engole esse arranca-rabo social.

Mais: houve, ainda, quem tentou ressuscitar o passado enterrado pela História, dando contornos escravocatas à foto: a moça negra trabalhando para patrões brancos representaria a escravidão dos nossos dias.

Dane-se se ela tem carteira registrada, se seu salário é pago em dia, se suas condições trabalho são boas, se é tratada com respeito e dignidade, se seu Fundo de Garantia é depositado, se todos os seus direitos são assistidos… Dane-se! O simples fato de ela ser negra e seus patrões serem brancos basta para asseverar que a semiótica da imagem nos remete, inescapavelmente, a Casa Grande e Senzala.

Veio parar em minha caixa de e-mail um texto de um uspiano (hahaha) sobre o episódio. Anotou o rapaz:

As críticas a você e sua esposa são as críticas a um país escravocrata cuja história sempre produziu bastante fetichismo dos trabalhadores mais pobres, de modo que não basta terem escravizado negros e dizimado índios durante séculos, é preciso se desresponsabilizar das coisas básicas da vida doméstica e usar o trabalhador como símbolo de inferioridade numa sociedade de classes e apresentá-los como prêmio de uma suposta vida meritocrática.

Quanta jumentice sintetizada em um único parágrafo, não?

Aos fatos:

1- quem sempre “produziu bastante fetichismo dos trabalhadores mais pobres” e ainda produz são justamente os intelectuais que, arvorando-se no direito de falar em nome daqueles que não lhe outorgaram voz, fomentam renitentemente uma luta de classes. Os trabalhadores em geral estão pouco se lixando pra isso. Querem apenas trabalhar, ganhar dinheiro, garantir o sustento de suas famílias e viver com o mínimo de dignidade. Se a fonte de seu salário é um banqueiro ou é o dono de um pequeno negócio, pouco importa. Se seus patrões são milionários ou não, pouco importa. A grande maioria dos trabalhadores quer apenas trabalhar e evoluir na vida. Só isso!

2- quando o rapaz diz que a elite “escravizou os negros”, parte de premissas erradas. Fica a impressão de negros foram escravizados porque era negros e de que os brancos foram os grandes artífices do fenômeno. É como se tudo se resumisse ao contorno racial. Nada mais falso! Primeiro: a escravidão não foi um fenômeno racial, mas sim econômico. Segundo: brancos não escravizaram negros, mas negros escravizaram negros. Potentados africanos foram construídos com base na escravidão, fosse por meio do sequestro e conquista de tribos rivais ou de guerras territoriais. Brancos compravam africanos já na condição de escravos. Isso não é opinião, é história amplamente amparada por vasta bibliografia.

3- ao dizer que ter uma babá é “usar o trabalhador como símbolo de inferioridade numa sociedade de classes”, o rapaz deixa claro ser babá, empregada doméstica, faxineira, ou ter qualquer outro emprego dessas naturezas, independentemente de serem trabalhos dignos como qualquer outro, é vexatório. No fundo, incorre na mais cruel das discriminações: para defender a babá, diz que ser babá é algo inferior.

É de enfiar o dedo na goela e vomitar.

É de vomitar

Babá opressora

Um dos melhores trechos da entrevista concedida pela babá que virou fetiche social foi quando afirmou que ela mesma emprega outra babá.

Do jornal Extra:

Quem cuida das suas filhas quando está no trabalho?
Meu marido trabalha às vezes no fim de semana. Então, a gente contrata uma menina, que mora aqui perto, para tomar conta da menorzinha.

Quem vai chamar a babá de opressora, agora?

 

Babá opressora

Um escárnio

Vejam que coisa curiosa.

Lula, Dilma, José Eduardo Cardozo, Jaques Wagner, Rui Falcão (presidente do PT, que, em seu Twitter, chamou os manifestantes da Paulista de cochinhas — isso mesmo, com “ch”) e outros da camarilha sempre se ensoberbeceram com o fato de que o partido, desde que assumiu o comando do País, conferiu à Polícia Federal e ao Judiciário ampla liberdade para apurar os malfeitos do Brasil.

Seria, inclusive, em razão desse fenômeno que nunca antes na história deste País fez-se tanto em termos de Justiça e blá blá blá.

Não vou entrar nesse mérito. Até porque liberdade de investigação e de inquérito não são garantidas por governos, mas sim pela Constituição. “Mas antes havia Engavetador-Geral da República”, dizem, em alusão a todos os processos de privatização e escândalos dos anos FHC. O curioso é que, mesmo empunhando o estandarte da liberdade de investigação das instituições, nem Lula nem Dilma foram fuçar na caixa preta das privatizações. Poderiam? Sim, poderiam!

Certa vez, compelida a responder sobre isso, Dilma saiu-se com a desculpa de que seu “governo respeita os contratos”. Engraçado que esse mesmo respeito foi mandado às calendas no episódio da renovação das concessionárias de energia, por exemplo. E o preço — altíssimo, por sinal — vem sendo pago pela população desde o fim do ano passado, com um aumento escorchante nas contas de luz.

Ou, sim: Lula e Dilma foram lá perscrutar algo de tenebroso das privatizações de FHC, mas nada encontraram de desabonador.

Ou é uma coisa (omitiram-se) ou é outra (não acharam pelo em ovo). Não há terceira via.

Desviei do foco.

Adiante…

Pois bem, o PT, que, como disse, sempre ostentou orgulho por conferir ampla liberdade de investigação às instituições, agora quer colocar Lula em um ministério. O objetivo: minar o poder de investigação dessas mesmas instituições que, na palra petista, foram beneficiadas nos anos Lula-Dilma. Com o molusco virando ministro, em tese, Sérgio Moro teria de remeter o processo de enriquecimento ilícito do ex-presidente ao STF, em razão do ganho de foro privilegiado. Tudo ficaria mais lento.

Lula poderia safar-se.

Lula poderia acabar bem.

Em vez de ir para o xilindró, que é o seu lugar, enraizar-se-ia no Planalto, embolsando cerca de R$ 35 mil ao mês.

É o PT usando o governo para livrar um criminoso da cadeia.

Quem são mesmo os paladinos da liberdade de investigação?

Um escárnio!

Um escárnio

Accidie

Eu ando mergulhado em uma preguiça profunda nesses tempos de Lava-Jato. A internet é, ao mesmo tempo, boa e ruim. Boa porque dá acesso a mais pessoas a um maior volume de informações; e ruim porque, em contrapartida, democratiza a asnice. A sociedade em rede virou um lugar em que as pessoas se encontram coletivamente para imbecilizar umas às outras, salvo raríssimas exceções.

Isso tudo me levou a um estado de accidie — profundo desinteresse por todas as questões de que deveriam sublimar minha atenção. O que eu ganho com isso? Simples: não me irrito.

Não tenho contato com aqueles textões horrorosos, cheios de vírgulas indevidas entre sujeitos e verbos, em que os pensamentos ficam desesperadamente em busca de uma conclusão que nunca chega. Uma ideia primeira abre uma segunda. À espera da terceira, que, em tese, arremataria as anteriores, vêm anacolutos soltos, dispersos. E o leitor, coitado, fica ali, lendo aquela geringonça, não entendendo nada, achando que sua inteligência não alcança o raciocínio do autor.

O caso da babá negra levada à manifestação por seus patrões para que ficasse cuidando de seus filhos foi emblemático. Houve gente dizendo que a escravidão no País não havia acabado (ai, que sono!). Outros anotaram que os patrões, brancos, levando uma empregada negra para trabalhar naquele ato deslegitimaria o espírito da manifestação (já dormi!).

À medida em que os absurdos se acumulavam na timeline do Facebook, minha preguiça se expandia exponencialmente.

Lula pode ser preso qualquer dias desses. O que é uma pena que isso ocorra só agora. Já era pra ele estar vendo o sol nascer quadrado há muito tempo. Só fico cá pensando em quanto esse fato potencializará todo o poder de análise dos “colunistas de Facebook”.

Por isso fico com minha accidie. Não sofro decepção.

Accidie