O Brasil dos golpes

BRASÍLIA – Há duas semanas, reunidos em Brasília, perto de três mil prefeitos empenharam-se em obter do governo participação na receita da CPMF, a contribuição sobre o cheque. O presidente Lula negou, por instâncias da equipe econômica, mas concedeu uma compensação: aumentaria em 1% o percentual devido aos prefeitos através de Fundo de Participação dos Municípios. Em vez de 22,5%, passariam a receber 23,5%. Algo em torno de R$ 1,4 bilhão a mais.

Era a esmola, que nenhum mendigo recusaria. Pois bem: o governo providenciou a emenda constitucional respectiva, assinada pelo líder na Câmara, José Múcio Monteiro, que começou a tramitar. Tudo bem? Não. Tudo mal, tudo péssimo, tudo horroroso. Porque o ministro da Fazenda, Guido Mantega, atropelando e desconsiderando o presidente Lula, mandou três bedéis ao Congresso, exigindo fosse sustada a discussão da emenda, quer dizer, revogou e mandou para o espaço o mísero 1% que os municípios receberiam.

O pior é que fica tudo por isso mesmo. Lula dirá que não sabia de nada, o ministro da Fazenda alegará falta de numerário imediato e a esmola ficará adiada para as calendas. Os municípios que se virem com o que não têm. É um retrato do Brasil dos golpes desferidos de cima para baixo.

Balcão de negócios

Importa menos saber quem Deus criou primeiro, se o ovo ou a galinha. O governo promete participação do PMDB nos cargos de segundo escalão se o partido comportar-se de acordo com seus interesses, no Congresso. O PMDB dispõe-se a votar com o governo, desde que receba as nomeações para os cargos de segundo escalão. O resultado é que, diante da composição da CPI do Apagão Aéreo, na Câmara, o PMDB preparou duas listas.

A primeira, com três deputados acomodados, daqueles apagados que farão tudo o que seu mestre mandar, até sufocar as investigações. A segunda, com deputados ditos independentes, capazes de levar um pouco mais a sério sua missão de investigar possíveis irregularidades na Infraero e adjacências.Assim estamos: sem nomeações antecipadas, rigor nos trabalhos da CPI. Com nomeações antecipadas, sepultamento de dificuldades. Tanto faz se foi o governo que inaugurou essa lamentável fase de relacionamento político com o Legislativo, ou se foi o Legislativo que exigiu do governo rezar a Oração de São Francisco, aquela do “é dando que se recebe”. O resultado parece o mesmo: a transformação da Praça dos Três Poderes num imenso balcão de negócios…

O Brasil dos golpes

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