CPI do Apagão: petista não quer ser bode expiatório

Cortejado pela oposição e vigiado de perto pelo governo e pelo PT, o ex-presidente da Infraero deputado Carlos Wilson (PT-PE) se diz à disposição da CPI do Apagão Aéreo e certo de que será convocado para depor, mas recusa-se, a desempenhar dois papéis: o de “homem-bomba” e o de “bode expiatório”.

O deputado pernambucano dirigiu a Empresa Brasileira de Infra-estrutura Aeroportuária (Infraero) entre 2003 e 2006, no primeiro mandato do governo do presidente Lula. Uma das primeiras conversas do deputado, ainda no mês passado, tão logo a oposição conseguiu as assinaturas para a abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e o governo teve a certeza de que o Supremo Tribunal Federal (STF) iria ordenar, inevitavelmente, a sua instalação, foi com o ministro das Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia.

No encontro, Wilson repetiu, de forma franca, o que já vinha afirmando a vários interlocutores no Congresso: que não pretende atingir o governo, mas faz questão de ser ouvido pela CPI. Dividiu com o ministro a preocupação de tornar uma espécie de “bode expiatório” do PT na CPI.
Ele tem sido alertado pela oposição para o risco do PT querer “entregá-lo” para encerrar logo a investigação, centrando todos os problemas na gestão dele à frente da Infraero. “Não vou aceitar isso de ser entregue. Não sou mercadoria barata”, reage o deputado, ao insistir na tese de que “a Infraero nunca foi um aparelho do PT”.
Democratas

Alguns petistas também não vêm lógica nessa opção, uma vez que exporiam apenas o governo Lula à investigação. Na semana passada, o deputado Rodrigo Maia (RJ), presidente do Democratas (ex-PFL), manteve uma longa conversa com Wilson e saiu convencido de que, mais importante do que centrar fogo na investigação da gestão do petista, seria criar condições políticas para que o deputado possa revelar tudo o que sabe sobre a crise do setor aéreo.

Durante o encontro, Carlos Wilson relatou ao parlamentar do Democrata o teor de uma audiência com o presidente Lula, na qual fizera questão de lembrar, por exemplo, que não fora ele o responsável pela indicação do diretor de Operações da Infraero, mas o próprio Lula.

Lembrou, ainda, que o PT também foi o autor de outras indicações para postos-chave da estatal. Wilson tem argumentado que, durante sua gestão, todos os superintendentes regionais da Infraero eram do quadro de funcionários da empresa, o que não ocorre na administração atual.

O diretor de Operações da época é o atual presidente da empresa, brigadeiro José Carlos Pereira. Ao deixar o posto, ele pôs em seu lugar Rogério Amado Barzellay, um apadrinhado do PMDB egresso do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit).

O DEM quer oferecer apoio ao petista na esperança de transformá-lo em “homem-bomba” da investigação, para atingir o governo do presidente Lula. “Vamos propor uma espécie de delação premiada, em que ele não será o principal alvo da investigação”, disse Rodrigo Maia a um parlamentar amigo.
Carlos Wilson dispensa esse “favor” do Democratas e diz que não será usado para atacar o governo. A vários interlocutores, repetiu que não fará nenhuma denúncia explosiva. “Não sou homem-bomba, não serei um novo Roberto Jefferson e não aceito comparações”, afirmou, para completar: “Mas também não é justo que caia tudo em cima de mim”.

O ex-deputado Roberto Jefferson, que continua na comando do PTB, mesmo não tendo sido reeleito pelo Rio de Janeiro, foi o autor das primeiras denúncias sobre o esquema do mensalão, o que redundou na criação da CPI dos Correios.
Com as denúncias, Jefferson, que era da base de apoio ao Planalto, manteve o governo Lula sob investigação durante quase três anos (2004 a 2006), dos quatro anos do primeiro mandato do presidente. O ex-presidente da Infraero tem enfrentado momentos difíceis, para além dos transtornos políticos.

Carreira

Submetido a um delicado tratamento de saúde, Carlos Wilson divide seu tempo entre conversas políticas e visitas aos médicos. Abatido, ele se diz à disposição da CPI. “Se essa CPI não interessa a alguém, a mim interessa. Eu estarei pronto para colaborar. Eu não vou me defender, mas mostrar o trabalho sério que eu fiz na Infraero”, costuma dizer o deputado nos encontros com parlamentares amigos.

Wilson começou a carreira política nos anos 70, na Arena, partido do regime militar (1964-1985), passando depois pelo PMDB, PSDB e PTB, antes de desembarcar no PT. O marco da passagem do apoio ao regime militar para a oposição foi a eleição como vice-governador pernambucano na chapa de Miguel Arraes, em 1986. Em 1992 foi eleito senador pelo PSDB, depois de ter sido, no governo Itamar Franco, secretário nacional de Irrigação.

Aproximou-se do PT na campanha municipal de 2000, na disputa pela prefeitura de Recife, pelo PTB, quando apoiou, no segundo turno, o candidato vitorioso, João Paulo (PT). Derrotado novamente nas eleições de 2002, para o Senado, Wilson mudou-se para o PT e ganhou do governo Lula o comando da Infraero, onde ficou até o início de 2006, quando saiu para disputar e se eleger para a Câmara Federal.

Explosivo ou não, é certo que Carlos Wilson Rocha de Queirós Campos, pernambucano de Recife, 57 anos completados no último dia 11 de março, será um dos primeiros nomes a ser convocar pela CPI do Apagão Aéreo.

CPI do Apagão: petista não quer ser bode expiatório

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