Ainda a Literatura Marginal

Tem um comentário – muito construtivo, por sinal – sobre meu post da Literatura Marginal que acabei não colocando aqui.

Segue abaixo. O leitor, que assina apenas como Walber Nery, escreve em azul (em ipsis litteris. Não alterei uma vírgula); eu, em vermelho.

Bom… Tem uma frase de Lima Barreto que acho interessante: ” Os escritores tem a sua língua; os medíocres a sua gramática”. Se existe uma palavra criada ou um acento nada convencional numa palavra escrita por Guimarães Rosa garanto que pessoas como você vais se levantar, bater palmas e limpar uma lágrima de tanta emoção. Mas se uma pessoa da periferia escreve “nóis” ou “mermão” com certeza levantarão as mãos com pedras – como o seu texto.

Querido, devo te falar que Guimarães Rosa não me apetece nem um pouco. Prefiro Graciliano Ramos, que só tinha um gravíssimo defeito: ser comunista.

Com relação à tua referência à frase de Lima Barreto, o que falar não é mesmo? O valente tinha uma linguagem textual toda particular que, à sua época, não agradava nem um pouco. Por isso era rejeitado e viu fracassada a sua tentativa de ingressar na Academia Brasileira de Letras. Ainda bem!!!! Pensou a ABL, hoje, no auge de seus 111 anos de tradição e história, ter em seu histórico um integrante que simpatizava com a, digamos, mediocridade da Língua?

Se prezar o correto uso dos termos gramaticais é ser medíocre, então eu sou um; e sou ao lado de outros tantos medíocres: Machado de Assis, Bruno Tolentino, José de Alencar, Vergílio Ferreira, Fernando Pessoa, Anais Nin, Konstantinos Cafávis…

Para pessoas como você “o mundo é”; para pessoas como Ferréz “o mundo está sendo”. Qual a diferença? Novamente, para pessoas como você o favelado é pobre porque “é” pobre e pronto, nasceu pobre e pronto; para pessoas como Ferréz, a pessoa está sendo pobre porque o colocaram nessa situação não de hoje, e sim desde que se começou a construir o Brasil – o próprio Ariano Suassuna falou certa vez que o Brasil começou a pagar a sua dívida externa quando os portugueses aqui chegaram e colocaram os índios para carregar o pau-brasil para os navios. É essa a importância de recorrer a fatos históricos. A importância da Históoria está em relacionar o passado com o presente, e não olhar para o passado de forma contemplativa.

Lendo esse teu comentário de que “a pessoa está sendo pobre porque a colocaram nessa situação”, sinto-me obrigado a repetir uma frase que Voltaire escreveu em uma carta para Rousseau: deu-me vontade de andar sobre quatro patas!!!

Sim, temos de olhar os fatos históricos de forma a contemplar suas implicações no presente. Por isso mesmo é coisa de gente néscia tentar relacionar a chegada do homem branco a Pindorama à miséria do Brasil. Se não houvesse acontecido isso, hoje, aqui, teria um monte de índios vivendo em palafitas. Oh, que vida mais adorável, não? Quanto desenvolvimento! Quanta evolução!

Eu afirmei, em meu texto, que admiro trajetórias brilhantes, de pessoas que começaram do nada e depois conseguem prosperidade. Portanto, meu nobre leitor, não tente jogar palavras em minha boca. Em nenhum momento afirmei que o “pobre é pobre porque é”.

E você falou em Machado de Assis. Então você deve saber que naquela época uma forma de conseguir o seu lugar na sociedade era negar a sua cor – uma negra que casava com um mulato, ou um mulato que casava com uma branca tinha a sua felicidade quando o seu filho nascia um pouquinho mais claro, leia O Mulato e o Bacharel no livro Sobrados & Mucambos, mesmo sendo conservador como você garanto que Gilberto Freyre explica muito sobre isso. Você já se perguntou porque Machado de Assis usava roupas que só mostravam as mãos e o rosto? Tem livro que fala sobre isso; e na vasta obra de Machado quantos negros tinham como personagem de destaque?

Não entendi o propósito dessa tua pequena aula de História!

E, sim… aboliram a escravidão, mas nada fizeram para incluir os negros na sociedade – basta ler José Lins do Rego para ver que a abolição foi apenas um dia de festa, depois todos voltaram ao trabalho, produzindo o açúcar. Nos anos 1950-60, o abandono e a repressão contra o camponês aumentou e, nos 1970, houve o maior êxodo rural da história do Brasil, aumentando inúmeras vezes as favelas por todo país. E você vem dizer que “Recorrer a fotos que a história já aboliu beira a cretinice e a vigarice intelectual”!?

Disse e repito: recorrer a fatos que a História aboliu beira a cretinice e a vigarice intelectual. Ora, faça-me o favor! Com a abolição, de fato, o governo não fez nada para incluir os ex-escravos na sociedade. Porém, quando voltaram para trabalhar nos canaviais, todos os negros recebiam salário, se não, recebiam pequenas propriedades. Subsídios para começarem uma vida tiveram: salário e propriedade.

Agora, caro Walber, tentar fazer uma ligação entre o êxodo rural e a abolição da escravatura resultando em construção de favelas já é demais. No período mencionado por você (1950-60) a emigração do campo para a cidade se deu por causa das propagandas institucionais do período da ditadura militar. Nelas, a riqueza e a promessa de uma vida melhor nas cidades grandes eram constantemente exacerbadas. Isso iludiu muita gente, lotando de nordestinos o Sul e o Sudeste do país. Portanto, Walber, há favelas, em grande parte, por causa da ditadura, não por causa da escravidão, repito: abolida pela História.

Leio Machado de Assis, mas também leio Férrez; leio Sartre, mas também leio Miró; Leio José Lins do Rego, mas também leio Zé da Luz. A questão é o que cada um tem a dizer, em vez de se preocupar com o “bom português”.

Não é só questão de bom português, é, também, questão de ideologia. E, admito: a ideologia marginal não me provoca a consumi-la.

Mas eu até te entendo. Josué de Castro disse uma vez que “enquanto metade do mundo não dorme por causa da foma, a outra metade não domer com medo daqueles que dormem com fome”. Vá dormir que é melhor. Quem sabe um favelado sem o ensino básico aparece no seu sonho!

Enquanto durmo, recomendo que dê uma lida em bom manual de português. Você precisa urgentemente de um!.

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Ainda a Literatura Marginal

5 pensamentos sobre “Ainda a Literatura Marginal

  1. Correções ao meu texto:
    §2-linha 3: “E TEU (des)gosto…” – pra não confundir com o (des)gosto do José de Alencar.
    §3-linha 1: “…é preciso saber que, pra quem vive numa comunidade em que…”
    -linha 3: “Mas, em comunidades em que existem mansões e, no entanto, o indivíduo mora num barraco, a coisa muda.”
    Axé.

  2. Vou me ater ao que você escreveu aqui, apesar de minhas colocações anteriores (no comentário feito por mim à outra postagem) não terem sido levadas em conta.

    Quanto às suas críticas às colocações sobre a língua, do Walber Nery, digo-lhe: José de Alencar também recebeu críticas ao modo como escrevia, pois escrevia do modo brasileiro, que, à época, não era aceito por inteiro. E seu (des)gosto com relação a Guimarães Rosa não retira dele a posição eminente na literatura brasileira. No mais, é como te falei em outro comentário: o próprio português já se ofendeu em sua história, pois não se manteve fiel a si – enquanto a língua abstrata que você imagina – ao longo da história. A língua é viva, meu caro.

    A afirmação de Voltaire a Rousseau é procedente. No entanto, é preciso saber que quem vive numa comunidade em que as casas são palafitas, as palafitas são mansões. Mas em sociedades em que existem mansões, mas o indivíduo mora num barraco, a coisa muda. Como diz Roger Waters: te mostram como se sentir bem e te dizem pra se sentir mal. Isto é evolução? Ou você acha que podemos ter tantas mansões quantas forem “necessárias” pra todos?

    Axé.

  3. Rodrigo Marques diz:

    Chega a ser engraçado ver esse cidadão, não mais e nem melhor que ninguem, tendo essa idéia tão fútil!
    Tenho 18 anos e sou morador do Pery Alto (periferia da zona norte de São Paulo), e sei bem como é que “a coisa funciona” por aqui. Se Ferréz escreve da maneira que escreve, não é porque ele escreve errado propositalmente e quer ferir o bom português. Perdão se nem todos temos tempo de ler o “bom manual de português” que você mencionou, perdão se a maioria tem que se preocupar com outras menos importantes como, trabalho, sustentar familia e mais trabalho.
    As chances são menores os empregos reduzidos e a necessidade maior. Então, como você quer determinar padrões a pessoas que não estão nos padrões de uma “sociedade normal”? Ok, o bom português deve ser falado e escrito corretamente independente da classe social. Mas, veja bem, se um povo que mal possui chance de emprego vai mesmo se preocupar se a forma que Ferréz escreve esta certa ou errada? Eu tenho certeza que não! Eles estão mais preocupados com quem esta escrevendo e pra quem esta escrevendo. Hoje em dia tudo o que você vê e lê sobre a periferia nunca são destinados ao povo que reside lá. É sempre para quem esta de fora. E quando aparece uma pessoa que realmente, além de viver nessa realidade, ainda expõe suas idéias (DANE-SE se pra você é errada ou não!) , você vem e paga de pseudo-coffe and cigarrets cool e coloca mil e um erros sem nem ter o MÍNIMO de noção de como é a realidade de lá! Se você soubesse o quão bem o Ferréz, faz pela comunidade dele, não olharia tanto a maneira que ele escreve.
    Só pra finalizar tem uma música do teatro mágico que diz tudo o que penso em algumas palavras que é:
    “Mas quando alguém te disser ta errado ou errada
    Que não vai S na cebola e não vai S em feliz
    Que o X pode ter som de Z e o CH pode ter som de X
    Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz”

  4. Walber Nery diz:

    “Com a abolição da escravatura, os negros e os mestiços saídos das senzalas, ficando com a alimentação a cargo dos seus salários miseráveis, começaram por diminuir as quantidades de alimentos de sua dieta, e já não dispunham nem de combustível suficiente para produzir o trabalho que antes realizavam.” (Josué de Castro em Geografia da Fome.)

  5. Walber Nery diz:

    Confesso que meu comentário foi confuso. Então vai algumas explicações.
    Quando falei que “para pessoas como você o mundo é”, me referia ao pensamento de Paulo Freire, em que ele diz: “o mundo não é, o mundo está sendo”. Para quem está numa posição elevada na sociedade é mais interessante pensar que “o mundo é”. Tudo bem, eu sei que você não falou isso… mas a tua forma de pensar te coloca nesse grupo que pensa assim, pois é mais interessante para você conservar a sociedade tal como agora está. E para quem está embaixo, pensar em “o mundo está sendo” implica não só a vontade de mudar o presente para um melhor futuro, como também uma reflexão sobre a construção histórica.
    Você falou que “quando voltaram para trabalhar nos canaviais, todos os negros recebiam salário, se não, recebiam pequenas propriedades”. Alguns chamam de “sistema de cabana”, outros de “sistema de armazém”, que quer dizer o seguinte: o trabalhador ganhava o salário mas ficava sempre devendo ao armazém, pois o dinheiro que recebia não dava para manter as necessidades básicas, ficando sempre preso naquele sistema – e quem era o dono do armazém? E alguns receberam propriedades, mas, no caso do Nordeste, as usinas engoliam as suas terras. E você vem dizer que eles tiveram subsídios para começarem uma nova vida (!) – mais uma vez, José Lins do Rego fala sobre isso. E a maioria desses libertos pela Abolição se tornaram os camponeses que mais tarde tiveram que deixar as suas terras. Sei que são quase 80 anos de distância da Abolição para a Ditadura, mas também foram gerações e gerações que não tiveram oportunidades concretas; e não foi por propagandas que se deu o êxodo rural, e sim pela repressão, pois muitos camponeses foram expulsos de suas propriedades, assista Cabra Marcado Para Morrer – quem não iria procurar uma vida melhor numa cidade grande quando tinha a sua casa queimada, ou sofria perseguição, ou tinha visto seus familiares mortos mandados pelos grandes latifundiários? E… tudo bem, cadê a casa grande e a senzala? Mas tem mansão e a favela. As coisas mudaram, mas muito da antiga estrutura permanece.
    E sobre Machado de Assis o que eu entendi que você quis dizer foi que ele simbolizava um negro e pobre que subiu na vida (“Machado de Assis era descendente de escravos alforriados e filho de lavadeira. Mas nem por isso deixou de ter a importância que tem hoje”). O que eu quis dizer com a minha “pequena aula de História” é que ele negava a sua cor; até dizem que ele nasceu negro e morreu branco, pois um consta na certidão de nascimento, e outro na de óbito. Ele tem seus méritos, mas não na questão da cor.
    E por falar em Machado de Assis, vi que você tem orgulho da ABL. Claro que por lá possou grandes escritores, e ainda tem um grande, Ariano Suassuna. Mas ter orgulho de uma Academia que tem como membro José Sarney e Marco Maciel! Será que todos os membros prezavam pelo “correto uso dos termos gramaticais”? Acredito que você iria andar de quatro patas com um livro de Aurélio de Lira Tavares.
    Mas em duas coisas concordo com você: também prefiro Graciliano Ramos (mas defeito gravíssimo seria se ele fosse de qualquer partido de direita); e não é só uma questão de bom português, e sim de ideologia também. Sobre esse último ponto, é bom saber que estamos em lados opostos.
    Obs.: Pode ficar com o “bom manual de português”. Sobrevivo sem ele.

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