Com os costumes andam os aforismos

Quem lê o livro Laowai, Histórias de uma repórter brasileira na China, de Sônia Bridi, encontra relatos típicos de alguém que, frente a diferente contexto e realidade culturais, deixa transparecer seus estigmas da forma mais congênita. Bridi é brasileira, criada em um país tropical. Isso justifica o seguinte trecho do livro: “o sol brilha intenso e o céu exibe um azul profundo, sem nenhuma nuvem. Mas é botar o nariz para fora e acaba a ilusão de tempo bom. Dez graus negativos”. Ora, -10ºC é tempo ruim pra ela, para os chineses é uma temperatura normal. É o hábito natural e espontâneo inerente às nossas capacidades de analisar outras realidades comparando-as sempre com a que vivenciamos. Experimente colocar um esquimó na praia de Copacabana para ver se ele pára por lá. Vai sentir saudade do iglu em menos de 5 minutos. Para nós, um absurdo; para ele, questão de instinto.

Entre tantas experiências e situações relatadas por Bridi, nota-se, no tom adotado, um certo espanto e inconformismo – jamais preconceito ou intolerância – pelas situações por que passa. Adaptar-se a novas realidades exige das pessoas certas hecatombes e uma forma diferente de compreender os fatos. Um espanto relatado pela repórter é o momento em que ela entra em uma agência bancária para abrir sua conta. Os bancos chineses têm um esquema de funcionamento que, a nós, parece incongruente e ineficiente: não há filas. Dentro da agência, Bridi vê-se diante de uma prática que deriva dos preceitos pensados por Confúcio: o mais forte tem obrigação de exercer sua força; o mais fraco tem obrigação de obedecer. “A correlação de forças, neste cenário, se estabelece às cotoveladas. Estar bem vestido ajuda – dinheiro é força”, relata a repórter. “Em 40 minutos conseguimos avançar dois metros”.

A China não acredita em cheques, só em dinheiro vivo. Com isso, as pessoas chegam ou saem dos bancos com malas de dinheiro. No Brasil, tal fato seria motivo para preocupar-se com possíveis assaltos e seqüestros. Por lá, “essas são as últimas preocupações deles”, conta Bridi.

Outro fato incomum notado pela repórter é a concepção chinesa do que é o crédito. No Brasil – e na maioria dos países do mundo – crédito é dinheiro antecipado para ser devolvido no futuro. Na China, crédito é pré-pago. “Se a senhora depositar cinco mil dólares, recebe um cartão de crédito para gastar…cinco mil” – informa o funcionário. “Mas isso é o contrário de crédito”, argumenta Bridi. Sem sucesso.

Em outra ocasião, Paulo Zero, marido da repórter, adquiri uma febre altíssima. O que vai curá-lo é o ritual do guaxá – prática milenar chinesa que rompe os pequenos vasinhos junto à pele utilizando uma espátula, como se fosse um pente sem dentes, e um óleo vermelho. Começa raspando em cima e vai até a cintura – provocado um vermelhão subcutâneo. Acredita-se que, assim, as toxinas são eliminadas.

No princípio, todos se demonstraram incrédulos com o método. A cultura ocidental não é muito praticante de medicinas alternativas. Não raras as vezes que denominamos remédios homeopáticos de placebos. Embora essa crença ainda seja dominante – apesar de um notável crescimento do mercado de medicina alternativa no Ocidente –, e Paulo Zero ser descrente desse método, o guaxá curou sua febre; emudecendo nossas convicções locais.

A regionalização contribui para nosso ponto de vista cauíla de globalização. Há, de fato, a tendência em pensar tradições locais como comportamentos e hábitos comuns para demais regiões.

No livro Alegria no Mundo, de Agustina Bessa-Luís, vemos que com os costumes andam os aforismos. Porém, o autêntico aforismo não é uma arte – é uma espécie de pastorícia cultural. Não está destinado a divertir nem a chocar as pessoas, mas, acima de tudo, propõe-se transmitir uma orientação. É uma lição, e não o pretexto para uma pirueta.

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