Fracasso em estratégia anti-drogas acirra debate sobre descriminação

De O Estado de S.Paulo

O forte crescimento da produção de cocaína na América Latina desencadeou uma onda de violência, deslocamentos populacionais e corrupção que tem instigado apelos urgentes para que a política de guerra às drogas seja repensada. Mais de 750 toneladas de cocaína são enviadas anualmente dos Andes numa indústria multibilionária que expulsou camponeses da terra, provocou guerras entre gangues e corrompeu instituições estatais.

Entrevistas com agentes da lei, plantadores de coca, refugiados e políticos renderam um quadro sombrio da “guerra” às vésperas de uma cúpula crucial da Organização das Nações Unidas sobre drogas. Quase 6 mil pessoas morreram na violência relacionada às drogas no México só em 2008, um nível de caos sem precedente que está dando sinais de vazar para os EUA. Na Colômbia, só no primeiro semestre de 2008, os cartéis de cocaína obrigaram 270 mil camponeses a abandonar suas terras. A abertura de uma nova rota do tráfico entre a América do Sul e a África ampliou os mercados dos cartéis.

Quase todos os entrevistados concordam que a demanda insaciável por cocaína na Europa e na América do Norte frustrou os planos liderados pelos EUA para sufocar o suprimento e infligiu danos imensos na América Latina.

“Consideramos a guerra às drogas um fracasso porque os objetivos nunca foram alcançados”, disse César Gaviria, ex-presidente da Colômbia e copresidente da Comissão Latino-americana sobre Drogas e Democracia. “As políticas proibicionistas com base na erradicação, interdição e criminalização do consumo não renderam os resultados esperados. Estamos hoje mais longe que nunca da meta de erradicar as drogas”, acrescentou.

A comissão propõe uma “mudança de paradigma” de uma abordagem de repressão para uma de saúde pública, que inclui a descriminação da maconha. Estatísticas deploráveis sobre cultivo de coca, exportações de cocaína e taxas de assassinatos fizeram aumentar os apelos para substituir uma política que remonta à administração de Richard Nixon para uma centrada na diminuição da demanda.

“A estratégia dos EUA aqui, na Colômbia e no Peru foi atacar a matéria-prima e ela não funcionou”, disse o coronel Rene Sanabria, chefe da polícia antidrogas da Bolívia.

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