SOBRE A MÍDIA, OUTSIDERS E MITOS

Com o poder de lançar fenômenos e, paradoxalmente, destruí-los, a mídia põe em perspectiva, através de sua teia de estilos e abordagens, aspectos de nosso tempo e que nem sempre estão em evidência. Exemplo disso foi e eleição para a Presidência dos Estados Unidos e a vitória de Barack Obama. A imprensa mundial, se apreciada por um ponto-de-vista genérico, construiu um conceito sobre Obama cuja justificação se encontrava no mundo das ditas minorias. No caso americano, sagrou-se idéia de que um negro na presidência seria a consagração da era pós-racial. Mais: o simples fato de Obama ser negro o tornaria essencialmente gabaritado para “o novo”.

O que seria esse “novo” em termos intrínsecos à gestão política norte-americana ainda é abstrato. Obama vem da melhor escola de pensamento político dos Estados Unidos; é democrata, partido com ideais conservadores. Mas a imprensa, usando o cabresto do conceito raça, ignorou isso. Preferiu abordar a melanina a política. Resultado: Obama virou fenômeno. O que era uma eleição americana se transformou em uma eleição de dimensões globais. O mundo, a essa altura, já não se importava mais se Obama realmente tiraria as tropas do Iraque em 1oo dias; ninguém mais queria na Casa Branca um presidente que fosse dar solução ao falido mercado de hipotecas imobiliárias norte-americanas. Nada disso. O que o mundo passou a ansiar foi um negro na Presidência dos Estados Unidos. Apenas isso. Ele, por si só, já seria o “novo”, mesmo que sua linhagem ideológica-política não represente o rompimento de nenhum establishment.

O fenômeno Obama é apenas um dos milhares evidenciados pela mídia. Geralmente, esses fenômenos são encontrados em recantos ideológicos e culturais distantes do grande público: são os off Broadway – tudo que nasce longe da hype, a elite da cultura e dos pensamentos. É óbvio que Obama, em si, não configura e nem milita no mundo off Broadway – se assim fosse, nem senador seria. O que a mídia fez para torná-lo fenômeno foi justamente hipervalorizar aquilo que ele tem de off Broadway: sua cor; e colocá-lo em evidência para a massa, tornando-o midcult – aquilo que o homem-médio consome em mídia.

Nem o próprio Obama chegou a fazer menção de raça como bandeira de campanha, mas imprensa fez. E não foi apenas a americana CNN, mas a Globo também. A jornalista Mônica Waldvogel, em cobertura da posse pela Globo News, chegou a afirmar que iria “se beliscar” para ter certeza de que um negro assumindo a presidência americana não estaria sendo “um sonho”. Se Voltaire estivesse vivo, mandaria um e-mail para a Globo falando que, depois de assistir a tal cobertura, sentiu vontade de “andar sobre quatro patas”.

O grande risco de se embarcar nesses fenômenos é a manutenção de crença de as grandes respostas vem justamente de onde menos espera. É como se pessoas outsiders trouxessem em suas essências soluções inéditas e inovadoras para resolver todos os problemas só porque estão, tecnicamente, fora da esfera das práticas comuns. E isso vem se demonstrando falso. Evo Morales, na Bolívia, é um outsider pelo o fato de ser indígena; nem por isso resolveu os problemas daquele país. Lula, no Brasil, pertencia a uma escola de pensamento econômico outsider; mas grande parte do sucesso de seu governo deve-se justamente à manutenção do establishment construído por seus antecessores.

A manifestação de fenômenos midiáticos não existe somente na política e economia. Susan Boyle – uma cantora escocesa que se apresentou no programa de calouros Britain’s Got Talent – também virou fenômeno. As circunstâncias nas quais se deu a apresentação de Boyle evidenciam a armação descarada. Primeiro: uma senhora maltrapilha entra no palco; segundo: é desmerecida pelos jurados enquanto dois produtores do programa criavam uma expectativa pouco anormal para uma mulher que iria simplesmente… cantar (sim, eles já sabiam que Boyle cantava bem); terceiro: a mulher feia e desajeitada alega que, aos 47 anos, nunca conseguiu virar cantora profissional porque nunca lhe deram oportunidade (senha para despertar uma certa compaixão); por fim, ela canta e surpreende a platéia e os jurados. No fim da apresentação, Boyle faz até umas gracinhas – até um pouco exageradas para quem entrou retraída em um palco. O que se viu ali foi a arquitetura para o nascimento de mais um fenômeno.

Boyle, como nota-se, era off Broadway. Mas a mídia tratou de emplacá-la imediatamente no mundo midcult. Para isso, passaram não somente a tratar somente de seu talento natural, mas, também a especular minúcias de vida privada. Foi assim que ficamos sabendo que Boyle nunca foi beijada e conhecemos sua humilde residência na Escócia. A própria Boyle logo foi-se encarregando de deixar o mundo off Broadway e embarcar logo no midcult. Nas apresentações seguintes, a cantora já não estava mais vestida como antes: já estava penteada, com adereços no pescoço, anéis nos dedos e cuidadosamente vestida.

Parte da justificava para o surgimento de fenômenos – que em alguns casos acabam virando ídolos – como Susan Boyle é encontrada nos conceitos de projeção e identificação de Edgar Morín. Embora Morín tenha criado essas idéias para explicar os motivos que levam algumas pessoas a idolatrar certos astros de Hollywood, podemos adaptá-las facilmente para apostilar o surgimento de certos mitos. Segundo Morín, o ídolo é sempre um referencial para o seu fã. Ele se encontra acima dos mortais, em um Olimpo de beleza e perfeição. Mas não basta a projeção. As estrelas precisam ser também um pouco humanas para que seu público possa se identificar com elas. O Super-homem é um belo exemplo disso. O herói era tão perfeito, tão olímpico, que era impossível se identificar com ele. Assim foi criado seu alter-ego, Clark Kent, um repórter tímido, que sempre é passado para trás por sua colega Lois Lane. Nós nos projetamos no Super-homem, mas nos identificamos com Clark Kent.

Segundo Edgar Morin, a mídia e a Indústria Cultural se aproveitam dessa necessidade do homem de se projetar em mitos e transforma isso em uma espécie de mercadoria. É a estrela-mercadoria. O mesmo ocorre com Obama: nos projetamos no presidente, mas nos identificamos com o negro. Com Boyle, nos projetamos na cantora, mas nos identificamos com a mulher pobre e feia.

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SOBRE A MÍDIA, OUTSIDERS E MITOS

AUSÊNCIA

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Governo pretende fazer presidente da CPI da Petrobras

De O Estado de S.Paulo

O governo vai insistir na indicação do presidente e do relator da CPI da Petrobrás, diante de alertas sobre possíveis reflexos nos investimentos da maior estatal do País. Em conversa com o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem estar preocupado com a imagem da companhia no momento em que foram descobertas gigantescas reservas de pré-sal e garantiu que não deixará a CPI virar “pirotecnia” na antessala de um ano eleitoral.

 Veja o que será apurado pela CPI

Coube ao ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, dar o tom dos planos do governo para enfrentar a CPI, após o encontro entre Lula e Renan. “É só cumprir o regimento”, disse Múcio. “Cabe à maioria, através do voto, escolher os membros da comissão. Foi assim em todos os governos passados. O modelo que eu vi no Senado nestes anos todos é que a maioria sempre escolhia a presidência e a relatoria.” 
Além de se reunir com Renan, Lula discutiu as estratégias para enfrentar a CPI em outro encontro, com Gabrielli, Dilma Rousseff (chefe da Casa Civil), José Eduardo Dutra (presidente da BR Distribuidora) e Jorge Hage (Controladoria-Geral da União). O governo teme que a oposição use a CPI como palanque para desgastar a pré-candidatura de Dilma à Presidência em 2010.
Apesar de o prazo final para a indicação dos 11 titulares e 7 suplentes da CPI terminar hoje, setores da base aliada – principalmente do PMDB – pretendem convencer o Palácio do Planalto a aceitar a divisão do comando entre governistas e oposicionistas. A posição, defendida por Renan, é conflitante com a de Múcio e senadores do PT. O governo e os petistas querem que a CPI da Petrobrás seja dirigida apenas por senadores da base aliada.
“A vontade do PMDB e do PTB era de dar a presidência da CPI para o DEM ou o PSDB. Se eles mudaram de posição é porque o governo deve ter muito a esconder”, afirmou o líder do DEM, senador José Agripino Maia (RN). 
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Governo pretende fazer presidente da CPI da Petrobras

SENSATEZ. Liminar suspensa cotas raciais no RJ

De O Estado de S.Paulo

O Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro concedeu ontem liminar suspendendo os efeitos da lei estadual que estabeleceu cotas em universidades públicas estaduais. A iniciativa contra as cotas para negros e estudantes de escolas públicas partiu do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP ), que entrou na Justiça com uma ação direta de inconstitucionalidade.
O deputado, que também é advogado, defendeu a ação no plenário do Órgão Especial. Para ele, a lei é demagógica e discriminatória, além de não atingir seus objetivos. “O preconceito existe, não tem como negar, mas a lei provoca um acirramento da discriminação na sociedade. Até quando o critério cor da pele vai continuar prevalecendo? A ditadura do politicamente correto impede que o Legislativo discuta a questão”, afirmou Bolsonaro durante sua defesa.
A lei estadual tem o objetivo de garantir vagas para negros, indígenas, alunos da rede pública de ensino e pessoas portadoras de deficiência. Também são beneficiados filhos de policiais civis e militares, bombeiros militares e inspetores de segurança e administração penitenciária mortos ou incapacitados em razão do serviço.

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SENSATEZ. Liminar suspensa cotas raciais no RJ

Petistas têm 1/5 dos cargos de confiança

Da Folha de S.Paulo

Cerca de 26% dos profissionais que ocupam cargos de confiança no governo Lula ou já foram ou são filiados a um partido político. Desse total, a grande maioria é de filiados ao PT, aproximadamente 80%.
Os dados fazem parte de duas pesquisas recentes feitas pelo CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV, coordenadas pelas cientistas políticas Maria Celina D’Araújo e Camila Lameirão.
Em 2007, a Folha revelou que 45% da cúpula do governo era sindicalizada. Os novos indicadores mostraram poucas variações no decorrer do dois mandatos de Lula. Os sindicalizados variaram para 42,8% (mais alto do que a da média nacional de 17,7%, segundo os dados da Pnad de 2007).
Ainda na comparação entre os dois mandatos de Lula, a participação em movimentos sociais foi de 46% para 46,3% e, em organizações locais, de 23,8% para 26,8%.
“Vale destacar o incremento no pertencimento a centrais sindicais, indicando a corroboração da tese de que esta é uma instância que efetivamente está sendo fortalecida pelo governo”, escreve Lameirão. O percentual de pessoas ligadas a centrais sindicais passou de 10,6% para 12,3%.

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Petistas têm 1/5 dos cargos de confiança

Juíz transforma Protógenes em réu por vazar Satiagraha

Da Folha de S.Paulo

O juiz da 7ª Vara Federal de São Paulo, Ali Mazloum, aceitou ontem denúncia do Ministério Público Federal e transformou em réu o delegado Protógenes Queiroz, hoje afastado da Polícia Federal.
Com a decisão, Protógenes será julgado por crimes de vazamento de informação sigilosa e fraude processual durante a Operação Satiagraha, que prendeu o banqueiro Daniel Dantas em julho de 2008.
A decisão já era esperada. De novo, trouxe o pedido de que Paulo Lacerda, ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), seja denunciado pela Procuradoria Geral da República pela participação da Abin na Satiagraha.
Ao contrário do Ministério Público Federal, que pediu arquivamento do inquérito que investiga a participação da Abin, Mazloum considerou ilegal e “clandestina” a participação dos agentes e disse que a atuação de Lacerda foi muito mais ativa do que se imaginava.
Para o juiz, houve crimes de quebra de sigilo e usurpação de função pública.
Segundo Mazloum, “verifica-se a existência de quase uma centena de telefonemas entre ele [Protógenes] e Paulo Lacerda” nas semanas que antecederam a prisão de Dantas.
Por conta desses telefonemas e da participação ilegal da Abin na operação da PF, Mazloum pediu que o procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, denuncie Lacerda criminalmente.
“Engajamento”
Mazloum registra ainda em sua decisão a existência de vários telefonemas entre Protógenes, o juiz do caso, Fausto De Sanctis, e o procurador da República Rodrigo de Grandis. Esses telefonemas teriam ocorrido no período da investigação e entre o primeiro e o segundo pedido de prisão de Dantas.
Os contatos, segundo o juiz, devem ser investigados pelos conselhos nacionais de Justiça e do Ministério Público. Para Mazloum, o Judiciário tem o dever de controlar excessos da PF “e deve exercê-lo sem engajamento no processo”.
De Grandis não comentou a decisão porque não teve acesso aos autos. O juiz De Sanctis também não quis se manifestar sobre o caso ontem.

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Juíz transforma Protógenes em réu por vazar Satiagraha

Mundo condena teste nuclear da Coreia do Norte

Da Folha de S.Paulo

A Coreia do Norte foi alvo ontem de forte condenação de líderes mundiais e do Conselho de Segurança (CS) da ONU pelo teste nuclear que realizou na noite do último domingo (manhã de ontem na Ásia), ato que violou resoluções anteriores do órgão e os próprios compromissos de Pyongyang. Uma resposta prática ao regime do ditador Kim Jong-il ainda não havia sido definida até o fechamento desta edição.
Horas depois do teste, o país testou também três mísseis de pequeno alcance. Uma reunião de emergência do CS da ONU foi convocada pelo Japão durante a tarde, e os países seguiam tentando elaborar reação conjunta ao regime do ditador Kim Jong-il à noite.
“Os membros do CS expressaram sua forte oposição e condenação ao teste nuclear conduzido pela República Democrática Popular da Coreia em 25 de maio de 2009, que constitui uma clara violação da resolução 1.718”, diz a nota do grupo. A resolução 1.718 foi elaborada em condenação a outro teste nuclear, realizado pelos norte-coreanos em outubro de 2006, e incluía sanções e proibição a novas explosões.
Os eventos de ontem indicam que ela foi ineficaz, assim como a estratégia adotada até agora de pressões e encorajamentos financeiros a Pyongyang. Ainda assim, os membros do conselho “decidiram começar a trabalhar imediatamente em nova resolução”.
Os EUA disseram que a explosão é motivo de “preocupação grave” e pressionam por sanções. “A Coreia do Norte está diretamente e irresponsavelmente desafiando a comunidade internacional”, disse o presidente Barack Obama. “[O teste] convida a pressão internacional mais forte. (…) A Coreia do Norte não encontrará segurança e respeito por meio de ameaças e armas ilegais.”

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Mundo condena teste nuclear da Coreia do Norte