Acesso por mérito a universidade federal pode ter só 40% das vagas

De O Estado de S.Paulo

Cotas ou mérito? A discussão sobre a forma de acesso aos cursos técnicos e universidades federais tem levado à polêmica entre intelectuais, militantes do movimento negro, parlamentares e dirigentes de universidades. Ainda nesta semana deve chegar ao Senado um projeto aprovado na Câmara que reserva 10% das vagas nas escolas públicas para deficientes físicos. Somados aos 50% de cotas nos critérios sociais e raciais de outro projeto já em discussão chega-se a 60% das vagas para cotistas, o que está na raiz das discussões no Congresso e na sociedade. 
Presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) é contrário aos 60%. “Isso é um vexame, a morte do mérito. Sugiro um máximo de 30% e somente social, destinados aos mais pobres, sem definição de raça.” Militante histórico do movimento negro, o Frei David Raimundo dos Santos, diretor-geral do Educafro, rede de cursinhos para adolescentes pobres em São Paulo, rebate. “Esse número ainda é baixo. Se só 12% dos estudantes são formados em escolas particulares no ensino médio essa deveria ser a participação desse grupo, os outros 88% deveriam ser dos egressos de escolas públicas”, argumenta.
Algumas entidades que estudam e gerenciam o ensino federal também têm restrições ao porcentual e à questão racial. O presidente da Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Amaro Henrique Pessoa Lins, afirmou considerar 60% para cotas exagerado. “A questão é mais social, de pobreza, do que racial e o mérito precisa ser reconhecido”, justifica.
O presidente do Instituto de Pesquisas Avançadas em Educação (Ipae), João Roberto Moreira Alves, também é contrário às cotas. “Não queremos criar uma sociedade em que o profissional fique marcado como aquele que venceu graças a qualquer forma de privilégio. A Constituição estabelece que todos são iguais.”
Por sua vez, o reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, entidade voltada à promoção social de negros e pobres, José Vicente, não tem dúvidas em relação à questão. “Sou favorável às cotas. As universidades, custeadas com recursos públicos, e o governo precisam criar formas de inclusão dos setores historicamente excluídos da sociedade.”
Frei David faz questão de lembrar que as cotas não beneficiarão somente negros. “O projeto prevê que seja respeitado o perfil étnico de cada região. Assim, lugares com mais índios terão mais alunos dessa etnia. Onde houver mais negros ou mais brancos pobres, da mesma forma.”
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