SOBRE AS METÁFORAS DE LULA E O IRÃ

Já disse inúmeras vezes aqui no blog que a raça humana evolui em certos pontos à medida que regride em outros. É o que chamo de processo gradual de bestialização do homem. Há horas em que desisto de tentar compreender tal fenômeno dada a complexidade inerente ao assunto. Recuso-me a recorrer à psiquiatria. Ela também, creiam, não é totalmente confiável. Machado de Assis já percebera isso quando escreveu O Alienista, em alusão aos pseudoloucos de Lacan. Pra quem ainda não leu o livro, uma sinopse: Simão Bacamarte, grande médico entendedor do comportamento humano da psiquiatria, chega em uma cidade e cujo nome já me esqueci e monta uma casa de recuperação de loucos: Casa Verde. Lá, Bacamarte começou a internar todos que ele julgava ser louco. Os critérios eram bem, digamos, exóticos: desde uma pequena dúvida sobre que roupa usar até a feitura de uma simples metáfora (Martim Brito foi internado somente por ter se referido a Marquês de Pombal como o dragão aspérrimo do Nada). Como se vê, o juízo de cada um nunca será um juízo uno. Sempre estará sujeito às acepções alheias, até mesmo às acepções de um psiquiatra.

Bem, fiz o nariz-de-cera acima para chegar a ele, de novo: a Lula. Assim como o poeta Martim Brito, Lula é o Rei das Metáforas. Apenas algo os diferencia: Brito sempre tinha razão. As metáforas de Lula, em conteúdo, são tão profundas quanto as águas de aquário; mas tão desprezíveis quanto eram  os leprosos na Idade Média. Sim, Lula é uma de minhas estrelas no palco do show do processo de bestialização do homem. Ele sempre nos surpreende.

Dessa vez, Nossa Alice [no país das maravilhas], na esteira de Ahmadinejad, resolveu comparar os conflitos no Irã a um jogo de futebol. “Eu não conheço ninguém, a não ser a oposição, que tenha discordado da eleição do Irã. Não tem número, não tem prova. Por enquanto, é apenas uma coisa entre flamenguistas e vascaínos”, disse ele. Mas Lula se supera. “O presidente [Ahmadinejad] teve uma votação de 62,7%. É [um número] muito grande para a gente imaginar que possa ter havido fraude”. Sim, Lula acredita que a oposição iraniana deveria permanecer inerme frente a indícios de fraude, mas é incapaz de crer que o gente boa Ahmadinejad possa sabotar um processo eleitoral. Provas de ardil há: pasmem!, até na cidade onde nasceu Mousavi, Ahmadinejad venceu com mais de 63% dos votos. O argumento de que mais de 62,7% são o bastante para legitimar um processo eleitoral é tão falso quanto uma nota de três reais (o metaforismo começa a me contagiar também, hehe). Ora, Saddam Hussein, o tirano genocida, nunca “venceu” uma eleição com menos de 90% dos votos. Na Chechênia, Putin conseguiu 95% de aprovação…claro, depois de massacrá-la.

Com relação à metáfora futebolística, bem, nem é preciso fazer esforço pra notar um certo desprezo por parte de Lula a quem não quer Ahmadinejad na presidência do Irã. Lula pode não simpatizar com oposições, mas deve, no mínimo, zelar pelas referências que lhas faz. A situação por lá é muito mais delicada do que um mero jogo de futebol. Lula crê na existência de democracia no Irã. – Só ele e os bocós por sinal –. A democracia iraniana não autoriza manifestações e, se, mesmo assim, pessoas resolvem protestar, a resposta é bala, enfrentamento, invasão a universidade em plena madrugada e espaçamento de estudantes, detenção de manifestantes às pencas. Essa é a republiqueta tida como democrática por Lula, onde manifestações só ocorrem com anuência do governo.   Mas a juventude e a classe média do Irã começam a ir às ruas. Existe um risco – pequeno, é verdade, mas existe – de a atual situação se transformar num pandemônio e um banho de sangue tomar conta das ruas. Seguem trechos de reportagem da Folha de S.Paulo de hoje. Retomo em seguida.

Paramilitares iranianos mataram ontem uma pessoa e deixaram vários feridos graves ao final da maior manifestação até aqui da oposição contra o resultado da eleição presidencial de sexta-feira. O candidato oposicionista Mir Hossein Mousavi pediu durante o protesto que seja feita uma nova eleição, em vez da recontagem simples dos votos.

Os reformistas aliados a Mousavi veem com desconfiança o fato de o governo ter divulgado a vitória de Ahmadinejad apenas duas horas depois do fechamento das urnas -um processo que costuma levar de dois a três dias no país. A partir da vitória, houve um blecaute informativo. Mensagens de texto por celulares foram bloqueadas, assim como diversos sites da internet. Universidades e escolas foram fechadas.

Khamenei pediu que Mousavi usasse apenas “vias legais” para protestar contra o resultado. A manifestação de ontem foi proibida pelo Ministério do Interior, mas a presença policial foi discreta, e os incidentes só ocorreram no final da noite.

Pelo menos 200 oposicionistas foram presos na noite de sábado, mas alguns deles, como o irmão do ex-presidente Mohammad Khatami, foram soltos ontem.

Na noite anterior, 200 milicianos islâmicos invadiram a Universidade de Teerã, onde 2.000 estudantes se manifestavam e agrediram os estudantes. Houve invasão no dormitório do campus, à 1h30 da manhã, quando universitários foram agredidos a porretes pelos milicianos.

O governo iraniano advertiu ontem a todos os jornalistas enviados pela imprensa internacional para cobrir as eleições que não serão renovados os vistos. Até domingo, havia 650 jornalistas estrangeiros em Teerã, mas acredita-se que quase a totalidade deles tenha que deixar o país no próximo fim de semana.

Eis aí a democracia que Lula acredita existir no Irã. Engraçado notar que Nossa Alice elogia regimes pseudodemocráticos, mas critica ferrenhamente a única democracia de fato do Oriente Médio: Israel. Lula é típico ser exaltado por aquelas criaturas incapazes reconhecer um homem talentoso de um imbecil. Lula pode falar o que quer sem medir conseqüências, mas não importa. Ele é Lula! Saiu das massas e foi pro Planalto. Isso já o isenta de ser um asno. Qualquer palavrório que venha a proferir, evidentemente, será tido pelos lambedores de bota do lulo-petismo com a equivalência de uma encíclica papal. Alguns podem achar meu tom exagerado ao me referir a Lula. Mas não, não é. Há gente que o tem por gênio, por “O Cara”. Eu não o tenho assim. Sou como Ulrich de O Homem sem Qualidades – posso até tomar um gênio por patife, mas jamais tomarei um patife por gênio.

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