JORNALISMO É TALENTO, NÃO É DIPLOMA

Do portal Comunique-se. Volto em seguida.

O Supremo Tribunal Federal deve julgar no início da tarde desta quarta-feira a obrigatoriedade ou não do diploma de graduação em jornalismo para o exercício da profissão. O Recurso Extraordinário 511961 é o segundo na pauta da sessão plenária.

O julgamento já foi marcado outras duas vezes, mas foi adiado por falta de tempo. Entretanto, diferente das outras vezes, o tema do recurso que antecede a análise do diploma não é tão sensível. Na primeira vez, foi o julgamento da Lei de Imprensa; na segunda, o caso Goldman e o Mensalão. Hoje, será analisado um recurso sobre a legalidade ou não da cobrança de tarifa básica de assinatura do serviço de telefonia fixa.

Senador defende o diploma
Nesta terça-feira, o senador João Pedro (PT-AM) defendeu a exigência do diploma e ressaltou a importância do julgamento que pode ocorrer na tarde de hoje.

“Está em jogo uma profissão importante para um Estado democrático de direito”, afirmou em pronunciamento na tribuna.

O senador se mostrou preocupado pelo fato de alguns ministros do Supremo já terem se manifestado, não oficialmente, contra a obrigatoriedade do diploma.

“Considero um retrocesso para o Brasil se o Supremo não reconhecer o diploma desses profissionais. Não cabe meio jornalista, meio profissional. Não cabe jeitinho”, disse.

O presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, Sérgio Murillo de Andrade, divulgou carta defendendo a exigência do diploma e pedindo que os ministros reflitam sobre o que está em jogo.

“Para Vossa Excelência pode ser somente mais um RE, mas para os 80 mil jornalistas brasileiros graduados, para as 400 faculdades de comunicação social existentes em nossas universidades e para os seus 2.500 professores de jornalismo, e, porque não dizer, para a sociedade brasileira, é o Recurso Extraordinário”, afirma no documento.

Conheça o caso
A discussão em torno do tema teve início em 2001, quando a juíza Carla Rister concedeu liminar suspendendo a exigência do diploma, acatando pedido do Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão de São Paulo.

Em 2005, o Tribunal Regional Federal revogou o entendimento de primeira instância, e o diploma voltou a ser obrigatório. Entretanto, o Ministério Público Federal recorreu e o caso foi para o STF.

No final de 2006, o relator do processo, ministro Gilmar Mendes,suspendeu temporariamente a obrigatoriedade do diploma até que o recurso seja julgado no Tribunal, o que pode acontecer na tarde de hoje.

Há muito tempo defendo a não-obrigatoriedade de diploma de jornalista para exercer a profissão. Para ser um bom profissional da área, acredite, basta ter talento. Exemplos de sucesso na imprensa de pessoas sem formação jornalística não faltam: Joseval Peixoto (formado em Direito), Lúcia Hippolito (primeiro se formou cientista política, somente depois fez jornalismo), Heródoto Barbeiro (historiador por formação primária) e Jamil Chade (formado em Relações Internacionais) são apenas alguns. A maior parte das pessoas que defende a obrigatoriedade do diploma é, claro, jornalista diplomado. Trata-se de um corporativismo bocó. É medo mesmo. Medo de um economista superá-lo na editoria de Economia; de um médico superá-lo na editoria de Saúde…

Uma discussão importante que não pode ser deixada de lado nessa cantiga é a diferença de um jornalista formado e de um jornalista, digamos, moldado. O primeiro sai da faculdade dominando técnica, como, por exemplo, a forma de se colocar um fato em perspectiva. O segundo sai da faculdade dominando o tema sobre o qual irá tratar. E é muito mais fácil aprender a técnica do exercício jornalístico a assimilar as peculiaridades de um assunto específico. Conhecimentos específicos em técnicas de edição, confecção de lauda, estrutura do lead e da notícia… tudo isso torna-se secundário quando comparado a conhecimentos específicos em tribunais internacionais de arbitragem, estrutura e funções organizacionais de entidades reguladoras de ramos como comércio, saúde, direitos; implicações fatídicas ambientais e suas causas, minúcias de um conjunto macroeconômico…e por aí vai — elementos sempre presentes no noticiário.

Também sou estudante de jornalismo e na TV Bandeirantes de São Paulo aprendi como funciona o telejornalismo. E aprendi na marra, tudo; desde o método de apuração, passando pelo trabalho da equipe de reportagem de rua, decupagem e edição de materiais e chegando ao texto final que será lido pelo apresentador. Somente depois que eu já tinha adquirido conhecimentos na emissora foi que a grade curricular da minha faculdade previu aula de Telejornalismo. E, querem saber?, se eu fosse à TV com o que foi ensinado em sala estaria perdido. E, não querendo me gabar, mas minha faculdade é uma das que mais colocam profissionais na TV. Glenda Kozlowski, Sandra Annemberg, Adriana Reid e Janine Borba são frutos de onde estudo (eu ia citar Renata Fan também; mas ela me envergonha, hehe).

Ao contrário do que pensam alguns ultrapassados, a faculdade de jornalismo não faz jornalista por excelência. O álibi da coisa só se aprende na prática, no cotidiano exercício da profissão. “Ah, mas você está desmerecendo a categoria”. Não, não estou. Desmerece a categoria quem usa um cabresto bocó, quem acha inaceitável um historiador poder escrever excelentes matérias sobre a sociedade, que acha um absurdo um ex-jogador de futebol assinar uma coluna sobre esporte, que não aceita um economista entrevistando didaticamente o Ministro da Fazenda, que abole um maestro escrevendo um texto sobre o 1º Concerto para Violino e Orquestra em Ré Maior de Tchaikovsky, que não tolera um escritor escrevendo uma matéria sobre a Bienal do Livro, que rejeita a hipótese de um internacionalista cobrir uma grande convenção da ONU.

Manada

O Comunique-se é um recanto onde se debate comunicação (Ia escrever que o Comunique-se é um recanto de reacionários da comunicação. Mas preferi não escrever). Abaixo, faço alguns contra-pontos com alguns comentários que surgiram por lá.

Para que então fazer faculdade de jornalismo? Posso até nem pedir mais o meu diploma, não servirá para nada mesmo…a decepção de uma recém-formada que fez jornalimo por amor. Agora, os diplomados de jornalismo trabalharão com que? Mesmo pq sem diploma a mão-de-obra vai ficar ainda mais barata e sucateada para querm está entrando agora no mercado. Debora Miranda Rocha

Nota-se que Débora defende a categoria dos jornalistas. Em nenhum momento se fala da qualidade da notícia que é levada ao leitor, ouvinte ou telespectador. Quer se destacar no mercado? Pois então que prove que teu diploma de jornalista te garantiu mais bagagem do que um diploma de Biologia na mão de outrem.

Suponho então que não se exija diploma em nehuma profissão..já que ética, honestidade não se aprende na faculdade..pra que médicos diplomados não é? pra que advogados diplomados? todo mundo simplesmente decidi ser alguma coisa e vai ser oras..
Haa eu quero ser engeheiro..haa eu quero ser jornalista..
Tenha santa paciência!!!!
Pablo Orrico

Ora, meu filho! Sabia que para ser ministro do Supremo Tribunal Federal (a mais alta corte judiciária do País) não precisa de diploma de Direito? Basta ter notório conhecimento jurídico, ter mais de 35 anos e conduta ilibada. E outra: há de se por na balança essa história de relações de desnecessidades de diplomas. Um médico trabalha com vidas e, creio, jamais adquirirá todo o conhecimento necessário inerente ao exercício da profissão com a mesma facilidade que se adquire conhecimentos técnicos da profissão de jornalista. Há de se sopesar o tipo de conhecimento requerido de cada profissão antes de relativizar uma conversa dessa natureza.

Sinceramente, não consigo imaginar de que forma operaria uma empresa jornalística sem a presença de jornalistas, formalmente falando. Só me passa pela cabeça os tempos românticos nos quais se tinham médicos e advogados atuando como repórteres.
Se for em nome da liberdade de expressão, fica minha pergunta: já não há uma notável liberdade de expressão proporcionada pelas novas tecnologias e pelo chamado “jornalismo participativo” ou “jornalismo cidadão”. Creio que o mundo moderno, ou pós-moderno, como diriam alguns, já nos ofereçe suficientes mecanismos de liberdade de expressão que tornam desnecessária a extinção do diploma.
Como estudante de jornalismo, percebo agora, a meses de graduar, a diferença que o diploma fará em minha formação profissional. É o canudo que pegarei (se Deus quiser, porque eu quero muito!) no ano que vem, que me habilitará a buscar uma colocação na área. Assim não o fosse, teria buscado isso logo ao terminar o ensino médio. Que tipo de profissional seria eu.
Patricia Christina de Souza Vidal

Quanto ão no texto, hein, minha filha! Quem disse que as empresas de comunicação que operam através do jornalismo deixarão de ter jornalistas somente porque a obrigatoriedade do diploma foi extinta? Ora, é uma questão de raciocínio: as empresas, se quiserem, poderão continuar contratando apenas jornalistas. A lei não obriga nenhum veículo a contratar não-jornalistas. Creio que, apesar da medida a ser adotada pelo STF (escrevo este texto antes do resultado do julgamento), as redações continuarão conservadoras e dando prioridade somente a diplomados em jornalismo.

A não obrigatoriedade do diploma é a festa do nepotismo, da camaradagem, e a queda ainda maior da qualidade do que é produzido nos meios de comunicação. Paulo César Cabral

Qual é o crime de um empresário contratar apenas familiares para trabalhar na própria empresa? Nepotismo, até onde sei, só ocorre na esfera pública.

Partindo para as conclusões

É bem verdade que as faculdades de jornalismo dão a essência para o profissional, mas isso, perto do que é o mercado de trabalho, é apenas um curso de massinha. Ou os profissionais das comunicações começam a se inteirar de tudo que a revolução das novas mídias proporcionam – só assim se destacarão: ficando experts em formas de abordagem de notícias e as melhores formas de levá-las ao público – ou comecem a se conformar em perder espaço para economistas, filósofos (e assim vai) com bom texto.

Sobre minha afirmação concernente às novas mídias: não aceito que ninguém venha discutir comigo sem antes ter lido o livro The Long Tail, de Chris Anderson. Leia-o. Depois podemos travar um bom debate.

Caso queira acompanhar a discussão no portal Comunique-se, clique aqui.

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JORNALISMO É TALENTO, NÃO É DIPLOMA

17 pensamentos sobre “JORNALISMO É TALENTO, NÃO É DIPLOMA

  1. jessica gama diz:

    sou estudante de jornalismo, e acho didiculo a forma que tratam o profissional da imprensa. Temos que lutar pelos nossos direitos vamos jornalistas ? q talvamos

  2. olivia diz:

    Desculpe, mas não é resposta, simplesmente uma pergunta.Gostaria de saber se Glenda Koslowski cursou e concluiu Jornalismo.Obrigada .

  3. Otávio diz:

    Há algum tempo atrás tentaram regulamentar a profissão de jornalista, criando os conselhos federal e regionais como nas outras profissões e não conseguiram. Se o jornalismo não tem um conselho ou ordem para impor pelo menos um código de ética, como eles se acham no direito de “reservar mercado”?

  4. Vnh diz:

    Parabéns ao ministros do STF que colocaram por terra um decreto pterodáctilo para o exercício da profissão de jornalista. Concordo contigo, Leandro: JORNALISMO É TALENTO!

  5. Anna Cobucci diz:

    Imoral essa decisão! Não passa de um cala boca aos jornalistas para que a sociedade brasileira fique mais alienada. Sugiro que a decisão se estenda ao judiciário já que as leis estão aí para quem quiser ler e não vejo necessidade de 5 anos de estudo científico ou técnico para se tornar advogado. Também o que esperar de um país onde o presidente assume que não gosta de ler e tem aversão ao estudo!!!!! Sinto vergonha de nossos comandantes!

  6. Samuel Santana diz:

    Os BONS jornalistas sempre terão espaços garantidos no mercado. Não há porque a categoria ficar atemorizada com isso.

  7. Bruna C. diz:

    Não quero desmerecer cozinheiros; mas nos comparar a eles mostra que pra ser ministro do Supremo não precisa ter “notório” conhecimento coisa nenhuma.

  8. Sérgio Carvalho diz:

    Concorco com quase tudo que vc falou; exceto em dizer que Sandra Annemberg é boa jornalista. Isso não dá

  9. Pedro diz:

    Assino embaixo tudo o que foi escrito pelo o Lucas. O caamrada que quer ser jornalista pode muito bem pegar seu diploma de jornalista depois de uma formação anterior. MAs tbm concordo qdo vc diz que as redações contuaraõd a priorizar apenas os jornlaitas diplomados, pelo menos as sérias. Pq jornalzinho que visa lucroi, vai obviamente querer contratar gente não formada em jornalista e pagar pra eles salários masi baixos.
    É isso,
    Pedro

  10. Cristiano diz:

    Vc não pode ser estudante de jornalismo… é impossível. Não que teus argumentos estejam errados até pq concordo com muitos deles e discordo também. Mas um estudante de jornalismo defender a não-obrigatoriedade do diploma é um avanço tremendo. Bom demais pra ser verdade.

  11. cintia jornalista diz:

    Sou jornalista diplomada e trabalho em assessoria de imprensa. Como vivo em contato com assuntos 4específicos a cada cliente (moda, no meu caso) e tenho que falar cotidianamente com jornalistas de redação, percebo como muitos deles são, se me desculpe a expressão, “tolinhos”. A carreira de jornalista independe do diploma de jornalista. Você tem plena razão. Se apessoa tem talento e vocação para ser jornalista, será e com muito sucesso.
    Teu texto também está 10!

  12. Patrícia Gutten diz:

    Não creio que haverá a banalização da profissão somente porque a exigencia de diploma ofi derrubada. Até pq para se dizer jornalista, precisa trabalhar como tal.

  13. Fico com uma questão em mente: você então aceitaria numa boa, depois de, por exemplo, ser felicitado por amigos e familiares por um bom cargo numa editoria de Economia, ser simplesmente trocado por um economista que talvez nem seja um bom profissional? Porque você defende o uso do mercado por pessoas que ‘saibam o que estão falando’, mas, quem julga isso? E a imparcialidade? Se já é difícil manter a visão estando de fora do assunto, como seria se todos os assuntos fossem debatidos com o olhar centrado em uma determinada parte do assunto?

    É lógico que há coorporativismo nesta questão, Leandro. Isso é fato. Mas, se não nos apegarmos a nós mesmos e se não lutarmos pelos nossos direitos, pelas garantias de nosso espaço no mercado, quem o fará por nós?

    Posso até ver uma frágil luz quando você diz que precisaríamos pensar no leitor, na qualidade do que é levado à televisão, às revistas, aos jornais, mas não. Há ene maneiras de se fazer um bom jornalismo sem substituir jornalistas por médicos, advogados, biólogos. Uma boa pesquisa, boas entrevistas, apuração, coletas de dados, aliados às técnicas aprendidas na faculdade resultam sim num jornalismo sério, honesto, claro.

    Seu texto ficou bom, contundente, mas não mudo minha opinião. Acho pertinente a exigência do diploma. Você me disse que os jornalistas deveriam ter em mente que vivemos num mundo onde segundas graduações deve ser pensadas. E o inverso? Por que um economista não faz um curso de Jornalismo se quiser discorrer sobre economia num jornal? O caminho é o mesmo, só há uma inversão da ordem. O jornalista precisaria sabe se portar e discorrer, só não tem o foco e conhecimento. O outro profissional teria o foco e conhecimento, mas seria cru no quesito do bom fazer de um jornalismo bom.

    Enfim…

    Abraço.

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