NÃO ESTOU NEM AÍ PRAS MAIORIAS. SOU SENHOR DE MIM MESMO

Um dos aspectos do nosso tempo é a tendência de dançar o minueto de tudo aquilo que é consenso. A imprensa mundial e as diplomacias do mundo estão unidas e firmes em qualificar a crise de Honduras como um golpe de Estado. Já disse exaustivamente aqui no blog: NÃO, NÃO FOI GOLPE! O que ocorre por lá é a pura demonstração do apreço às leis e tudo o que lhe é inerente. Zelaya, aquele que resolveu estuprar a Constituição de seu país sem sequer usar camisinha, queria implementar o chavismo em Honduras e, ao arrepio das vias legais, promover uma consulta popular reprovada pelo Legislativo e pelo Judiciário. Deu com os burros n’água. Bem feito. Quem diria, hein? A então inexpressiva Tegucigalpa enfrentando o modelo chavista quase predominante na América do Sul.

Tive, no jantar de ontem, a oportunidade de discutir – no bom sentido – com amigos a situação política de Honduras. Não pensem que estou falando de pessoas sem instrução. Não, não estou. O debate se deu com pessoas de bom nível cultural e intelectual. Até porque, se me permitem dizer uma coisa, conheço poucas  pessoas com baixo nível de instrução. E com estas, bem, o assunto raramente evolui além do placar do jogo de ontem e do clima. Santa temperatura! Graças a ela, muitos sem-assunto têm um lugar-comum a recorrer. Eu sou impaciente? Não, juro que não. Sou intolerante com aqueles que não tiveram oportunidade de se instruir? Também não; longe de mim, pelo amor de Deus! Sou daqueles que têm como política de vida o compartilhamento de conhecimento. O pulo-do-gato, no entanto, está com aqueles que não estão abertos a novos conhecimentos. E, perdoem-me, mas, nesse sentido, não cabe a mim abrir-lhes a cabeça e introduzir conteúdo à força.

Adiante.

No âmbito da discussão com esses meus amigos, evidentemente, fiquei isolado. O consenso entre eles era exatamente o consenso mundial: o golpista de Honduras é Micheletti. Não fiquei, como se diz por aí, “de Chico” por causa disso. Apenas achei interessante um questionamento que me foi feito no calor do debate. “A OEA, os Estados Unidos, a CNN, a Globo, a Folha, o mundo afirma que é golpe. E Leandro Vieira fala que não foi? Como assim?”. Bem, aí, nessa história, entram os velhos conceitos de maiorias e minorias. Que fique bem clara uma coisa: eu quero que a maioria se dane! Cada qual que pense com a sua cabeça.

Sou um grande cultuador do ser humano como indivíduo, senhor soberano de seus atos e pensamentos. Nunca me senti convidado a aderir àquilo que pensam a maiorias ou as minorias. Prefiro formar meus próprios conceitos de acordo com a minha leitura dos fatos e sempre em consonância com a razão e o bom senso. Se calha de meus conceitos serem gêmeos do que uma outra corrente de pensamento propõe, tudo bem; se não, tudo bem do mesmo jeito.

Incomoda-me o fato de as pessoas sempre se sentirem coagidas a pensar conforme as maiorias, como se estas fossem dotadas de uma legitimidade exclusiva que lhes confere sempre a alternativa a ser seguida. As maiorias estavam com Hitler. As maiorias estavam com Stálin (e, pasmem, ainda estão. Hodiernamente, mais de 50% dos jovens russos admitem ter Stalin como um herói). As maiorias condenaram Cristo à crucificação e libertaram Barrabás. As maiorias estão com a família Sarney no Maranhão.

Maiorias e Minorias

Nem todas as maiorias são necessariamente boas. E o mesmo vale para algumas minorias. Isso porque muitos confundem o direito de livre expressão com o direito de formação de bandos para requerer direitos que passam dos limites do tido como razoável. O indivíduo que quiser ser homossexual, ora, que seja; mas nada de ficar montando militâncias para exigir superdireitos e superproteção como se vê no Projeto de Lei 122 (já falei desse PL. Leia aqui). O camarada que deseja fumar maconha, ora, está no seu direito. Faça-o. Mas não venha querer montar um grupo de pessoas e me empurrar goela abaixo manifestações apologéticas à droga. Embora a lei não puna o usuário, isso não significa que seja moralmente aceitável. Para uns é, pra mim, não. (Falar da descriminalização da maconha é chato. Farei isso mais adiante. É um assunto muito complexo pra ser tratado em um único parágrafo). O sujeito optou pelo crime como meio de vida? Pois então que viva sua vida, mas também que esteja consciente de que sua vontade individual não pode transgredir o direito de outrem (como o direito à vida, à propriedade privada, etc). Para sermos livres, precisamos ser escravos da lei.

A importância da individualidade do pensamento está justamente ligada à importância de cada qual ter seu próprio juízo, seu próprio, digamos, código de conduta. Por isso julgo abominável qualquer tipo de tentativa que venha arranhar esse direito da particularidade de cada um de nós. E, nesse sentido, há uma luta contínua de inúmeros movimentos sociais e por parte do próprio consenso da sociedade. Puro ardil. Vejam o que fazia a Regina Casé no Fantástico ao proclamar que “a periferia é o centro”. Ela adorava entrar nas favelas das grandes cidades e mostrar a cultura construída por aquela gente nos moldes que a vida ali vivida lhes proporcionara. Nesse programa, cansamos de ver um monte de gente cantando rap – com aquele português sofrível –, exibindo suas virtudes locais e Regina Casé proclamando aquilo como se fosse o supra-sumo da cultura brasileira. Sim, nesse caso, é o culto às minorias.

Ora, se as maiorias nem sempre estão certas, as minorias também nem sempre estarão. Sempre que se fala em distorções sociais, a parte mais desenvolvida da sociedade é convidada a aceitar tudo o que a parte desfavorecida produz. Raramente se vê o contrário. Por que eu seria obrigado a aceitar o rap como algo de útil pra mim? Por que eu seria obrigado a aceitar o funk como a música do momento e aderir a ela? Por que eu teria que ler um livro da literatura marginal e me calar perante muitos absurdos que estão ali contidos? Simples: porque, nesse caso, as minorias estariam dotadas de algo que as maiorias não estão: do sofrimento por que passam em razão da situação econômica que vivem. É como se os flagelos da vida legitimassem tudo o que a periferia nos oferece. Pra ser mais claro: é como se a pobreza deles fosse o carimbo de qualidade do produto que produzem. Lamento, mas não é. A galerinha que acha tudo isso bacana, maravilha, todos têm direito de ter gostos próprios; até de ter gosto pelo ridículo. Mas sabemos que esse tipo de coisa é muito regionalizado, não caberia tentar expandir tais práticas ao país inteiro como se isso fosse a oitava maravilha do mundo. Logo, a periferia não é o centro.

Veja bem: não estou combatendo preferências. Seria no mínimo ridículo de minha parte fazer isso depois de ter afirmado minha paixão pelas escolhas individuais. Citei o exemplo da Regina Casé para evidenciar o quão ridículo é e a que ponto chega a tentativa de empurrar costumes de um grupo a outro grupo de práticas completamente diferentes. Por que ninguém vai à Sala São Paulo fazer uma sequência de reportagens sobre cada naipe de uma orquestra a fim de estimular o pessoalzinho do funk a tocar violoncelo. “Ah, porque eles não gostam disso”, dir-me-ão alguns. Sério? E todo mundo gosta de funk?

É triste ver muita gente perdendo personalidade justamente por causa das maiorias e das minorias. Repito: nunca me sinto convidado a aderir a algo simplesmente por causa do pensamento alheio. Isso é uma armadilha terrível. Mais: diria que é a porta de entrada para ser vítima de possíveis manipulações. O indivíduo como senhor de seus atos também precisa saber que esses são, muitas vezes, frutos de seu pensamento. Construir o próprio caráter também depende da construção de conceitos próprios que formam nossa personalidade. E, com efeito, seguir manadas de pensamento quando o que está em construção é a própria pessoa é assumir um risco alto. Isso porque, creiam, quem sempre segue o consenso perde, involuntariamente, a própria capacidade de formar juízos e sempre estará correndo atrás de grupos de pensamentos que lhe aprazem; pois já perdeu a capacidade de discernir os fatos por si só. A pessoa, nessa altura do campeonato, já não consegue mais pensar com a própria cabeça. Apenas pensa com a cabeça dos outros.

Partindo para a conclusão

Portanto, meu caro leitor, se o mundo acha que há golpe em Honduras; saiba: estou pouco me lixando. Li a lei hondurenha. Está tudo nos conformes. Nada fora do lugar. Os hondurenhos, senhores de si mesmos, foram ontem às ruas e protestaram: não querem Zelaya de volta ao poder. Eles também taparam os ouvidos para o que diz o mundo. E sabem o que fazem.

Remar contra a maré é ato de corajosos. Estar contra o consenso é como estar só na bacia das almas. Mas nem me incomodo. A sorte está com os audazes.

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