EMBRIAGADO… DE SAINT-SAËNS

Acabo de chegar do concerto de encerramento do 40º Festival de Inverno de Campos do Jordão. O repertório foi 100% por cento francês, em razão das comemorações do ano da França no Brasil – que foi o tema do festival.

Os compositores franceses não estão entre os meus favoritos. A ânsia de serem revolucionários compasso a compasso com ousadias e artimanhas na construção de sonoridades nem sempre resulta em algo agradável de se ouvir. Peguemos, por exemplo, o Bolero de Ravel. Trata-se de uma composição magnífica, uma verdadeira aula de orquestração. Mas eis que em meio às repetições obsessivas da melodia do tema central surge um flautim tocando exatamente o mesmo desenho da idéia-fixa, porém, executando notas que parecem sair um pouco da afinação. Em suma: parece que aqueles poucos compassos de solo do flautim, em específico, foram escritos em um tom diferente do tom da clave. Há gente que acha isso divino, inovador. Eu, particularmente, não acho. Questão de gosto apenas. Falo isso antes que alguém venha querer me dar sopinha de letras na área musical: “Ah, mas música é a arte de manifestar sentimentos mediante o som. Portanto, ele pode escrever o que ele sente!!”. Jura? Dispenso essa explicação. Desculpem-me pela falta de modéstia, mas, em se tratando de música, já como feijoada.

A noite na Sala São Paulo foi dos compositores Camile Saint-Saëns e, bem, claro, Maurice Ravel. Como abertura, a Orquestra Acadêmica, sob regência do maestro Roberto Minczuk – diretor artístico do festival – executou La Valse de Ravel. Depois, o Concerto para Piano em Sol maior do mesmo compositor. Assistir a um concerto não deve ser uma atividade meramente auditiva. Reparar na movimentação dos músicos, na regência do maestro e no entrosamento entre todos é um exercício prazeroso. Atentar somente à sonoridade é muito sem graça. Por isso, em um concerto, sempre levo em conta tudo. E, creiam, o compositor também interfere no comportamento da orquestra durante a apresentação. Uma orquestra tocando Tchaikovsky é garantia de que os arcos dos instrumentos de cordas serão um espetáculo à parte. Mas quando a obra é de Ravel, bem, aí a coisa já muda. Assistir à orquestra torna-se totalmente sem graça. Volto ao Bolero: quando tiverem uma oportunidade, prestem atenção no comportamento da orquestra que o executa. Dá um pouco de sono nos primeiro 7 e 8 minutos.

Conterrâneo de Ravel, Camile Saint-Saëns é meu compositor francês favorito ao lado de Charles Gounod. Ao contrário do que se viu quando a Orquestra Acadêmica executou Ravel, com Saint-Saëns, os bolsistas, transmitiram à platéia uma potência vibrante. A Sinfonia do Órgão – como é conhecida 3ª sinfonia de Saint-Saëns em virtude de um órgão que sola no final da obra – é uma composição formidável que explora com peculiaridades próprias cada naipe da orquestra. Assistir um conjunto tocando Saint-Saëns é muito prazeroso. O trato com as cordas merece um destaque especial. Toda a extensão musical dos violinos, violas, cellos e contrabaixos é explorada no decorrer da sinfonia. Os efeitos aprazíveis são muitos: desde a sonoridade dos violinos executando uma melodia extensa na corda sol (a mais grave) até às notas agudíssimas que acompanham o piano e o órgão no último movimento da sinfonia. Também os arcos ora castigando as cordas com veemente contundência e ora deslizando por elas como uma pluma… Enfim, o conjunto da obra desperta em quem a assiste um turbilhão de sensações. Se Saint-Saëns se transformasse em um vinho, certamente eu ficaria bêbado.

A música, em especial, tem um poder que é próprio de sua natureza: de registrar em nossas memórias fatos, sensações, sentimentos e pessoas — que podem estar longe ou podem estar ao nosso lado. Quem nunca escutou uma música – não necessariamente erudita – e lembrou de uma pessoa, de uma situação ou de um fato? Lembro-me até hoje como me senti quando conheci a Nona de Beethoven por inteiro. Antes de o coral entrar com o tema mais famoso de toda obra, a orquestra tem uma cadência em tom menor. Essa passagem – que é tocada em pianíssimo – seguida pelo fortíssimo da orquestra e do coral com uma potência majestática conseguiu me tirar por poucos milésimos de segunda da cadeira. Beethoven, aliás, é um compositor que costuma me deixar atônito com muita facilidade.

O Festival de Inverno de Campos do Jordão deste ano se encerra e, admito: que já estou sendo acometido por uma nostalgia. Deve ser porque ainda estou embriagado de Saint-Saëns.

Anúncios
EMBRIAGADO… DE SAINT-SAËNS

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s