O BISPO E JEAN MESLIER

O padre Jean Meslier foi uma exceção em seu tempo. Desiludido com os rumos que a sociedade francesa tomava, o clérigo viu na Igreja e no Estado os principais motivos para a existência das agruras daquela época. Corolário: tornou-se ateu. No auge de sua revolta e indignação escreveu sua maior máxima: “Eu gostaria, e este será o último e o mais ardente dos meus desejos, eu gostaria que o último rei fosse estrangulado com as tripas do último padre”.(Je voudrais, et ce sera le dernier et le plus ardent de mes souhaits, je voudrais que le dernier des rois fût étranglé avec les boyaux du dernier prêtre). Essa frase, sei lá por que cargas d’água, costuma ser atribuída a Voltaire ou, mais freqüentemente, a Diderot. A verdade é que cada um deles a adaptou segundo suas concepções e de acordo com o que pensavam as pessoas sobre o mundo. Ora, são as intermitências da sociedade que moldam a cabeça daqueles que pensam.

A grande verdade do padre Jean Meslier ainda é um pouco omitida. Meslier era o, digamos, Joaquim Barbosa elevado a cem que viveu entre 1664 e 1729. Em tudo o vigário passou a ver a opressão do Estado contra os póbri e as injustiças sociais serem perpetuadas. O fato de a Igreja à época ser omissa – melhor: conivente – com tudo o revoltava. Passou, então, a ser dissidente da religião e pregar o comunismo, o deicídio (matar Deus) e o tiranicídio como bases de desenvolvimento para a humanidade.

Por que o nariz-de-cera acima? Bem, leia abaixo trechos da matéria de Germano Oliveira, Fábio Fabrini, Ana Paula de Carvalho e Juraci Perboni no jornal O Globo de hoje. Volto depois.

Um diploma assinado por Jesus Cristo e uma chave do céu estão entre os “prêmios” entregues a fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus explorados em sua fé. Pastores chegavam a dizer que aqueles que amam Jesus deveriam pôr a chave de seus carros nas sacolinhas que circulam pelos tempos, de acordo com denúncia do Ministério Público Estadual (MPE) de São Paulo, aceita segunda-feira pelo juiz da 9ª Vara Criminal da capital, Gláucio Roberto Brittes de Araújo. Tornaram-se réus o bispo Edir Macedo, fundador e chefe da Universal, e mais nove membros da igreja.

Uma das linhas de investigação do MP contra Edir Macedo, é a descoberta de que o grupo chefiado pelo bispo ocultaria bens e falsificaria documentos para a compra de emissoras de rádio e TV. Num dos capítulos da denúncia, denominado “ocultação de bens pertencentes ao grupo criminoso”, os promotores apresentaram documentos que provariam uma série de negociações escusas na aquisição da TV Itajaí, em Santa Catarina, e na transferência de ações da rádio Record e das emissoras da TV Record em São Paulo, Franca e Rio Preto.

‘Peça, peça, peça! E quem quiser dar, dá’

De acordo com a denúncia, o bispo Edir Macedo, utilizando-se da Igreja Universal do Reino de Deus, criou com os demais denunciados um sistema de arrecadação de dinheiro junto aos fiéis baseado em falsas curas milagrosas e depoimentos forjados, dentre outras promessas de soluções para todos os males. Em discurso gravado em vídeo em 1992, citado na denúncia, o chefe da Universal diz a pastores: “Você não pode nunca ter vergonha, não pode ter timidez… Peça, peça,

peça! E quem quiser dar, dá, quem não quiser não dá. E se tiver alguém que não dê, tem um montão que vai dar”.

‘Abençoador: Senhor Jesus Cristo’

“Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida”. A citação do livro de Malaquias é a mensagem impressa no “Diploma de Dizimista”, assinado por ninguém menos que Jesus Cristo. O certificado é um dos guardados do porteiro aposentado Edson Luiz de Melo, de 45 anos, ex-fiel da Igreja Universal do Reino de Deus em Belo Horizonte, no meio de uma sacola cheia de cajados, arcas, taças, óleos para banho de descarrego e uma infinidade de objetos de carga simbólica.

Foram cinco anos de contribuição, que, nas palavras de familiares, o levaram à falência e à loucura.

De 1996 a 2001, Edson Luiz frequentou o templo da Universal no Centro de Belo Horizonte. Passava pelo local a caminho do trabalho e um dia, curioso, entrou para ver. Só saiu cinco anos depois, quando a mãe, a pensionista Dulce da Conceição Melo, de 65, resolveu interditá-lo na Justiça para que parasse de entregar tudo o que tinha no altar. E ajuizar ação cobrando restituição

financeira e indenização pelos danos morais.

Portador de sofrimento mental, o porteiro fazia doações de 15% do salário, além de ofertas. Segundo a família, também entregava vales-refeição e transporte. Até uma chácara foi vendida, por R$ 5.390, e o cheque teria sido levado aos pastores.

Voltei

É evidente que Cristo não assina diploma nenhum.

É evidente que a benção não é exclusiva para quem doa chave de carro pro bispo.

É evidente que o bom pastor não é o bom mendigo, que vive a pedir dinheiro.

É evidente que tirar proveito financeiro de alguém com sofrimento mental deveria ser regra de um cristão.

Se o bispo resolve caminhar pelas veredas dos vale da sombra e da morte isso não significa que todas as religiões, conseqüentemente, embarquem nessa nau furada.

É preciso diferenciar pastor de vigarista.

É preciso diferenciar bispo de ladrão.

É preciso diferenciar cristão de parlapatão.

Generalizar é coisa de idiotas.

A Universal é um caso à parte. Basta ligarmos a TV Record nas madrugadas para vermos os bispos operando, em um único culto, mais milagres do que Cristo em toda sua vida terrena. E os demônios aos milhares? Às vezes fico cá a pensar o quão criativo é o Ministério da Cultura do inferno. Vivem a enviar demônios ousados, inovadores e criativos. Cada dia é uma dança diferente. Acho que poderiam inovar um pouquinho nas vozes, sair da mesmice dos graves retumbantes e medonhos.

Voltando a Jean Meslier

Não é novidade para ninguém que as práticas recomendadas pelo o valente, em qualquer época, resultaram exatamente no oposto. O comunismo, só na União Soviética sob o stanilismo, matou 35 milhões. O deicídio, embora utópico materialmente falando (como matar aquilo que não é de carne e osso?) mas possível no campo das religiões e da fá, deu enorme contribuição aos grandes massacres de etnias na África, por exemplo. O deicídio deles é a renúncia a Deus e, por conseqüência, a escolha ao Mal. E isso não é dado empírico, é fato: onde há ausência da crença em Deus há mais intolerância.

No entanto, é freqüente assistirmos a freqüentes satanizações de fiéis por causa dos trôpegos das religiões. É preciso que fique clara uma coisa: fé é uma coisa, gente que se usa dela pra tirar proveito próprio é outra. Deus não pode ser penalizado por causa das porra-louquices de bispos que andam por aí.

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O BISPO E JEAN MESLIER

Um pensamento sobre “O BISPO E JEAN MESLIER

  1. Thiago José Vieira diz:

    Parabéns pela análise Leandro Vieira,pena que muitos ao lerem o texto acima dirão que os demônios de voz grave e medonha te usaram para redigir esta pagina do blog! “O meu povo está sendo destruído,porque lhe falta conhecimento”.OSÉIAS cap.4 vers.6.

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