A HORA DOS VAGABUNDOS

“É preciso integrar favelas à cidade”. Essa é a declaração de Raquel Rolnik em destaque na manchete do caderno Cotidiano da Folha de hoje. A opinião da valente é sobre os atos de selvageria ocorridos na noite de ontem na favela Heliópolis. A causa do certame: a morte de uma menina atingida por uma bala no pescoço durante uma troca de tiros entre GCMs de São Caetano e um trio que roubou um carro. Detalhe: até agora não se sabe se a bala saiu do revólver de um guarda ou de um dos bandidos.

Abaixo, em azul, reproduzo trechos da entrevista concedida à Folha. Farei algumas intervenções.

FOLHA – Que sintomas levaram a essa nova onda de protestos?
RAQUEL ROLNIK –
Duas coisas: uma absoluta falta de diálogo, para lidar com os conflitos que existem, e a criminalização da pobreza, como se a totalidade dos moradores da favela fosse ligada ao crime. Isso é muito perigoso. A maior parte da população que vive ali não tem nada a ver com o crime. Certamente a menina que morreu [Ana Cristina de Macedo] não tinha nada a ver com crime.

Alguns argumentos expostos por Raquel são, para ser gentil, risíveis. Para início de conversa, a “absoluta falta de diálogo” apontada por ela é um haver exclusivo de quem recorreu ao vandalismo como forma de protesto. As conseqüências não foram poucas. Foram incendiados: 3 ônibus, 2 micro-ônibus, 4 carros particulares, 2 viaturas de bombeiros e 2 da Polícia Militar. Pior: foi tudo minuciosamente planejado! Os moradores da favela foram avisados da manifestação via um bilhetinho escrito à mão. Mais: quem comparecesse ao ato ganharia uma cesta básica como recompensa.

É engraçado notar também o discurso sub-reptício sobre uma suposta e recorrente história da criminalização da pobreza. Querer aliar a morte da menina a esse argumento é canalhice. Toda generalização é burra. A perseguição policial não começou na favela, logo, afirmar que a polícia tinha pré-disposição a invadi-la é tolice.

Raquel conclui sua primeira resposta com uma obviedade sem tamanho. “Certamente a menina que morreu não tinha nada a ver com o crime”. E quem foi que disse, em algum momento, que ela teria ligação com o crime? NINGUÉM.

No Brasil, aproximadamente 50 mil pessoas morrem por ano vítimas de armas de fogo. E, pergunto: vimos, no decorrer do ano, 50 mil manifestações pedindo “justiça”? É… deve ser porque nenhum desses 50 mil era pobre. Se fosse, até avião seria incendiado…

Não estou tornando nenhuma morte menor ou maior que outra. Perda de vida não tem valor moral. O abominável é quando uma cambada de errabundos resolve tomar uma morte por causa e, em nome disso, se acha no direito de promover arruaça.

FOLHA – Mas os criminosos também estão presentes [na manifestação].
ROLNIK –
Sim, o crime organizado se instalou em locais historicamente abandonados. Mas não se pode reduzir os indivíduos que vivem lá à presença do crime. Isso faz com que a abordagem seja violenta -veja que a abordagem é basicamente a da polícia. E assim a violência volta a acontecer, como acontece em Paraisópolis, no Rio de Janeiro, em outras cidades.

Epa! Vamos com calma!

Heliópolis não é nenhum local historicamente abandonado. Basta recorrer ao arquivo de imagens do Jornal Nacional e do Jornal da Globo para vermos ruas asfaltadas e casas de alvenaria por lá. As características inerentes a uma favela, em Heliópolis, já estão praticamente extintas. Os moradores de lá já contam com transporte público, distribuição de energia, água encanada e há na região um crescente movimento comercial. As características de Heliópolis são de bairro, não de favela. Há até uma orquestra sinfônica composta com adolescentes daquela região. Não são tão coitadinhos assim.

Raquel também questiona a abordagem sempre violenta da polícia. Santo Deus! Quem foi recepcionada a fogos de artifício, bala e tijolada foi a polícia. Nem bombeiro foi poupado! Um policial militar sofreu trumatismo craniano. Mas, claro, sempre a polícia que é violenta. Esses energúmenos querem que os agentes lei apanhem quietos. Claro, só os, como é mesmo?, pobres tem direito a recorrer à violência. Uma ova!!! E mais, quem agride policial não é pobre, é criminoso mesmo.

Parece-me que quem está confundindo pobre com bandido é Raquel. E eu não gosto de bandido. Mas gosto menos ainda de quem gosta de bandido.

FOLHA – Episódios como esse aumentam o receio da classe média em relação às favelas?
ROLNIK –
As notícias sobre esses lugares são única e exclusivamente as ligadas à violência. Em uma favela, acontecem mil coisas, inclusive as ligadas à violência, mas não só elas. Isso faz com que se pense que o correto é a eliminação total das pessoas que moram lá.

Pelo amor de Deus! Quem, em algum momento, falou que a alternativa às favelas é a “eliminação das pessoas que moram lá”?.

E outra coisa: está certo que em uma favela ocorrem mil coisas. Mas quantas delas valem a atenção da imprensa? A literatura marginal e seus erros gramaticais? O funk o rap e suas letras apologéticas ao crime e ao sexo? Um coralzinho de crianças desafinadas?

Antes que me julguem de elitista: não menosprezando possíveis grandes feitos de uma pequena comunidade. Machado de Assis era filho de lavadeira e descendente de escravos alforriados, nem por isso ficou à míngua existencial. O problema é que, em geral, as periferias têm uma tendência de se determinarem culturalmente auto-suficientes. Isso a isola, de certa forma, da sociedade em geral. Expus exaustivamente esse ponto de vista em outros dois posts aqui no blog – Não estou nem aí para as maiorias e Uma cultura emergente, mas, por favor, nada de impô-la. Não vou entrar no mérito dessa questão agora. Tomaria muito tempo. Mas acessem os links que indiquei.

FOLHA – Heliópolis também é noticiada nas páginas de cultura, por conta da orquestra sinfônica e de já ter sido tema de filmes e livros.
ROLNIK –
São Paulo não é uma cidade de grandes favelas, mas de muitas e pequenas favelas. Heliópolis e Paraisópolis chamam a atenção por justamente serem grandes. Assim, atraem ONGs, movimentos sociais, produções culturais. Recebem mais investimento porque têm mais visibilidade.

Engraçado. Heliópolis e Paraisópolis recebem mais investimento mas nem por isso saem das páginas policiais protagonizando manifestações criminosas. Tem gente que não quer ONG, não quer orquestra nem quer investimento social. Parece querer cadeia mesmo.

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