O FLERTE COM O DESRESPEITO PELA VIDA

O PT de Lula não gosta da vida. Refiro-me à vida humana mesmo, àquela que cada um de nós deve-lhe a existência. O partido tem verdadeira ojeriza pela condição de seres viventes que somos. Um certo desprezo mesmo.

Marco Aurélio Garcia, assessor para assuntos especiais (?) do presidente Lula, é uma figura emblemática do PT quando o assunto é respeito à vida. Em um ato que ficou conhecido como “top-top”, Aurélio externou toda sua felicidade ao saber que o avião da TAM que atravessou Congonhas, colidiu contra um prédio da própria companhia aérea e pegou fogo, matando 199 pessoas, tinha um problema nos reversores. À época, quando o país vivia um caos aéreo, a TAM ser a responsável pelo acidente seria uma dádiva celeste; pois calaria a boca da oposição que, vejam que coisa, pedia apuração e punição dos responsáveis. Os primeiros rumores sobre o acidente davam conta de que as condições da pista do aeroporto – aí, então, entra a responsabilidade do governo – não eram as ideais para aterrissagem em tempo de chuva. Hoje, sabe-se que o mais provável foi que tenha havido erro humano, segundo o relatório da Aeronáutica.

Marco Aurélio Garcia comemorando a isenção de responsabilidade do Governo no episódio que deixou 199 mortos. As vidas que se danem. O importante: "não temos nada com isso"

Foram, repito, 199 vidas. O que isso representa? Para Marco Aurélio, nada. O que importava, de fato, é que o governo não fosse o responsável pelas mortes. Sendo a tragédia um acontecimento à parte da administração petista, pouca é a importância para o PT. Se a morte alheia não lhes faz nascer pedras nos sapatos, comemora-se mais um vitória da causa do partido. “Avisamos que a culpa não era nossa”.

 

Outro ilustre humanista do PT é Tarso Genro, Ministro da Justiça. O valente resolveu matar pela segunda vez – talvez as almas — todas as vítimas de Cesare Battisti e concedeu refúgio político ao terrorista italiano. Battisti integrou o PAC (Proletários Armados pelo Comunismo), um grupo de guerrilha urbana que aterrorizou a Itália no fim da década de 70. Quatro homicídios atribuídos ao PAC foram de responsabilidade de Battisti, que teria participado direta ou indiretamente dos episódios que culminaram em morte.

Entenderam? Tarso Genro resolveu abrigar um homem que, de acordo com as leis da Itália e do Direito Internacional, é terrorista. Mais: um homicida confesso. Battisti já admitiu ter matado gente em nome de “causa política”. Ocorre que, no período em que o assassino diz ter matado pessoas, a Itália, ao contrário do que afirmam Genro e Battisti, era, como é hoje, um país democrático, com leis consolidadas democraticamente, com governantes empossados democraticamente. Os crimes de Battisti, portanto, não podem ser considerados políticos; a não ser que a Itália, à época, vivesse uma tirania insuportável – o que não é o caso. Tanto que o PCI (Partido Comunista Italiano) só recorreu à luta armada durante o fascismo. Depois disso, enquanto existiu, lutou por vias institucionais para firmar seus ideais políticos.

Cesare Battisti, o terrorista, sendo apoiado por políticos de esquerda. Destaque para o petista Eduardo Suplicy, à direita (sem ofensa à esquerda, se é que me entendem).

Como se não fosse o suficiente Tarso Genro dar de ombros para as vidas ceifadas por Battisti e para a Justiça italiana, Lula também quer compartilhar da mesma ideologia e dar um jeito de manter o status de refugiado de Battisti. Mesmo sendo do entendimento da maioria do Supremo Tribunal Federal que os crimes cometidos por Battisti foram não-políticos, Lula já começou a mexer os pauzinhos para arranjar uma brecha jurídica e justificar a permanência de Battisti por aqui.

A democracia italiana condenou Battisti por ter derramado sangue. O Direito Internacional prevê punição ao terrorista que tirou quatro vidas em pleno regime democrático. A suprema corte brasileira interpretou que não há implicação política que baseie os crimes cometidos por Battisti e entendeu ser justo que o assassino seja extraditado e pague pelas vidas que tirou. Mas Genro e Lula não acham assim. A ideologia do desprezo pela vida lhes leva a crer que Battisti corre, vejam que coisa, risco de morte se voltar à Itália. Querem poupar o sangue de quem derramou sangue, mesmo sabendo que tal proteção é descabida, uma vez que não existe perseguição política contra o terrorista.

E hoje, Lula e o PT colocam a cereja no bolo. Nossa diplomacia resolveu abrir as portas para Ahmadinejad, o maior financiador do terrorismo no Oriente Médio e um promissor genocida.

Ahmadinejad é aquele homem bom que nega o Holocausto e mantém um plano de expansão nuclear secreto com o objetivo de eliminar Israel do mapa. Mais: financia o Hamas e o Hezbollah, ambos com a mesma pretensão de matar todos os judeus.

Ahmadinejad, o homem bom que dá de ombros a 6 milhões de judeus mortos no Holocausto; e Lula, que dá de ombros ao bom senso

Ao abrir as portas a Ahmadinejad, Lula mostra o tanto que valoriza os milhões de judeus mortos no Holocausto e o quanto considera o Estado de Israel. Nunca é demais lembrar que Lula já colocou os pés em todos os países do Oriente Médio, menos em Israel, a única democracia de fato da região.

 

Ahmadinejad é aquele homem bom que massacra com ímpar impiedade todos os opositores de seu governo. Recentemente, puniu com impressionante selvageria os manifestantes que foram às ruas do Irã protestar contra as fraudes do último pleito que o reelegeu. As fraudes, inclusive, foram reconhecidas pelo Conselho da Revolução Islâmica. As repressões contra os manifestantes resultaram em centenas de feridos e alguns mortos.

Abrem-se as portas do Planalto a Ahmadinejad, ao mesmo tempo em que se fecham as portas para o respeito e memória das vidas ceifadas em território iraniano durante cívicas manifestações.

Estender o tapete vermelho a um potencial genocida, assassino de homossexuais e mulheres, tirano e financiador de facções terroristas? O PT e Lula protagonizam mais um lamentável episódio em que o valor da vida é deixado em segundo plano. Começamos com 199 mortes, que, para eles, nenhum valor tem; se tiver, será como troféu de guerra, como um emblema: “morreram, mas não foi nossa culpa”. Passamos à concessão de refúgio a um assassino e terrorista. E acabamos com a recepção oficial a ninguém mais ninguém menos que Ahmadinejad. Auden diria que já está aberta a fenda na xícara de chá, dando acesso à terra dos mortos.

O FLERTE COM O DESRESPEITO PELA VIDA

O RELATIVISMO DO PETISMO. ISRAEL NÃO PODE POVOAR A PALESTINA, MAS O IRÃ PODE MASSACRAR A OPOSIÇÃO E MATAR HOMOSSEXUAIS

Em julho, mês em que o ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Liberman, visitou o Brasil, o secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar, chamou Liberman de fascista e racista em entrevista concedida ao jornal israelense Haaretz. À época, Pomar chegou a conclamar as esquerdas do Brasil para uma manifestação contra a visita do ministro de Israel.

Semelhante atitude de Pomar não se vê agora, quando o foco é a visita do facínora iraniano Ahmadinejad.

O que dizer, então, sobre o massacre encabeçado por Ahmadinejad à oposição iriniana, que foi às ruas protestar pacificamente contra as eleições fraudadas?Há relatórios que tratam de tortura brutal e violência sexual contra homens e mulheres na prisão. Os capangas de Ahmadinejad teriam, inclusive, matados muitos dos prisioneiros. Em alguns casos, os corpos haviam sido tão espancados que foi impossível a familiares reconhecer seus entes. Por que Pomar não chama Ahmadinejad de fascista?

E os homossexuais? No Irã, eles simplesmente não têm o direito de viver. Muitos deles foram violentados e mortos na forca depois de descobertos. Por que Pomar não entende isso como uma política fundamentalista racista?

O fato é que nem Valter Pomar e nem o PT, até agora, se posicionaram tão veementemente contra a visita de Ahmadinejad ao Brasil como se viu no episódio da visita de Liberman. A desfaçatez pró-Irã chega ao extremo de omitir os horrores que os valentes daquele país já fizeram aqui na América do Sul. Enquanto petistas atacam Israel, ninguém do PT tece uma medíocre palavra sobre a explosão da embaixada israelense na Argentina no começo dos anos 90.          29 pessoas morreram e 243 ficaram feridas. Em 1994, outro ataque em Buenos Aires, dessa vez suicida, matou 85 civis inocentes em um centro cultural judaico. Os responsáveis pelos ataques terroristas foram identificados pela Interpol, mas até hoje Ahmadinejad se recusa a entregá-los. Mais: de pirraça, Ahmadinejad nomeou um dos suspeitos, Ahmad Vahidi, como Ministro da Defesa.

Por que relembro desses fatos? Simples, porque essas desgraças só ocorreram em virtude de a Argentina ter dado uma pequena abertura ao Irã.

Lula se tornou uma benção na vida de Ahmadinejad. Graças a ele e a Celso Amorim, essa jóia rara da nossa diplomacia, o terrorista iraniano poderá começar a recuperar influência na América do Sul, contando, para isso, com o inegável apoio petista.

O RELATIVISMO DO PETISMO. ISRAEL NÃO PODE POVOAR A PALESTINA, MAS O IRÃ PODE MASSACRAR A OPOSIÇÃO E MATAR HOMOSSEXUAIS

A BARBÁRIE PATROCINADA PELO DINHEIRO DO CONTRIBUINTE — OU MELHOR: O PROUNI

Tão grave quanto o fato de uma estudante ser massacrada moralmente na Uniban (ler post abaixo), é saber que há por trás de tudo isso um patrocínio oficial que se utiliza de recursos públicos a fim de perfazer uma política populista, com viés para o famoso “jogar para a platéia”. Refiro-me ao Prouni, programa Universidade para Todos, que, sob a ótica de Lula, é um dos maiores projetos do País no que se refere à garantia de acesso dos pobres à universidade.

Há sempre os senhores da lógica pró-ativos para afirmar que, em um País em grande desenvolvimento como o Brasil, ter mais gente formada é essencial para o mercado de trabalho. Concordo! Desde que essa formação não deficitária. Muitas faculdades, hoje, são meras agências de conquista de diploma. Formam pessoas, mas estas não conseguem se inserir no mercado e na área em que se formaram. Alguns perguntam se não é melhor um garçom formado em administração a um sem formação; se não é preferível um motoboy com diploma de direito do que um sem diploma algum; se não é mais positivo um taxista historiador a um taxista sem formação. Ora, é evidente que diploma, para qualquer um, é um agregador de competência positivo. Mas tenho uma pergunta: porque eu, contribuinte, tenho que financiar o curso de história do taxista, por exemplo? Toda vez que necessito de um táxi, nunca me preocupo em saber a atividade acadêmica do motorista. Sabendo me deixar no destino, já está bom demais.

O compromisso com a qualidade não tem sido a bandeira de muitas “unis” que escancaram suas portas a milhões de estudantes. E o pior: contam com o Prouni do Lula pra isso. Leia o que publicou o jornal O Estado de S.Paulo no dia 20 de janeiro deste ano.

Às vésperas de terminar o quinto processo de seleção do Programa Universidade para Todos (ProUni), o Ministério da Educação ainda não conseguiu usar seu sistema de avaliação para controlar a qualidade das vagas oferecidas gratuitamente em instituições de ensino superior particulares para alunos de baixa renda.

Cruzamento feito pelo Estado com os dados do Índice Geral de Cursos (IGC) – anunciado pela primeira vez em setembro de 2008 e que permite comparar o desempenho das instituições – mostra que 22,9% das que oferecem vagas no ProUni têm desempenho 1 e 2, o que pode ser traduzido como cursos com baixa ou baixíssima qualidade. Ou seja, de 991 instituições no programa, 227 tiveram desempenho baixo. Os conceitos do IGC variam de 1 a 5.

Criado em 2004, o ProUni prevê que as instituições, para cumprirem a legislação e manterem seus certificados de filantropia e isenção fiscal, precisam dar bolsas de estudos integrais a alunos de baixa renda. Há também instituições que oferecem bolsas (integrais e parciais) e obtêm renúncia fiscal. O total das isenções alcança atualmente algo em torno de R$ 150 milhões ao ano.

Os conceitos baixos se concentram nas instituições classificadas como faculdades isoladas – aquelas que têm poucos cursos, normalmente em áreas semelhantes. Dessas, são 208 faculdades com índice 2 e duas com IGC 1. Elas representam 24,6% das 853 faculdades e institutos que estão hoje no ProUni. Mas, se forem retiradas da conta as 332 instituições que ainda não têm avaliações suficientes para fazerem parte do IGC, esse índice sobe para 40%. Entre os centros universitários, 11 estão com índice 2. Nas universidades, apenas seis.

Comecei meu texto fazendo uma ligação do episódio Geysi às verbas públicas destinadas do Prouni. Por quê? Simples: a Uniban é uma das instituições de ensino com as portas abertas a estudantes do programa. Como vimos, naquela universidade, universidade é o que não há. Mais nada disso impede de a tal faculdade propagar seus feitos em inserções publicitárias. Em recente propaganda na TV, vi que a Uniban oferece a seus alunos a chance de cursar a graduação e a pós-graduação simultaneamente. Sim, a Uniban é única coisa no mundo que consegue colocar o “pós” no “durante”. O conceito de tempo foi pro beleléu! E repito: isso tudo com o patrocínio oficial, com rios de dinheiro público financiando cursos de péssima qualidade.

De certa forma, o abuso moral pelo qual passou a estudante de mini-saia só ocorreu graças aos recursos públicos destinados ao Prouni. Não estou enviesando os bolsistas com potenciais estupradores e agressores; mas envieso, sim, o programa com potenciais agressores e estupradores. Não há compromisso em bem distribuir as verbas do programa. Antes, havia a falta de qualidade no ensino, hoje, vemos que há falta de caráter mesmo. No tribunal da Uniban, optou-se por penalizar a vítima. É como se uma vítima do crime de estupro pudesse ser condenada pelo o fato de trajar roupas curtas e atiçar o estuprador, coitado.

A condescendência da reitoria da Uniban com a barbárie veio à tona hoje, em entrevista de Décio Leoncini Machado, assessor jurídico da instituição, à Folha de S.Paulo:

FOLHA – Por que a decisão?

DÉCIO LENCIONI MACHADO Por meio dos depoimentos dos alunos, professores, funcionários e mesmo dela, constatou-se que a postura dela não era adequada há algum tempo. O foco não é o vestido. Tem menina que usa roupas até mais curtas. O foco é a postura, os gestos, o jeito de ela se portar. Ela tinha atitudes insinuantes.

FOLHA – Como assim?

MACHADO Ela extrapolava, rebolando na rampa, usando roupas que os colegas pudessem verificar suas partes íntimas. Isso tudo foi dito em vários depoimentos e culminou no que ocorreu no dia 22 de outubro. Foi o estopim de uma postura recorrente da aluna.

FOLHA – Por que o anúncio? Não acham que estão expondo a aluna?

MACHADO A exposição dela vem ocorrendo desde a semana seguinte a 22 de outubro. Ela se utilizou de todos os veículos de comunicação para divulgar [o que aconteceu] e vem declarando que, inclusive, tem interesse em ser atriz. Estamos querendo usar os mesmos veículos, não para expô-la, porque exposta ela já está, mas porque tenho compromisso com 60 mil alunos. Recebemos 4.000 e-mails de alunos, pais, pessoas da comunidade, se queixando da exposição da instituição, em especial do curso de turismo, porque as meninas estavam sendo chamadas de “putas”

Que valor, que respeito, que consideração tem esse senhor para com o corpo? – não somente o feminino, mas o masculino também. Partindo do ponto-de-vista de Machado, chegaremos a uma conclusão assombrosa: o fato de a pessoa vestir uma roupa ousada e/ou caminhar se utilizando de trejeitos sensuais são comportamentos que, pasmem, dariam direito a outrem para violar-lhe o corpo. Roupas curtas e provocações picantes não são recomendadas em ambientes universitários, mas também não são fatores que garantem a o direito de hostilização e de estupro físico e moral a ninguém. Andar de roupa curta é uma liberdade que eu tenho; estuprar, não. Andar por aí me insinuando sexualmente aos outros é uma liberdade que, embora restrita, tenho; agredir, não. Já disse isso antes e repito: se o comportamento da jovem não condizia com as normas da faculdade, que a solução para o caso fosse amparada nos princípios e na ética inerentes à condição humana.

Ou Lula revê os critérios do Prouni ou continuaremos dando dinheiro a instituições de fundo de quintal. O que não faltam são universidades, verdadeiras espeluncas, se transformando simplesmente em empresas fornecedoras de diploma. A Unip – outra faculdade que aceita bolsistas do Prouni e vive se auto-proclamando como a maior universidade privada do País e com o “maior número de computadores em rede” (como eles mesmo fazem questão de ressaltar) – chegou ao cúmulo de oferecer pen drives a alunos que falassem bem da instituição em questionário do MEC (veja aqui). A Unip, até onde sei, nunca foi protagonista de episódios tão condenáveis quanto o da Uniban; mas ao oferecer presentes em troca de elogios, revela um triste aspecto de nosso tempo: a banalização da universidade.

É preciso acabar com essa história imbecil de “democratização da universidade”. Entupir as salas de aula de gente não é o caminho para que o sujeito seja alguém na vida. Isso porque as faculdades, no geral, perderam a capacidade de transmitir valores. Que espécie de contribuição moral a Uniban dá aos seus alunos ao jogar a reputação de Geysi na lata do lixo e, aos agressores, dar apenas uma reles suspensão? “Ah, mas a própria estudante optou por jogar sua reputação na lata do lixo usando aquela roupa”. E daí? O indivíduo tem o direito de fazer o que quiser com sua reputação, o que não quer dizer que a faculdade possa fazer o que bem entender com a reputação alheia.

Vamos ver que medidas o Ministério da Educação irá tomar contra a Uniban. Provavelmente, nada. O dinheiro do contribuinte continuará a patrocinar cenas de horrores, de intolerância e de barbárie.

A BARBÁRIE PATROCINADA PELO DINHEIRO DO CONTRIBUINTE — OU MELHOR: O PROUNI

A UNIVERSIDADE DA BARBÁRIE

Dias depois do ocorrido do episódio mostrado no vídeo acima, a diretoria da Uniban declarou que não havia conseguido identificar os responsáveis pelo o ato de intolerância que tomou a universidade. O motivo da fereza já é sabido: a mini-saia de Geysi.

Pois bem. Passadas duas semanas das afirmações da reitoria sobre a impossibilidade de encontrar os animais que estupraram a moral de Geysi, a Uniban optou por expulsá-la. Em anúncio publicitário que deverá circular nos jornais de hoje (escrevo este post às 4h36 da manhã; portanto, sem ter aberto um jornal, ainda), a universidade informa que, após uma sindicância interna, foi constatado que a aluna teve uma postura incompatível com o ambiente universitário, freqüentando as aulas com roupas inadequadas. Ainda segundo a nota, Geysi provocou os demais ao fazer um percurso maior que o habitual, desrespeitando princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade.

Quando achamos que a boçalidade acabou, vem mais. A Uniban também declara na nota que a atitude provocativa da aluna foi o fator responsável pelo desencadeamento da reação coletiva de, pasmem, “defesa do ambiente escolar”. Eis aí a prova cabal de que chegamos à barbárie! O côro que bradava “puta” em toda a Uniban, as pessoas que se enfileiravam na porta da sala de aula de Geysi afim de linchá-la ou estuprá-la, sei lá; o povo que a humilhava, ignorando, inclusive, o profundo abalo emocional da estudante, a turba que , à semelhança da intolerância do Médio Oriente, buscava alguma forma de punir Geysi, obrigando, inclusive, o chamado de força policial para proteger a jovem; enfim, esse conjunto de situações que em qualquer outro lugar do mundo configuraria no mínimo um crime contra a honra e dignidade da pessoa humana, foi interpretado pela direção da Uniban como uma ação de “defesa do ambiente escolar”. Pelo o tamanho da bobagem, vejo-me obrigado a crer que esses diretores da Uniban são formados pela Uniban.

A faculdade também afirmou na nota que identificou alguns dos responsáveis pela bestialidade geral e suspendeu-os. Mais discrepância, impossível. Qualquer cidadão são de juízo saberia que se não fosse a presença da PM, Geysi teria sido agredida justamente pelos alunos que deram início à confusão. Estes, a Uniban suspendeu; já Geysi, a Uniban carimbou-lhe uma bota nos fundilhos.

Os bárbaros unibanenses acham podem justificar o injustificável. Na terça-feira passada, data prevista para que Geysi voltasse às aulas, o magote de gente voltou a se aglomerar na entrada da Uniban para “recepcionar a estudante”. Evidentemente, a recepção não seria de beijos a abraços. Uma das alunas declarou: “Ela provocou. Se ela apenas sentasse na cadeira, isso não ia acontecer. Por que justamente nesse dia ela subiu pela rampa?”. Uau! Na Uniban, subir a rampa de roupa curta pode implicar linchamento, estupro e, se bobear, ser queimado em praça [de alimentação] pública.

Se a garota estava vestida inadequadamente para o ambiente, que se busquem soluções amparadas na ética, nos valores inerentes à dignidade da pessoa humana para resolver a falta de decoro da jovem. Há os que defendem a tese de que a estudante queria mesmo era provocar, chamar a atenção. E daí? No Carnaval, nosso festival de mostra de glúteos de todos os tipos, o que não faltam são moças querendo chamar a atenção. Queria saber se esses valentes da Uniban também reagem de semelhante modo em uma quadra de samba.

A universidade, local de discussão de idéias, crescimento cultural e, inegavelmente, moral também, não mais cumpre esse papel. Pelo menos não na Uniban. O conceito regente de “universidade”, que vem de “universal”—justamente a tolerância com os desiguais, o respeito com o próximo, a discussão de idéias – já não é mais aplicado. Opta-se pela selvageria, pela brutalidade em vez dos bons costumes para se resolver um entrave.

“Você está defendendo a moça exibicionista, que foi à faculdade pra provocar mesmo?”. Não, não estou! Até porque não sei até que ponto o tal exibicionismo é verídico. Estou defendo o conceito de universidade – aquela, que não se deixa perder os valores em detrimento de impulsos da carne, que não se transgride por vontades de turbas, que não se deixa perder o caráter por causa de uma mini-saia.

A UNIVERSIDADE DA BARBÁRIE