A UNIVERSIDADE DA BARBÁRIE

Dias depois do ocorrido do episódio mostrado no vídeo acima, a diretoria da Uniban declarou que não havia conseguido identificar os responsáveis pelo o ato de intolerância que tomou a universidade. O motivo da fereza já é sabido: a mini-saia de Geysi.

Pois bem. Passadas duas semanas das afirmações da reitoria sobre a impossibilidade de encontrar os animais que estupraram a moral de Geysi, a Uniban optou por expulsá-la. Em anúncio publicitário que deverá circular nos jornais de hoje (escrevo este post às 4h36 da manhã; portanto, sem ter aberto um jornal, ainda), a universidade informa que, após uma sindicância interna, foi constatado que a aluna teve uma postura incompatível com o ambiente universitário, freqüentando as aulas com roupas inadequadas. Ainda segundo a nota, Geysi provocou os demais ao fazer um percurso maior que o habitual, desrespeitando princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade.

Quando achamos que a boçalidade acabou, vem mais. A Uniban também declara na nota que a atitude provocativa da aluna foi o fator responsável pelo desencadeamento da reação coletiva de, pasmem, “defesa do ambiente escolar”. Eis aí a prova cabal de que chegamos à barbárie! O côro que bradava “puta” em toda a Uniban, as pessoas que se enfileiravam na porta da sala de aula de Geysi afim de linchá-la ou estuprá-la, sei lá; o povo que a humilhava, ignorando, inclusive, o profundo abalo emocional da estudante, a turba que , à semelhança da intolerância do Médio Oriente, buscava alguma forma de punir Geysi, obrigando, inclusive, o chamado de força policial para proteger a jovem; enfim, esse conjunto de situações que em qualquer outro lugar do mundo configuraria no mínimo um crime contra a honra e dignidade da pessoa humana, foi interpretado pela direção da Uniban como uma ação de “defesa do ambiente escolar”. Pelo o tamanho da bobagem, vejo-me obrigado a crer que esses diretores da Uniban são formados pela Uniban.

A faculdade também afirmou na nota que identificou alguns dos responsáveis pela bestialidade geral e suspendeu-os. Mais discrepância, impossível. Qualquer cidadão são de juízo saberia que se não fosse a presença da PM, Geysi teria sido agredida justamente pelos alunos que deram início à confusão. Estes, a Uniban suspendeu; já Geysi, a Uniban carimbou-lhe uma bota nos fundilhos.

Os bárbaros unibanenses acham podem justificar o injustificável. Na terça-feira passada, data prevista para que Geysi voltasse às aulas, o magote de gente voltou a se aglomerar na entrada da Uniban para “recepcionar a estudante”. Evidentemente, a recepção não seria de beijos a abraços. Uma das alunas declarou: “Ela provocou. Se ela apenas sentasse na cadeira, isso não ia acontecer. Por que justamente nesse dia ela subiu pela rampa?”. Uau! Na Uniban, subir a rampa de roupa curta pode implicar linchamento, estupro e, se bobear, ser queimado em praça [de alimentação] pública.

Se a garota estava vestida inadequadamente para o ambiente, que se busquem soluções amparadas na ética, nos valores inerentes à dignidade da pessoa humana para resolver a falta de decoro da jovem. Há os que defendem a tese de que a estudante queria mesmo era provocar, chamar a atenção. E daí? No Carnaval, nosso festival de mostra de glúteos de todos os tipos, o que não faltam são moças querendo chamar a atenção. Queria saber se esses valentes da Uniban também reagem de semelhante modo em uma quadra de samba.

A universidade, local de discussão de idéias, crescimento cultural e, inegavelmente, moral também, não mais cumpre esse papel. Pelo menos não na Uniban. O conceito regente de “universidade”, que vem de “universal”—justamente a tolerância com os desiguais, o respeito com o próximo, a discussão de idéias – já não é mais aplicado. Opta-se pela selvageria, pela brutalidade em vez dos bons costumes para se resolver um entrave.

“Você está defendendo a moça exibicionista, que foi à faculdade pra provocar mesmo?”. Não, não estou! Até porque não sei até que ponto o tal exibicionismo é verídico. Estou defendo o conceito de universidade – aquela, que não se deixa perder os valores em detrimento de impulsos da carne, que não se transgride por vontades de turbas, que não se deixa perder o caráter por causa de uma mini-saia.

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