A BARBÁRIE PATROCINADA PELO DINHEIRO DO CONTRIBUINTE — OU MELHOR: O PROUNI

Tão grave quanto o fato de uma estudante ser massacrada moralmente na Uniban (ler post abaixo), é saber que há por trás de tudo isso um patrocínio oficial que se utiliza de recursos públicos a fim de perfazer uma política populista, com viés para o famoso “jogar para a platéia”. Refiro-me ao Prouni, programa Universidade para Todos, que, sob a ótica de Lula, é um dos maiores projetos do País no que se refere à garantia de acesso dos pobres à universidade.

Há sempre os senhores da lógica pró-ativos para afirmar que, em um País em grande desenvolvimento como o Brasil, ter mais gente formada é essencial para o mercado de trabalho. Concordo! Desde que essa formação não deficitária. Muitas faculdades, hoje, são meras agências de conquista de diploma. Formam pessoas, mas estas não conseguem se inserir no mercado e na área em que se formaram. Alguns perguntam se não é melhor um garçom formado em administração a um sem formação; se não é preferível um motoboy com diploma de direito do que um sem diploma algum; se não é mais positivo um taxista historiador a um taxista sem formação. Ora, é evidente que diploma, para qualquer um, é um agregador de competência positivo. Mas tenho uma pergunta: porque eu, contribuinte, tenho que financiar o curso de história do taxista, por exemplo? Toda vez que necessito de um táxi, nunca me preocupo em saber a atividade acadêmica do motorista. Sabendo me deixar no destino, já está bom demais.

O compromisso com a qualidade não tem sido a bandeira de muitas “unis” que escancaram suas portas a milhões de estudantes. E o pior: contam com o Prouni do Lula pra isso. Leia o que publicou o jornal O Estado de S.Paulo no dia 20 de janeiro deste ano.

Às vésperas de terminar o quinto processo de seleção do Programa Universidade para Todos (ProUni), o Ministério da Educação ainda não conseguiu usar seu sistema de avaliação para controlar a qualidade das vagas oferecidas gratuitamente em instituições de ensino superior particulares para alunos de baixa renda.

Cruzamento feito pelo Estado com os dados do Índice Geral de Cursos (IGC) – anunciado pela primeira vez em setembro de 2008 e que permite comparar o desempenho das instituições – mostra que 22,9% das que oferecem vagas no ProUni têm desempenho 1 e 2, o que pode ser traduzido como cursos com baixa ou baixíssima qualidade. Ou seja, de 991 instituições no programa, 227 tiveram desempenho baixo. Os conceitos do IGC variam de 1 a 5.

Criado em 2004, o ProUni prevê que as instituições, para cumprirem a legislação e manterem seus certificados de filantropia e isenção fiscal, precisam dar bolsas de estudos integrais a alunos de baixa renda. Há também instituições que oferecem bolsas (integrais e parciais) e obtêm renúncia fiscal. O total das isenções alcança atualmente algo em torno de R$ 150 milhões ao ano.

Os conceitos baixos se concentram nas instituições classificadas como faculdades isoladas – aquelas que têm poucos cursos, normalmente em áreas semelhantes. Dessas, são 208 faculdades com índice 2 e duas com IGC 1. Elas representam 24,6% das 853 faculdades e institutos que estão hoje no ProUni. Mas, se forem retiradas da conta as 332 instituições que ainda não têm avaliações suficientes para fazerem parte do IGC, esse índice sobe para 40%. Entre os centros universitários, 11 estão com índice 2. Nas universidades, apenas seis.

Comecei meu texto fazendo uma ligação do episódio Geysi às verbas públicas destinadas do Prouni. Por quê? Simples: a Uniban é uma das instituições de ensino com as portas abertas a estudantes do programa. Como vimos, naquela universidade, universidade é o que não há. Mais nada disso impede de a tal faculdade propagar seus feitos em inserções publicitárias. Em recente propaganda na TV, vi que a Uniban oferece a seus alunos a chance de cursar a graduação e a pós-graduação simultaneamente. Sim, a Uniban é única coisa no mundo que consegue colocar o “pós” no “durante”. O conceito de tempo foi pro beleléu! E repito: isso tudo com o patrocínio oficial, com rios de dinheiro público financiando cursos de péssima qualidade.

De certa forma, o abuso moral pelo qual passou a estudante de mini-saia só ocorreu graças aos recursos públicos destinados ao Prouni. Não estou enviesando os bolsistas com potenciais estupradores e agressores; mas envieso, sim, o programa com potenciais agressores e estupradores. Não há compromisso em bem distribuir as verbas do programa. Antes, havia a falta de qualidade no ensino, hoje, vemos que há falta de caráter mesmo. No tribunal da Uniban, optou-se por penalizar a vítima. É como se uma vítima do crime de estupro pudesse ser condenada pelo o fato de trajar roupas curtas e atiçar o estuprador, coitado.

A condescendência da reitoria da Uniban com a barbárie veio à tona hoje, em entrevista de Décio Leoncini Machado, assessor jurídico da instituição, à Folha de S.Paulo:

FOLHA – Por que a decisão?

DÉCIO LENCIONI MACHADO Por meio dos depoimentos dos alunos, professores, funcionários e mesmo dela, constatou-se que a postura dela não era adequada há algum tempo. O foco não é o vestido. Tem menina que usa roupas até mais curtas. O foco é a postura, os gestos, o jeito de ela se portar. Ela tinha atitudes insinuantes.

FOLHA – Como assim?

MACHADO Ela extrapolava, rebolando na rampa, usando roupas que os colegas pudessem verificar suas partes íntimas. Isso tudo foi dito em vários depoimentos e culminou no que ocorreu no dia 22 de outubro. Foi o estopim de uma postura recorrente da aluna.

FOLHA – Por que o anúncio? Não acham que estão expondo a aluna?

MACHADO A exposição dela vem ocorrendo desde a semana seguinte a 22 de outubro. Ela se utilizou de todos os veículos de comunicação para divulgar [o que aconteceu] e vem declarando que, inclusive, tem interesse em ser atriz. Estamos querendo usar os mesmos veículos, não para expô-la, porque exposta ela já está, mas porque tenho compromisso com 60 mil alunos. Recebemos 4.000 e-mails de alunos, pais, pessoas da comunidade, se queixando da exposição da instituição, em especial do curso de turismo, porque as meninas estavam sendo chamadas de “putas”

Que valor, que respeito, que consideração tem esse senhor para com o corpo? – não somente o feminino, mas o masculino também. Partindo do ponto-de-vista de Machado, chegaremos a uma conclusão assombrosa: o fato de a pessoa vestir uma roupa ousada e/ou caminhar se utilizando de trejeitos sensuais são comportamentos que, pasmem, dariam direito a outrem para violar-lhe o corpo. Roupas curtas e provocações picantes não são recomendadas em ambientes universitários, mas também não são fatores que garantem a o direito de hostilização e de estupro físico e moral a ninguém. Andar de roupa curta é uma liberdade que eu tenho; estuprar, não. Andar por aí me insinuando sexualmente aos outros é uma liberdade que, embora restrita, tenho; agredir, não. Já disse isso antes e repito: se o comportamento da jovem não condizia com as normas da faculdade, que a solução para o caso fosse amparada nos princípios e na ética inerentes à condição humana.

Ou Lula revê os critérios do Prouni ou continuaremos dando dinheiro a instituições de fundo de quintal. O que não faltam são universidades, verdadeiras espeluncas, se transformando simplesmente em empresas fornecedoras de diploma. A Unip – outra faculdade que aceita bolsistas do Prouni e vive se auto-proclamando como a maior universidade privada do País e com o “maior número de computadores em rede” (como eles mesmo fazem questão de ressaltar) – chegou ao cúmulo de oferecer pen drives a alunos que falassem bem da instituição em questionário do MEC (veja aqui). A Unip, até onde sei, nunca foi protagonista de episódios tão condenáveis quanto o da Uniban; mas ao oferecer presentes em troca de elogios, revela um triste aspecto de nosso tempo: a banalização da universidade.

É preciso acabar com essa história imbecil de “democratização da universidade”. Entupir as salas de aula de gente não é o caminho para que o sujeito seja alguém na vida. Isso porque as faculdades, no geral, perderam a capacidade de transmitir valores. Que espécie de contribuição moral a Uniban dá aos seus alunos ao jogar a reputação de Geysi na lata do lixo e, aos agressores, dar apenas uma reles suspensão? “Ah, mas a própria estudante optou por jogar sua reputação na lata do lixo usando aquela roupa”. E daí? O indivíduo tem o direito de fazer o que quiser com sua reputação, o que não quer dizer que a faculdade possa fazer o que bem entender com a reputação alheia.

Vamos ver que medidas o Ministério da Educação irá tomar contra a Uniban. Provavelmente, nada. O dinheiro do contribuinte continuará a patrocinar cenas de horrores, de intolerância e de barbárie.

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A BARBÁRIE PATROCINADA PELO DINHEIRO DO CONTRIBUINTE — OU MELHOR: O PROUNI

5 pensamentos sobre “A BARBÁRIE PATROCINADA PELO DINHEIRO DO CONTRIBUINTE — OU MELHOR: O PROUNI

  1. hahahaha diz:

    Incrível como ainda existem pessoas que defendem os tempos do coronelismo, onde só os ricos tinham direito de se sobressair. Você com certeza deve ter tido uma vidinha muito fácil, se graduou às custas do papai, e não gosta de ver a classe mais baixa chegando à faculdade. Acorda para a realidade!!! É claro que o ProUni ainda tem muitas coisas a serem melhoradas, mas o fato não é a universidade ter conceito 1, 2, 3…10, e sim as pessoas carentes terem direito de se formar, à despeito de gente invejosa como você! Viva a democracia!!!

  2. silvia calçada diz:

    Que se espera de um país, onde o ministro da educação, metido a marxista, estudou na USP, de onde também tirou mestrado e doutorado, entretanto ao público, sonega vagas, proibindo a matrícula em duas universidades ao mesmo tempo, e faz a reforma social tirando dos pobres para enriquecer donos de faculdade, que agora já vendem ações.
    Educação virou bem de consumo. É produzida em fábricas, em larga escala. O ProUni democratizou a cara de pau.

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