UMA MENSAGEM [NADA CONVENCIONAL] DE FIM DE ANO

Nada como o fim de ano para aflorar a estupidez da maioria. Chega essa época, o otimismo de todos parece se multiplicar e tornar mais imbecil cada um de nós.

Admito que adoraria ter esse excesso de fé que vejo em outras pessoas. Ter essa crença pueril de que uma simples virada de ano é capaz de mudar tudo o que está errado, reatar laços familiares e sociais rompidos pelas circunstâncias, conquistar o cume dos sucessos profissional, acadêmico e pessoal, cumprir à risca aquele regime que se inicia em todas as segundas-feiras, aperfeiçoar qualidades, e assim vai…

Passa-se o ano inteiro sofrendo desilusões e atravessando estradas espinhosas. Aos trancos e barrancos, leva-se a vida sempre crente em um amanhã melhor – que, às vezes, não vem. Mas no fim do ano, sei lá o porquê, esse amanhã melhor parece ser o frêmito de um destino inescapável a todos nós. Que utopia! Se a simples passagem das vinte e três horas e cinqüenta e nove minutos para meia-noite fosse a chave para um novo rumo ao êxito, teríamos uma constante: cada novo dia, uma nova conquista. “Ah, mas só o fato de chegar o fim do dia com vida já é uma conquista”, dirão os mais atrevidos a sábios. Néscios! Tenho verdadeira ojeriza a pessoas que se acham superiores o suficiente para querer dar lições morais de vida e sempre vomitam seus palavrórios supérfluos como se suas sabedorias fossem o supra-sumo da filosofia. Chegar ao fim do dia com vida não é conquista nenhuma. Isso porque não foi facultado ao homem o poder de decidir quando termina e começa a vida.

Drummond, em Cortar o Tempo, afirma que:

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.

Sensacional, como tudo é em Drummond. O pulo-do-gato, no entanto, está no excesso de esperança que, como vimos, funciona no limite da exaustão. Sujeitos esperançosos demais alimentam dentro de si uma quimera particular, que a ninguém é conferido o direito de usurpar-lhes. Mas por que essa esperança tem que se manifestar tão descaradamente no fim de ano? Se todo Ano-Novo fosse um recomeço, teríamos de considerar também que a oportunidade de tentar tudo de novo deve ser um direito a todos, inclusive a criminosos detidos em presídios de segurança máxima. E se a esperança é uma fantasia inerente à condição humana, então por que não se abrem as portas das cadeias e creiamos todos que os criminosos aproveitarão o novo ano e tornar-se-ão pessoas melhores? Afinal, todos têm direito ao Ano-Novo e a todas as patifarias relacionadas a isso.

Sou eu um pessimista? Não, não sou. Pelo contrário: sou um otimista com excelentes doses de realismo. As minhas esperanças se renovam a cada manhã. Não espero o fim do ano pra isso.

Desejo a todos os leitores de blog um Feliz Ano-Novo. Parafraseando Antônio Carvalho: que 2010 seja melhor que 2009 e pior que 2011.

Fraternalmente,

Leandro Vieira

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