ABAIXO O PATRIOTISMO BOCÓ

Não costumo falar de futebol por um simples motivo: não me causa tanto frêmito como causa na maioria. É-me um mundo tão estranho quanto as composições do argentino Ezequiel Viñao. Recentemente estive em Buenos Aires e tive a oportunidade de assistir à orquestra filarmônica portenha na semana de reinauguração do teatro Colón. El sueño de Cristóbal foi a primeira obra executada. Oh troço horrendo! Sem musicalidade. Sem forma. Sem sentido. Sem tonação perceptível. Mahler – meu compositor preferido do século XX – era conhecido por conseguir romper os limites da tonalidade. Nesse sentido, é insuperável, sem dúvida. Mas, sem sopesar, Viñao deu um pé na bunda dos sustenidos e bemóis. Não entendi patavina nenhuma do objetivo – se é que há algum – de sua composição, tampouco compreendi o que ele quis dizer com aquele misto de irracionalidade musical e mau gosto nas construções sonoras. (Onde já se viu colocar um solo de clarinete enquanto trompetes tocam em fortíssimo?). Assim é o futebol pra mim: conheço as regras, sei o que cada jogador tem que fazer em campo dentro de suas posições, mas não vejo tanta beleza no fato de 22 pessoas correrem atrás de uma bola. Questão de gosto, apenas.

Época de Copa do Mundo é um inferno. Compulsoriamente, viramos todos brameiros; pois, segundo a propaganda da TV, se assim não o fizermos, não faremos parte dos “190 milhões que vão dividir a bola” com o adversário. Neste ano, em particular, me fizeram o favor de inventar a vuvuzela! Os anjos do Apocalipse tocam trombetas; os aspones de Satanás tocam vuvuzela. E a imprensa tratou esse instrumento como se fosse o supra-sumo da capacidade inventiva do homem do século XXI. Os jornalistas acharam esse troço de plástico uma graça, um achado. As crianças de minha rua não paravam de soprar essa merda durante os jogos da seleção brasileira.

E dá-lhe imagens da Bahia recheada com as partículas do som vindo de tambores, atabaques, pandeiros e de qualquer outra coisa em forma circular cuja cobertura seja de couro; imagens dos paulistanos fazendo embaixadinha com laranja no Vale do Anhangabaú (sim, há quem veja nisso uma espécie de sobrenaturalidade); dos cariocas sacolejando as nádegas ao som da bateria de uma escola de samba… Mais: e as famosas poesias da bola? “A jabulani lá, pedindo pra ser chutada”. “Quem será o artilheiro? Que seja o mais Fabuloso”. “Luis Fabiano olhou pro alto, respirou, pensou…” Ah, faça-me um favor! É como se vivêssemos no melhor dos mundos.

Se todo esse patriotismo fosse visto à mesma proporção em época de eleições, talvez a sociedade não precisasse ter chegado ao ponto de recolher 1,6 milhões de assinaturas em prol do projeto Ficha Limpa. Brasileiro exige técnica da seleção, mas não exige mais rigor no gasto público, mais qualidade na Educação… Há quem vá à África para assistir aos jogos e, nos casos de derrota, não titubeia em ir protestar em frente ao hotel onde se hospeda a delegação. Fico cá pensando como seria se essa patrulha toda também estivesse presente em pelo menos 10% das viagens internacionais de Lula. Ele e Celso Amorim sempre nos envergonham em discursos oficiais Brasil afora. São merecedores de protestos também.

Em Copa do Mundo, sou italiano. Minha avó era italiana legítima. Desde 1994, sou azurra. Com a eliminação da seleção italiana, logicamente, passei a torcer pelo Brasil, mas não feito um louco desvairado. Torcer por algo que eu sei que não mudará minha vida – não me deixará nem mais rico nem mais pobre – não se transforma em ufanismo desmedido. É apenas aquele desejo de compartilhar uma vitória que, simbolicamente, é de todos. Mas futebol, na minha escala de importância, ainda está dentre as últimas prioridades. Na Copa de 2006, o jogador francês Thierry Henry atribuiu à técnica do time do Brasil o fato de que, enquanto crianças, os brasileiros ganham bola dos pais; já na França, ganham livros. Houve quem lhe desse a pecha de preconceituoso. Nada disso! Isso se chama tão-somente dura realidade.

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