SOBRE CERTO JORNALISMO POLICIAL

No sábado à noite, o Globo News Painel recebeu a socióloga Julita Lembruger para debater o… caso Bruno. No auge da discussão, Lembruger afirmou que a imprensa não dá muita atenção aos casos de violência no País. “Se o Brasil estivesse ainda na Copa, duvido que este caso ainda continuasse em evidência”, disse. Um dia depois, no domingo, a ombudsman da Folha de S.Paulo criticou o jornal pelo o fato de a cobertura do veículo ter sido, assim, digamos, morna. Para a ombudsman, a Folha não entrou na história como deveria; talvez por medo de ser tachada daquele tipo de imprensa  “espreme que sai sangue”.

É evidente que a crítica da ombudsman da Folha não se deu em virtude da opinião da socióloga. Mas ambas as opiniões merecem ser submetidas a, como diria Marx – aquele pançudo cheio de hemorróidas – uma leve torção.

A Rede Record de televisão dedica 90% de seu conteúdo jornalístico a casos policiais; às vezes, beirando a trivialidade. Tudo na Record é notícia, desde o roubo de uma espiga de milho na cidade de Erexim até a depredação de um banco de praça em Muzambinho. E para qualquer uma dessas ocorrências, sempre ele, Percival de Souza, estará lá para nos brindar com sua inigualável visão de mundo. Ele opina sobre tudo! É capaz de fazer um tratado sobre qualquer besteira.

O cachorro da vizinha fez xixi no portão da outrem em Mococó dos Pinhais? Dá-lhe Percival.
Um potinho de geléia vencida foi vendida em Brututu de Monte Roxo? Dá-lhe Percival.
Um ladrão levou R$ 1,99 do caixa de uma loja em Pururuca do Oeste? Dá-lhe Percival.
Um homem deu uma travesseirada na esposa em Pituca Grande? Dá-lhe Percival.
Uma enfermeira não deu bom dia a uma velhinha em Jeba de Caixias ? Dá-lhe Percival.
Adiante.

No domingo pela manhã, a Record dedicou 100% de sua programação para a cobertura do caso Bruno. É bem do perfil da emissora. Não só lá, mas programas policiais de outras emissoras também se debruçaram na história do goleiro e fizeram, cada qual à sua maneira, um picadeiro para a exibição do caso. E como se não bastasse a exaustão provocada só pelo o fato em si, as narrativas dos apresentadores também conferem ao ramerrão uma sinopse do horror. Um deles fez questão de enfatizar a carne da vítima teria sido dada a cães, e complementou: “imagine desossando  a moça: a quantidade de sangue que deve ter sido derramada”. E o outro convidado completou: “mas e a cabeça da menina? Onde está? Cachorro não comeria a cabeça!”

Nunca gostei de programas policiais. Essa história de transformar desgraça alheia em jornalismo de espetáculo não me apetece nem um pouco. Trabalhei por algum tempo na TV Bandeirantes de São Paulo. Certa vez, tive a oportunidade de acompanhar a conversa de uma pauteira do Brasil Urgente com uma das chefes de reportagem sobre a cobertura de assassinato de um adolescente no ABC. Ambas chegaram à conclusão de que deveriam montar um link (quando um repórter entra ao vivo durante um programa) na rua da casa do menino, conversar com a família e mostrar que, apesar de tudo, ali é um bairro de gente feliz (nessa hora, a pauteira anotou em seu bloquinho: “vamos mostrar aquela gente sorrindo também”), e a patacoada seguiu seu rame-rame.

Se para a socióloga Julita Lembruger a imprensa não dá muita atenção aos casos de violência, para mim, dá até demais. O que as redações chamam de factual (notícias de momento, como incêndios, assaltos, seqüestros – tudo o que é desgraça ao alcance de todos) tem tido mais cobertura de contornos popularescos a jornalísticos. “Ah, mas o povo quer ver isso”, dir-me-ão alguns. É mesmo? O problema é que o povo gosta de tantas outras coisas impublicáveis…

Drama é com o povo mesmo. Há quem ame aquelas reportagens sensacionalistas por completo. Eis o enredo: para contar que um menino morreu com um tiro na cara, o repórter conversa com todas as gerações da família e com o bairro inteiro. Claro, é preciso mostrar que morreu um cidadão de bem – ou o contrário. “Essa aqui era a cuequinha preferida dele”, diz a mãe ao microfone ao mesmo tempo em que a câmera foca as lágrimas vertendo de seus olhos. O irmão da vítima, muito comovido, também presta depoimento e diz que a comida preferida de ambos era tutu de feijão. Já o amigo enfatiza como era o lazer do colega: “ele era um bom goleiro. Sonhava em jogar no Corinthians”. Ah, faça-me um favor!

É realmente uma pena que esses programas policiais, cuja quantidade de telespectadores não é de se desprezar, desperdice todo o poder de comunicação que têm em prol de um projeto mesquinho de jornalismo popular. Não estou ignorando que violência deva ser tema de pautas. Nada disso. Deve ser, sim. Mas não com o único intuito de fazer do infortúnio alheio matéria-prima para espetáculo jornalístico.

No mesmo programa Globo News Painel, uma outra convidada sugeriu que a imprensa, ao dar destaque a casos de violência, ajuda na mobilização da sociedade para viabilizar mudanças nas leis a fim de dirimir casos como o do goleiro Bruno, por exemplo. ORA, QUE BESTEIRA! Então quer dizer que todas as vezes que nos depararmos com casos de violência vamos mudar as leis? É PRECISO CRIAR MECANISMOS PARA ASSEGURAR QUE AS ATUAIS LEIS SEJAM CUMPRIDAS, E NÃO MUDÁ-LAS AO BEL-PRAZER DE DEMANDAS SOCIAIS. Há algum tempo, criaram a Lei Maria da Penha. Grande coisa! Até hoje não há nenhuma prova concreta de que a violência contra a mulher diminuiu no Brasil.

Frente a tudo isso, parabenizo a Folha de S. Paulo pela atenção que deu ao caso Bruno: nada mais do que de fato merecia. Data vênia, senhora ombudsman.

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