A DESPEDIDA MAIS DOLOROSA DE TODA MINHA VIDA

Em 1997, ainda na minha infância – fase na qual nossas inocências estão mais do que evidenciadas em nossas caras –, numa manhã de domingo, minha mãe me fez sentar ao seu lado na cama de seu quarto e me contou uma estória da qual me lembro até hoje. “Deus”, disse ela, “tem um lindo jardim lá no céu, cheio de rosas lindas. E esse jardim nunca pára de ganhar flores. Deus sempre recolhe, de tempos em tempos, lindas rosas para fazê-lo crescer sempre”. Com os olhos marejados, ela concluiu: “Hoje Deus recolheu mais uma rosa para seu jardim. A vovó deixou o hospital e está lá no céu, agora”. Aos nove anos de idade, minha razão compreendeu o que ela quis dizer. Evidentemente que minha avó (mãe de minha mãe) não era uma rosa, mas o eufemismo usado por minha mãe me fez entender a morte, àquela época, de uma maneira menos cruel como de fato é.

Na semana passada, esse jardim celeste ganhou mais uma rosa. Na manhã do sábado, minha mãe tomava café da manhã. Escutei um barulho forte vindo da cozinha. Quando lá cheguei, a vi caída no chão, ainda com os olhos abertos. Quando a levantei para socorrê-la, seu coração já não batia mais. Eu, tomado por aquele ímpeto que nos acomete em situações de desespero, ainda tentei, do meu modo desconcertado, fazê-la voltar. Sem sucesso. Por um instante me esqueci que eu não era médico, que não era bombeiro; apenas agi tão-somente como um filho desesperado vendo sua mãe partindo. A vida já não mais batia naquele peito. Seus olhos não estavam mais abertos. Nos meus braços estava minha mãe, em corpo, mas sem alma. Eu, naquele momento, ainda a tinha, mas não a tinha mais.

Momentos depois de tudo isso, minha mãe já não estava mais em casa, lugar que amava tanto e para o qual dedicou 30 anos de sua vida. Estava, agora, em uma sala de velório, com seu corpo cercado pelos seus, amigos e parentes. Nunca gostei do ritual de velar um corpo. Só quem já velou pessoas queridas sabe o quanto é penoso ficar assistindo ao choro alheio por quem sabemos que nunca mais tornará. Mas é compreensível. É como se um ínfimo fôlego de vida de quem partiu ainda respirasse dentro de cada um de nós; e a presença do corpo torna isso mais factual. Mas no momento em que o caixão é fechado, toda essa convicção rui como um castelo de cartas exposto ao vento, e somos apanhados pela cruel realidade da despedida, que vem acompanhada pelas lágrimas – e só elas, às vezes, são capazes de exprimir o mais profundo de nossos sentimentos.

No processo de digestão do acontecido, ainda fui arrebatado por uma série de pensamentos que só evidencia o quanto a morte nos deixa impotente. Quando o caixão de minha mãe descia à tumba fria, pensei comigo: “e agora?. Minha mãe é muito friorenta e está sendo enterrada sem blusa. Vai passar frio”. Como ultimamente ela se cansava muito facilmente devido às complicações do coração, chegando em casa, fui preparar para ela o chá que tomava diariamente para acompanhar os remédios.

Sim. É duro. Não é fácil olhar para os cantos da casa e ver as particularidades que ela deixou. Como não me lembrar dela pela manhã toda vez que o despertador toca? Não era um relógio que me despertava, era ela. Como não me lembrar dela nas refeições, se sempre vejo que o lugar que minha mãe ocupava agora está vazio? Como não me lembrar dela cuidando das plantas se passo pelas samambaias todas as vezes que saio de casa? Como não me lembrar dela se à noite não escuto mais “como foi seu dia?”.

Tudo que sou devo aos meus pais. Mas o papel da mãe, pelo menos na minha vida, teve mais relevância. Meu pai sempre trabalhou muito, mas foi – e é – presente na medida do possível. Foi minha mãe que me ensinou a escrever antes mesmo de entrar na escola, que me educou, que me deu o norte daquilo que deve ser o fio condutor da vida de todo homem. Se hoje sou irrepreensível em minha vida familiar, social e profissional, é porque carrego em meu juízo e em meu coração a maior herança que uma mãe pode deixar aos filhos: a educação. Carregarei sempre comigo seus ensinamentos, suas recomendações e o anseio por dar a ela ainda muitas alegrias, como se ainda estivesse viva.

É triste, no entanto, saber que as maiores conquistas da minha vida não serão testemunhadas por ela. Minha mãe não vai me ver formado, não me ver ascendendo profissionalmente e não vai conhecer meus filhos. Também não vai me ver casando e não vai conhecer minha esposa (justo ela, que sempre dizia: “filho, eu peço a Deus para que ele te dê uma esposa, porque mulher tem em tudo quanto é canto”).

O que me conforta é a certeza de que um dia eu hei de reencontrá-la. Não vou mergulhar no universo do que vem depois da morte, pois nosso trivial e terreno entendimento é muito limitado para tal. Mas tenho a certeza de um dia poder me reunir com ela novamente. Sei que agora ela está bem. Muito bem. O coração fraquinho que tinha foi trocado por um novo. Os coágulos de suas pernas já não existem mais. As noites mal-dormidas nunca mais voltarão a atormentá-la. Sua canseira se extinguiu. As dores de suas costas sumiram. As lágrimas que derramava por não agüentar mais dormir sentada – pois quando deitava, as veias de seu pescoço saltavam – não mais rolarão de seus olhos. Agora ela está com minha avó e com meu avô. Pai, mãe e filha, juntos, lado a lado no jardim daquele que os recolheu.

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A DESPEDIDA MAIS DOLOROSA DE TODA MINHA VIDA

22 pensamentos sobre “A DESPEDIDA MAIS DOLOROSA DE TODA MINHA VIDA

  1. Samuel diz:

    Leandro, tal como vc sofri a perda de minha querida mãe, já faz muitos anos, mas me recordo dela todos os dias, é como se ela estivesse aqui, me acariciando, e as vezes penso que está. É o que me consola, a certeza da imortalidade da alma, de que um dia nos veremos novamente. Eu não disse adeus a minha mãe, disse um até breve. Agora, o mesmo câncer está levando a irmã que mais gosto, e quando os olhos dela se fecharem direi novamente até breve, e cantarei baixinho em seus ouvidos: “qualquer dia amiga, a gente vai se encontrar! abraços.

  2. Daniela Sartori diz:

    Meu querido amigo,

    Rezo para que Deus conforte o seu coração e o do seu pai também. Como você mesmo disse, a sua mãe não está mais entre nós porque foi escolhida por Deus para ser uma linda rosa que embeleza o precioso jardim divino.

    Sempre fui uma admiradora da sua bela escrita, mas ao ler este post a respeito da sua mãe, senti ainda mais orgulho de você pela facilidade em relatar de forma tão amena, sensível e sincera o real sentido do amor.

    Um beijo grande e abraço apertado.

    Obs.: Aguardo ansiosamente pelo momento em que a sua dor dará espaço à melhor e mais contagiante risada que eu conheço. Fique com Deus!

  3. Eliana Lima diz:

    Leandro, meu querido.
    Permita-me tratá-lo assim: esse é um momento só seu,
    não existem palavras que consolem a não ser que tudo
    que vem, um dia vai, menos o amor que une as pessoas.
    Você é o reflexo da beleza que foi sua mamãe. Paz a você.
    Um beijo, Eliana Lima.

  4. Rute diz:

    Tudo que sou devo aos meus pais. Mas o papel da mãe, pelo menos na minha vida, teve mais relevância. Meu pai sempre trabalhou muito, mas foi – e é – presente na medida do possível. Foi minha mãe que me ensinou a escrever antes mesmo de entrar para a escola, que me educou, que me deu o norte daquilo que deve ser o fio condutor da vida de todo homem. Se hoje sou irrepreensível em minha vida familiar, social e profissional, é porque carrego em meu juízo e em meu coração a maior herança que uma mãe pode deixar aos filhos: a educação. Carregarei sempre comigo seus ensinamentos, suas recomendações e o anseio por dar a ela ainda muitas alegrias, como se ainda estivesse viva.

    SIMPLESMENTE DISSE TUDO.

  5. Raquel Verchasiano diz:

    minha mãe morreu a 3 semanas d cancer no figado .. começou no intestino no final tava generalizado… ainda num começei a sentir mtu a dor naum… to meio anestesiada.. as vezes choro a tarde toda sme saber direito por que… agente tem q aprender a conviver com as perdas por mais doidas q elas sejam pq elas fazem parte da vida…

  6. Anônimo diz:

    Sei que posso ser apedrejada pelo que vou dizer, mas que morte linda a da sua mãe. Não ficou sofrendo de dores em hospital e também não deu muito trabalho.

  7. Filipe Zimbicky diz:

    Caro, parabéns. Já sou de idade mais avanaçada que a tua, mas depois de ler esse teu texto me recordei de minha mãer que também me deixou ainda na minha juventude. Infelizmente, a morte é a únbica certeza que temos na vida. Lhe desejo rápida recuperação. Abraços sinceros, Filipe.

  8. Danilo diz:

    Primo, primo! Também pedi minha mãe cedo, vc sabe disso. Uma hora a gente acaba se acostumando com a idéia e tudo fica malhor. Forças aí. Mil abraços pra ti.

  9. Marcus Vinicius diz:

    Leandrão!!!

    Desejo-te muita força neste momento mais do que difícil!
    Rezo para você e sua fámilia superarem essa perda que, como você disse, é a maior que alguém pode ter.
    Saíba que você tem um amigo aqui que pode contar sempre.

    Um grande abraço!

  10. Samuel Nasc. diz:

    Meu amigo Leandro, conte conosco e com nossa família. é na hora do luto que sabemos que de fato está do nosso lado. É quando estamos em estado de pranto que conhecemos nossas companhias, pois na hora em que tudo está bem não faltam pessoas para nos abraçar. Qu vc e sua família possam superar isso.

  11. É a vida diz:

    Perdi meu pai e minha mãe em um acidente de carro recentemente. Ao ler este seu texto, vi que ele expressava quasr tudo aquilo que eu queria expressar mas não conseguia. Conforta a gente também saber que fomos os melhores filhos que poderiamos ser e não demos aos nossos pais nenhuma especie de desgosto.

  12. Karen Silveira diz:

    Lindo texto! Isso deverria servir de panfleto a todos os filhos e filhas que não dão valor aos pais. Que Deus conforte teu coração.

  13. Orlando diz:

    Que bom ler estes textos tão comoventes.
    Gosto muito da sua clareza em seus posts, apesar de eu achar que vc pega pesado demais em política, principalmetne quando o mote é o PT. Mas preferências à parte, quero registrar que fiquei comovido e balançado na parte que fala das conquistas que sua mãe não verá. Tenha certeza de que ela verá sim, e do melhor lugar do mundo. A mãe da gente nunca nos deixa, mesmo depois que partiu.

  14. nossa, Leandro. sinto muitíssimo. meus sentimentos. como vc está? como vc bem disse no seu texto, agora é rezar por ela que, com certeza, está num lugar bem melhor que aqui.

    lindo o seu texto!

    bjos e tente ficar bem.

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