LULA BRINDA COM A PATOTA

Vivemos numa era política cheia de particularidades. Em assuntos pelos quais a sociedade deveria despertar mais interesse, vemos que ocorre justamente o contrário. A maioria da população não liga mais para essas coisas, vocês sabem, reles. Por que importar-nos-íamos se Dilma Rousseff esconde na manga uma possível volta de José Dirceu num eventual governo petista a partir de 2011? A troco de quê nos incomodaríamos com o festival de bisbilhotice no qual se transformou a Receita Federal a fim de suprir as necessidades do Partido? Por que raio deveríamos nos importar com as intenções ocultas de Franklin Martins – esse gigante da liberdade de imprensa que declarou recentemente que a TV dos Trabalhadores é só início de uma era em que os jornalistas dos aquários (sala de chefe de redação, na linguagem jornalística) hão de ser confrontados com uma nova realidade? Nada disso importa mais. A lata do lixo virou hospedeira dos valores de outrora. A tal da ascensão social se transformou num ente de razão que atravessa transversalmente as convicções hodiernas.

Frente a este aspecto de nosso tempo, não deveria ser assustador que certos fenômenos começassem a figurar aqui e alhures, principalmente na campanha eleitoral. Como sou um bicho muito estranho, ainda ouso me espantar com o que desafia o bom senso. Não sou exótico?

Na noite de ontem, Lula estrelou uma peça publicitária eleitoral pedindo votos para um senador de São Paulo. Não,  ele não pedia votos nem para Marta Suplicy nem para Aloízio Mercadante. O contemplado pela benção era Netinho de Paula, candidato ao Senado pelo PC do B. E o pior: pesquisas de intenção de voto feitas no Estado indicam que o ex-pagodeiro (é ex mesmo?) deve compor o quadro do Senado em 2011. O povo vota em Netinho assim como vota em Tiririca, aquele que não sabe o que faz um deputado federal mas quer chegar lá para saber. O porquê de ambos candidatos atraírem votos de uma boa parcela do eleitorado não me cabe especular. Prefiro que os cientistas políticos se encarreguem disso. Mas o motivo de Lula querer vê-los lá no Congresso, bem, isso não é difícil de entender. Basta lançar um pouquinho de luz ao ramerrão para se dar contra do embuste que está em andamento.

Nada menos do que 54 cadeiras do Senado estão no jogo nestas eleições. Delas, apenas 17 podem se tornar efetivamente  dos partidos da oposição. Nos oito anos de governo Lula, o Senado foi o calcanhar de Aquiles da situação – foi nesta que Casa que a CPMF foi derruba, por exemplo. Mesmo assim, o trator governista foi implacável nas comissões específicas e nas CPIs (quem não se lembra daqueles “erres” inconfundíveis de Ideli Salvati durantes as seções? E da cabeleira balançante de Wellington Salgado?). As alianças construídas por Lula, com efeito, garantiram ao governo um certo conforto. Nesta altura do campeonato, Lula apadrinhar Netinho ganham um sentido todo especial: trata-se da construção de uma base, atenção!, clientelista para atuar num eventual governo Dilma.

Lula volta e meia recorre àquela retórica vigarista de que é preciso mudar a política deste país, alterar a elite que governa o Brasil há 500 anos. Trata-se de uma fala ignorante, típica de gente que limita sua leitura às orelhas dos livros. Basta ler Os donos do Poder, de Raymond Faoro, para perceber que as elites políticas se renovam de tempos em tempos, e não se fixam no poder, como sugere Lula. Basta circular pelo Congresso Nacional para encontrar políticos oriundos de classes políticas e sociais baixas que só agora, devido a um conjunto de fatores que não vale ser detalhado nesta oportunidade, chegaram ao poder. Os ternos mal cortados de alguns deputados querem nos dizer alguma coisa. Faoro discorre sobre a formação política brasileira traçando um paralelo com o que ocorre em Portugal, onde é comum ter o Estado como uma extensão do privado. Com isso, está-se criado o ambiente favorável à criação de relações clientelistas.

Ok, mas e Netinho com isso? Ora, tudo! Ao ir à TV pedir votos para o cara que “chega na Cohab no maior astral”, Lula deixa clara sua intenção de trazer para debaixo de seu guardachuva gente de qualquer categoria em nome de uma coalizão que, mesmo defeituosa do ponto de vista técnico -político, garanta tranqüilidade à sua pupila, caso eleita. E daí que entra Faoro: não me parecerá estranho se Lula recorrer à falsificação da história e usar seu discurso da “elite política que governa este país há 500 anos” para convocar a população a eleger um senador tão, assim, digamos, peculiar como Netinho de Paula.  A periferia também precisa emergir no Senado, não é mesmo?

Quando o assunto é a eleição de Tiririca, aí a coisa começa a fica ainda mais séria. Não pelo o fato de sua candidatura ser mais uma sátira a algo sério, mas, sim, porque sua figura está sendo usada de maneira descarada em nome de um projeto de governo que quer extinguir a oposição no Congresso. Não, não estou sendo apocalíptico. Sou tão-somente arauto da lógica.

Explico

Uma das maiores disputas existentes dentro dos partidos políticos é a briga por números que entrem facilmente na cabeça do eleitor, como 1234, 1313, 45555, e assim vai. E qual é o número de Tiririca? 2222! Sim, se o próprio Tiririca se apresenta como uma brincadeira ao eleitor – e o povo adora uma palhaçada, não é mesmo? -, o PL não está; muito pelo contrário: o partido aposta seriamente na eleição de Tiririca. Não é por menos. Caso essa onda de ridicularia pegue e o candidato amealhar alguns milhares de votos, vão para o Congresso, além dele, mais alguns companheiros do partido, graças ao quociente eleitoral. Foi assim que nas eleições de 2002 Enéas levou consigo para a Câmara mais quatro deputados do Prona sem sequer terem recebido um miserável voto. Trocando em miúdos: votando em Tiririca, está-se votando em mais um monte de candidatos x e y cuja trajetória pode ser semelhante à de Valdemar Costa Neto, também do PL.

Eis aí o aleivosia: o governo apóia candidatos desqualificados, que se usam de suas gracinhas e de seu pagode para atrair votos, e, de lambuja, cria no Congresso um ambiente favorável à aprovação de tudo aquilo que lhe der na telha, inclusive, por que não?, uma possível indicação de José Dirceu para ocupar um cargo em alguma estatal; quem comporá uma possível CPI para investigação sobre os vazamentos da Receita, um projeto de lei que delineie novos horizontes para a liberdade de imprensa…

E encerro fazendo um convite ao leitor: leia novamente o primeiro parágrafo deste post.

LULA BRINDA COM A PATOTA

Por dentro do blog

Por motivos profissionais, a atualização deste blog fica comprometida nesta semana. Assim que der, prometo dar as caras por aqui.

Por dentro do blog

PSDB CITA LULA EM HORÁRIO PARTIDÁRIO. PENA QUE NÃO CITA COMO DEVERIA

O uso da figura de Lula pelo o PSDB no horário partidário de Serra, na noite de ontem, pode não obter os resultados esperados pela cúpula tucana. Colar a imagem de Serra à de Lula como se ambos fossem cumpanhêro? Não, não é esse o objetivo. O fato é que à medida que Serra se torna mais conhecido, mais a população o alia como o “candidato que é contra o Lula”. O que o PSDB deseja, creio, é passar para o eleitorado a mensagem de que Serra, mesmo sendo o candidato de oposição, digamos, não o é. Procura-se assegurar ao eleitor que o processo sucessório de Lula não implicará rompimento, mas continuidade. É, com efeito, uma cíclica complicada.

Eu ainda quero entender em profundidade o que se passa pela cabeça dos marqueteiros do PSDB. Bradam que Lula não é candidato. Besteira! Para a maioria ignorante do eleitorado isso é o que menos conta. Se o demiurgo passa o ducado a Dilma, o povo aquiesce silenciosamente. Já escrevi aqui e repito: em nome da estabilidade – e tão-somente Lula não a é –, são capazes de abrir mão de todos os demais princípios.

Surgir na campanha eleitoral fazendo oposição a um presidente com 78% de aprovação exige coragem. E é uma pena constatar que esse destemor está exíguo. Com a inserção da figura de Lula na campanha tucana, agora, uma certeza se concretiza por inteiro: o PSDB não está disposto a atuar no atual cenário como o que de fato é: oposição. Isso é fingimento, e dos mais perigosos.

Qual é o problema de Serra se apresentar como oposição a Lula? São os 78% de aprovação? Então que se ponham os fatos na mesa. Já passou da hora de o PSDB e o DEM se comportarem como partidos maduros que são. Serra precisa mostrar ao eleitorado que um governo não deve cultivar apenas progresso social, mas, também, caráter, lisura, respeito às instituições e à democracia – tudo o que o PT não cultivou em seu governo.

Enfrentar o povo que agora se vê num novo patamar social exige mais audácia, e não mesquinharia política. É preciso fazer essa massa entender que uma classe não emerge para outra do dia para a noite. Se for preciso, que se ponha no ar, sim, uma aulinha bem didática explicando o que foi o Plano Real. Quem sabe assim essa gente passa a entender que Lula é um mero continuador de FHC.

Se o povo adora Lula, evidencie que foi o governo desse presidente que mais solapou os direitos individuais desde a redemocratização. Monte uma daquelas novelinhas chatas, com uma senhora gorda falando pro filho cheio de piolhos que, devido a um vazamento de informações bancárias, alguém foi até a Casas Bahia e comprou um fogão seis bôca em 40 prestações. E, graças a isso, o nome dela agora vai pro, como é mesmo?, pau! Aposto que a craçi trabaiadora entenderá perfeitamente a mensagem que se quer passar.

Lula infantiliza o povo quando se declara pai dos pobres e ao dizer que Lula será nossa (minha, não!) mãe. Serra, por sua vez, permite que a sociedade continue mergulhada na egrégora lulista sem abrir-lhe os olhos. Dilma é uma circunstância caricatural de Lula. Já Serra é o que é. Para que sua candidatura ganhe sentido, é preciso que se oponhe, sem ressentimentos, a tudo o que está aí.

Compete à oposição desmistificar a lenda construída sobre o governo Lula. Se Dilma alia Serra à volta da estagnação, que o tucano alie Dilma à continuidade dos mensalões, às quebras de sigilos bancário e telefônico ao bel-prazer de um partido, às mudanças na lei a fim atender a interesses privados (como no episódio protagonizado pela construção de um semimonopólio da Oi, graças às alterações na Lei Geral de Telecomunicações), e assim vai – a lista poderia seguir, imensa.

Serra também pode assegurar que Dilma daria continuidade aos afagos na cabeça daqueles que deram um pé nos fundilhos da República – Antônio Pallocci já é cotado para assumir a presidência da Vale num eventual governo Dilma – e estreitar ainda mais laços com ditadores sanguinários – ou é mentira que Lula chama Ahmadinejad de “meu amigo, por quem tenho muito carinho”?.

Sim, chega a ser estúpido o uso da figura de Lula na propaganda tucana. Se for usar a imagem de Lula, que seja para desmascará-lo, demonstrando como a democracia ficou mais fraca sob a égide do petismo. Que seja para evidenciar como o Estado viu seus alicerces sendo corroídos pelo fisiologismo. Que seja, também, para mostrar o apreço que este senhor tem pelas leis de seu País, quando, por exemplo, opta por zombar do Tribunal Superior Eleitoral e fazer propaganda eleitoral antecipada no exercício do cargo.

A eleição ainda não está ganha. Mas o PSDB passa a facilitar a sensação do contrário.

PSDB CITA LULA EM HORÁRIO PARTIDÁRIO. PENA QUE NÃO CITA COMO DEVERIA

O EQUILÍBRIO DA FOLHA ONLINE

Conforme vocês podem ler no post abaixo, José Serra teve bom desempenho no debate promovido pela Folha e pelo UOL. Todos foram bem, mas o tucano se destacou. Valeu-se, de certa forma, de sua experiência. A Folha.com fez um resumo da ópera (leia aqui).

Pois bem, agora são 16h53. Quem acessa a home da Folha.com vê no quadro destinado às informações do evento as seguintes manchetes:

– Atrás nas pesquisas, Serra ataca Dilma em debate on-line;
– Na sua opinião, quem venceu o debate: Dilma, Serra ou Marina?
– Marina critica tucanos e defende Constituinte só para reformas;
– Debate fica entre assuntos mais comentados do Twitter;
– Dilma diz que problemas de saneamento vêm da era FHC;
– Elba Ramalho nega participação no jingle da campanha de Serra.

Que coisa, não? Independentemente de quem foi melhor, temos: três manchetes desfavoráveis Serra, uma a favor de Marina e uma a favor de Dilma. Que equilíbrio formidável, não?

OBS – 48% dos leitores da Folha.com, até o momento, acham que Serra saiu-se melhor no debate.

O EQUILÍBRIO DA FOLHA ONLINE

DO DEBATE DA FOLHA/UOL

O debate realizado pela Folha de S.Paulo e pelo UOL – que, diga-se de passagem, foi o melhor formato adotado até agora para esse tipo de evento – serviu para assistirmos a certos comportamentos não vistos até aqui. Serra mostrou seu lado pouco mais agressivo. Marina Silva, quem diria?!, partiu para o ataque – embora em certos momentos tenha perambulado por aquele vale da sombra e da morte trazido pela metafísica da preservação ambiental –; e Dilma, ao contrário do debate anterior, não gaguejou nenhuma vez. No geral, todos tiveram desempenho satisfatório; mas nas particularidades, Serra, novamente, se saiu melhor.

Logo na primeira pergunta, Dilma tentou pregar um embuste em Serra ao mencionar uma ação direta de inconstitucionalidade movida pelo partido de seu vice Índio da Costa, o DEM, no Supremo Tribunal Federal. Segundo a petista, o objetivo é extinguir com todas as vagas criadas nas universidades pelo Prouni.   Trata-se de uma mentira deslavada. O que a ação pede é a correção de alguns formatos do programa, por exemplo, quando aponta a inconstitucionalidade de existir critérios raciais para a admissão do aluno. Serra desmentiu a aleivosia jogou no lombo da candidata todo o histórico do PT do “quanto pior, melhor”. O tucano trouxe luz à oposição ferrenha que o partido fez contra o Plano Real, Proer e contra o Fundef.

Se um dos maiores prazeres da campanha de Dilma era afirmar que Serra esconde FHC, já podem tirar essa provocação da lista. “Você é muito ingrata com o Fernando Henrique”, disse o tucano à candidata, mencionando todos os feitos do governo anterior, fundamentais para a conquista da estabilidade econômica e o fim da era das inflações de quatro dígitos. Dilma respondeu e admitiu que o PT errou sim ao votar contra as medidas do antigo governo, e novamente tentou vincular o episódio à falta de experiência política do PT à época. Dilma, com isso, inaugura uma nova era na história: a de creditar todas as negligências do passado à falta de vivência e de maturidade. Pode-se sabotar o quanto quiser, mandar às favas o interesse da sociedade em nome de um projeto restrito a interesses partidários (ou alguém acha que o PT era contra o Real por ser a favor de um País melhor?) e, mais tarde, desculpar-se jogando o ônus nas costas da dita “falta de experiência”.

Quando o tucano perguntou o que a candidata pretende fazer para recuperar a credibilidade do Enem, que ultimamente enfrentou problemas com vazamento de provas e de dados confidenciais de alunos, Dilma tergiversou e viajou até ao Paquistão, tudo para dizer que até dados militares dos Estados Unidos vazam. Serra reagiu e disse que vazamento de informações é uma das marcas do atual governo, lembrando dos dossiês feitos contra ele mesmo e, mais recentemente, contra Eduardo Jorge, vice-presidente do PSDB.

Quando o assunto foi política habitacional, ficamos sabendo de algo realmente estarrecedor: Dilma vai fazer o Minha Casa Minha Vida II. Isso mesmo!!! O Minha Casa Minha Vida I mal saiu do papel e já estamos vendo promessas para a versão dois ponto zero do programa. Em lugares onde o déficit habitacional é de 90%, nem 2% das metas foram cumpridos. No Amapá, por exemplo, apenas 0,2% da meta começou a andar! Santo Deus!

Marina Silva, por sua vez, tentou desqualificar a Educação no Estado de São Paulo. Serra lhe apresentou os dados do ensino no estado, que estão entre os melhores do País. O melhor momento de Marina foi quando criticou ao processo de infantilização ao qual o PT está submetendo o eleitor brasileiro com essa conversa-fiada de pai disso, mãe daquilo. No mais, mostrou-se mais agressiva que de costume, mas sem deixar de lado aquela aura, digamos, mística proporcionada pelo discurso da proteção ambiental. Qualquer brechinha retórica, lá vinha Marina usando palavras como sustentabilidade, preservação e etc. Em dado momento, tentou emplacar a pauta da reforma política – assunto chatíssimo em tempos de campanha eleitoral – se qualificando como a única alternativa. Recorreu, para isso, a palavrórios demasiadamente vazios, sem forma nem conteúdo, como “nova política”, “novo acordo social”, dizendo-se ser contra o “consenso oco” inerente ao que ela qualifica como fisiologismo dos últimos 16 anos de governo.

Marina começa a soar repetitiva, chata mesmo. Ela critica os governos Lula e FHC pelo o fato de terem trabalhado amarrados a alianças partidárias. O pulo-do-gato que Marina ainda não explicou é como garantir governabilidade sem acordos no Congresso. Ela se diz avessa às atuais práticas, mas, quando questionada como trabalhará para selar acordos, a única resposta que se ouve é a glossolalia da “única alternativa a tudo o que está aí” e do “eu vou fazer diferente”. O fato é que Marina não se justifica. Até Heloísa Helena nas eleições de 2006 era mais interessante – mesmo, à época, prometendo  tolices como derrubar a Selic via decreto presidencial.

Não há dúvida que o melhor do debate foi José Serra. Não se trata de torcida, mas de lógica. Não teria porque fazer desta página uma plataforma de campanha para nenhum candidato. Não me dou tanta importância assim – e nem a tenho. Até porque quem me lê sabe das minhas preferências e não as escondo. Serra se destacou porque mostrou independência, sem precisar ficar colando sua imagem a de alguém – igual fez Dilma diversas vezes ao falar “meu governo, que é o do presidente Lula”. O tucano não prometeu criar versão 2.0 do 1.0 que sequer saiu do papel. Mais: disse quem anda com ele – mostrando capacidade de formar coalizões no Congresso –, desconstruiu a tese de Dilma de que os juros estão em um patamar aceitável e mostrou com números que a Educação de São Paulo está sim entre as melhores do País e a tendência é melhorar. No entanto, ainda se enrosca para explicar o mensalão do PSDB em Minas Gerais e o apoio de Roberto Jefferson.

Mas e Dilma? Não teve, assim, digamos, um bom momento? Teve, sim. Quando o assunto foi saneamento. “Havia uma coisa chamada fila burra, forma pela qual o governo federal não deixava se investir em saneamento. Se o primeiro não apresentasse, o segundo não levava. Nós estamos botando 40 bilhões, enquanto o governo do senhor Fernando Henrique Cardoso botava muito menos. Discutir saneamento é algo que você não devia tentar, o seu governo não fez nada no Brasil”, disse a petista. Mas o melhor momento mesmo foi o das considerações finais, quando a candidata… LEU sua despedida.

DO DEBATE DA FOLHA/UOL

QUE DILMA NÃO CONTE COM A MEMÓRIA DO ELEITOR

Ainda não tive oportunidade de assistir a nenhuma peça eleitoral ida ao ar nesta tarde – tanto no rádio como na TV – de nenhum dos candidatos. Aqui e ali leio que o programa de Dilma conseguiu ser mais convincente. Não duvido. A única conclusão que tiro no momento é do uso de Lula nas propagandas de Dilma e de Serra. A petista tende mesmo a colar sua figura à do nosso criador dos céus da terra. Ouvi que na inserção do rádio há um momento em que uma canção de despedida é entoada, e a síntese da mensagem transmitida é Lula dizendo “deixo o meu país para Dilma cuidar”. Parece, inclusive, que se tenta criar um comovente cenário, cujo protagonismo se dá com Lula dando adeus ao povo brasileiro. Glauber Rocha não faria melhor!

Já no programa de Serra, o jingle “Quando Lula sair, é o Zé que eu quero lá”, parece ter sido o único momento em que se tentou, de certa forma, aproximar o tucano de Lula. E Dilma, obviamente, não gostou. “Passaram oito anos fazendo a oposição mais radical, aquela que sai lá do fígado, mais dura, conosco. Não pode querer, nas eleições, passar pelo que não é”, disse em um evento no bairro da Liberdade, nesta tarde. E completou dizendo que acredita na “inteligência, discernimento e senso crítico do povo” e que a população “sabe quem é quem”.

No que depender da “inteligência e senso crítico do povo”, Dilma pode se estrepar, e feio. Se a candidata se incomoda com o que, em sua interpretação, soa como discurso duplo, o povo pode puxar pela memória quantas vezes o PT se levantou no Congresso e organizou, digamos, milícias contra o Plano Real, o Proer e todos os demais fatores que tornaram possível a estabilização da economia. O PT de Dilma, num primeiro, chamou o Bolsa Família de Bolsa Esmola; depois que virou governo, passou a exibi-lo como principal bandeira de Lula.

Se o povo recorrer ao passado, verá que o PT condenava veementemente todas as recomendações que o Fundo Monetário Internacional dava ao Brasil. Petistas diziam que era o Império (leia-se Estados Unidos) querendo meter o bedelho em questões internas. Depois de eleito, Lula fez o quê? Ora, deu seguimento à política econômica anterior, que não diferia muito do que… o FMI nos recomendava!

A sorte de Dilma é que o eleitor não tem memória. Ou, tendo, nunca é capaz de fazê-la prevalecer sobre o apedeutismo reinante.

QUE DILMA NÃO CONTE COM A MEMÓRIA DO ELEITOR

TUDO EM NOME DA ESTABILIDADE ECONÔMICA? NÃO! NÃO MESMO!

Prontos para um longo texto? Então vamos lá.

***

O fato de Dilma Rousseff estar oito pontos à frente de José Serra, com 41% das intenções de voto nas pesquisas, não pode ser interpretado exclusivamente sob uma ótica político-eleitoreira. Há, com efeito, algo de muito mais grave nesse resultado do que se está debatendo. Antes de prosseguir, faz-se necessária uma digressão.

Uma das perguntas mais contundentes feitas para José Serra e Marina Silva no Jornal Nacional foi sobre o mensalão. Já se foram seis anos desde o estouro do escândalo, mas o assunto ainda é pauta. E é bom que seja mesmo – como já disse, apenas lamento que o tema não tenha sido pauta na entrevista da candidata ligada aos chefões do escarcéu. À época das revelações, o Datafolha foi a campo para perguntar aos brasileiros o que pensavam do episódio e a percepção da população sobre a existência de escândalos no governo Lula. Os resultados não poderiam ser mais desesperadores. 56% dos entrevistados acreditavam piamente que houve de fato o pagamento de mesadas a parlamentares. Dentre os que disseram ter conhecimento do caso, 66% sustentaram que foi o PT corrompeu deputados e senadores de outros partidos. E, atenção, agora vem o mais importante: 70% dos entrevistados disseram que existia, sim, corrupção no governo Lula.

De 2005 até chegarmos aos dias de hoje, mudanças drásticas deixaram o eleitor mais, digamos, tolerante. O fenômeno é interessantíssimo, pois nos permite traçar as linhas que definem as fronteiras entre os valores negociáveis e os não-negociáveis dentro de um regime democrático. Lula e o PT, seis anos trás, despertavam na população um certo incômodo na área da ética. Hoje, não despertam mais. A popularidade do presidente, hodiernamente, supera todos índices negativos de 2005. 77% da população diz que o atual governo é bom ou ótimo; em 2005, esse índice era de apenas 28%, segundo o Datafolha.

Sem dúvida, de lá para cá, a sensação de bem-estar econômico cresceu. É uma pena que isso se tenha dado em detrimento do bom senso, como se o momento positivo da economia tenha apagado da memória do eleitor o que no passado ele condenava veementemente. Mais: parece que o povo passou a usar um cabresto. Quase ninguém mais faz questão de sopesar o bem de manter intactos os valores da democracia, da liberdade de expressão e dos direitos individuais. Passamos a viver numa era de um populismo medíocre que se destaca pela inefabilidade da emergência dos pobres. Esse conjunto de fatores trouxe à tona uma drástica realidade: os valores que são os pilares de um Estado Democrático de Direito podem ser seqüestrados se quem os solapa nos dá condições econômicas.

O escândalo do mensalão, condenado pelo povo em 2005 conforme revelou o Datafolha, foi protagonizado pelo PT, numa clara tentativa de sabotar o Congresso Nacional. Sabotar o Congresso é sabotar o eleitor. O líder da quadrilha que esquematizava a operação de compra de votos é José Dirceu. Digo “é”, no presente, pois foi assim que o procurador geral da República o qualificou; e como o processo ainda não está encerrado, prefiro ficar nos termos da denúncia aceita pelo Supremo Tribunal Federal. O PT é indissociável de Lula, e Dilma também o é. Se há seis anos grande parte da população achava que o partido era o principal agente do esquema, resta saber aonde foram essas pessoas. Simples: não foram a lugar nenhum. Resolveram aderir à turma e sua forma de fazer política, num sinal da mais pura aquiescência com o condenável.

Não pretendo ressuscitar o mensalão. Não há somente esse episódio para trazer luz aos aspectos dos tempos atuais. Há outros, e lembra-los nunca é demais; ainda mais quando a candidata do PT crava 41% das intenções de voto na pesquisa feita pelo mesmo instituto que captou a insatisfação do eleitorado em 2005. Não, não estou fazendo campanha eleitoral nem para A e nem para B. Minha contribuição nesse âmbito seria ínfima. O que quero pôr em perspectiva é a síndrome de Fabrício Del Gongo pela qual estamos passando. Fabrício é a personagem principal do romance A Cartuxa de Parma, do escritor francês Sthendal. Na trama, Fabrício combate na batalha de Waterloo sem se dar conta da importância histórica do conflito. Aqui, passamos por uma era em que a democracia se fragiliza cada vez mais sem que a devida importância seja dado ao que está curso. Abre-se mão de reconhecer isso em nome de, sei lá, uma geladeira nova, um carro novo, nova casa, bolsa auxílio, primeira TV LCD, Prouni…

Lula é o chefe do governo que mais chutou os fundilhos dos sigilos bancário, fiscal e telefônico. O aparato governamental ficou a serviço do PT. Foi assim que conseguiram dados para fazer dossiês contra integrantes da oposição. Petistas não aceitam a existência de uma alternativa a eles mesmos. Querem dizimar as diferenças custe o que custar. Já foram alvos de dossiês fajutos José Serra, Ruth Cardoso e Eduardo Jorge. Mais recentemente, até mesmo Guido Mantega se viu numa saia justa ocasionada pela fabricação de dados a partir da quebra dos direitos individuais. Pergunto-me se quem opta pela continuidade do atual governo comunga com a idéia de que a qualquer momento sua conta bancária, seu imposto de renda e suas conversas no telefone estejam sob monitoração sem devida autorização judicial, ao bel-prazer de uma turma que tomou de assalto o Estado brasileiro.

O povo – que tanto apoiou a imbecilidade da lei Maria da Penha e se comove com a violência contra a mulher – assistiu a um dos momentos mais patéticos do atual governo no que concerne aos Direito Humanos. A iraniana Sakineh, condenada a morte no Irã por apedrejamento, num primeiro momento, não pôde contar com o apoio de Lula. Pedir a Ahmadinejad para que reconsiderasse a condenação seria “avacalhação”. Lula só foi se importar com a barbárie à qual estava exposta Sakineh quando, vejam que coisa, subiu num palanque ao lado de Dilma Rousseff. Só os dotados de enfraquecimento das faculdades mentais entenderam o discurso palanqueiro como uma boa ação do demiurgo. Bobagem! Eu adoraria saber se a turma que almeja pela continuidade deste governo realmente acha “avacalhação” pedir por um pouco mais de humanismo em favor de uma mulher prestes a morrer por um dos métodos mais cruéis.

Ainda no cenário externo, Lula nunca se sentiu constrangido de demonstrar apoio claro a Hugo Chavez e Fidel Castro. Quando a RCTV foi fechada pelo governo venezuelano – só porque a emissora noticiava as falcatruas de Chavez –, dois partidos brasileiros emitiram nota de apoio ao bochechudo: o PSOL e o PT. Em território cubano, Lula deu ombros aos prisioneiros políticos que morriam por causa de uma greve de fome. Preferiu silenciar. Nem uma palavra em apoio àqueles que se levantaram contra a tirania castrista. Quem quer continuidade do governo Lula, concorda com a tese lulista de que os presos pela ditadura cubana e os bandidos de São Paulo são equivalentes, conforme sugeriu o filósofo Lulóvsky?

Foi durante o governo Lula que o direito à privacidade ficou mais frágil;
Foi durante o governo Lula que as instituições ficaram à mercê de interesses partidários;
Foi durante o governo Lula que o respeito às leis foi mandado às favas;
Foi durante o governo Lula que passamos a piscar o olho a ditadores sanguinários;
Foi durante o governo Lula que assistimos ao silêncio frente às ações das Farc;
Foi durante o governo Lula que assistimos o massacre do direito de divergir;
Foi durante o governo Lula que a liberdade de imprensa ficou em xeque;
Foi durante o governo Lula que a democracia representativa quase foi à míngua;

Uma candidata representa, sim, a cíclica ameaça a todos os preceitos do Estado de Direito; outro, não. Dilma surfa na onda da tal conquista do binômio desenvolvimento social com crescimento econômico – mesmo que nossa taxa de crescimento fique um pouco a dever quando comparada com os demais países dos Bric. Por sinal, nunca é demais lembrar: se há crescimento é porque Lula seguiu à risca o modelo econômico deixado por Fernando Henrique Cardoso. Justo Lula, que tanto pregou contra o Proer e contra o Plano Real – pilares da estabilidade que conhecemos hoje.

Não se trata mais de preferência eleitoral. Trata-se, sim, de optar por quem tem mais capacidade de fazer valer as regras do jogo democrático, não da emergência das massas. Ter acesso a comida, crédito e habitação não é tudo. Se tão-somente a economia fosse motivo para opções políticas, a China comunista seria uma das melhores democracias do mundo.

O PT, na atual campanha, já começou a dar sinais evidenciando a que veio. O discurso do horror já teve início. Nas eleições de 2006 essa tática deu certo quando Lula inventou que Alckmin privatizaria o Banco do Brasil e a Petrobras. Agora, já disseram que o Serra vai acabar com a Zona Franca de Manaus, extinguir os concursos públicos e cortar o Bolsa Família. Tudo mentira! Trata-se de prática eleitoreira cujo objetivo é causar medo no eleitor. Eis aí a democracia da era Lula.

Eu prefiro o candidato que não represente nenhuma ameaça aos ideais que cultivo como modelo aceitável pra um país. E não há sensação de estabilidade econômica que me roube isso.

TUDO EM NOME DA ESTABILIDADE ECONÔMICA? NÃO! NÃO MESMO!