TUDO EM NOME DA ESTABILIDADE ECONÔMICA? NÃO! NÃO MESMO!

Prontos para um longo texto? Então vamos lá.

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O fato de Dilma Rousseff estar oito pontos à frente de José Serra, com 41% das intenções de voto nas pesquisas, não pode ser interpretado exclusivamente sob uma ótica político-eleitoreira. Há, com efeito, algo de muito mais grave nesse resultado do que se está debatendo. Antes de prosseguir, faz-se necessária uma digressão.

Uma das perguntas mais contundentes feitas para José Serra e Marina Silva no Jornal Nacional foi sobre o mensalão. Já se foram seis anos desde o estouro do escândalo, mas o assunto ainda é pauta. E é bom que seja mesmo – como já disse, apenas lamento que o tema não tenha sido pauta na entrevista da candidata ligada aos chefões do escarcéu. À época das revelações, o Datafolha foi a campo para perguntar aos brasileiros o que pensavam do episódio e a percepção da população sobre a existência de escândalos no governo Lula. Os resultados não poderiam ser mais desesperadores. 56% dos entrevistados acreditavam piamente que houve de fato o pagamento de mesadas a parlamentares. Dentre os que disseram ter conhecimento do caso, 66% sustentaram que foi o PT corrompeu deputados e senadores de outros partidos. E, atenção, agora vem o mais importante: 70% dos entrevistados disseram que existia, sim, corrupção no governo Lula.

De 2005 até chegarmos aos dias de hoje, mudanças drásticas deixaram o eleitor mais, digamos, tolerante. O fenômeno é interessantíssimo, pois nos permite traçar as linhas que definem as fronteiras entre os valores negociáveis e os não-negociáveis dentro de um regime democrático. Lula e o PT, seis anos trás, despertavam na população um certo incômodo na área da ética. Hoje, não despertam mais. A popularidade do presidente, hodiernamente, supera todos índices negativos de 2005. 77% da população diz que o atual governo é bom ou ótimo; em 2005, esse índice era de apenas 28%, segundo o Datafolha.

Sem dúvida, de lá para cá, a sensação de bem-estar econômico cresceu. É uma pena que isso se tenha dado em detrimento do bom senso, como se o momento positivo da economia tenha apagado da memória do eleitor o que no passado ele condenava veementemente. Mais: parece que o povo passou a usar um cabresto. Quase ninguém mais faz questão de sopesar o bem de manter intactos os valores da democracia, da liberdade de expressão e dos direitos individuais. Passamos a viver numa era de um populismo medíocre que se destaca pela inefabilidade da emergência dos pobres. Esse conjunto de fatores trouxe à tona uma drástica realidade: os valores que são os pilares de um Estado Democrático de Direito podem ser seqüestrados se quem os solapa nos dá condições econômicas.

O escândalo do mensalão, condenado pelo povo em 2005 conforme revelou o Datafolha, foi protagonizado pelo PT, numa clara tentativa de sabotar o Congresso Nacional. Sabotar o Congresso é sabotar o eleitor. O líder da quadrilha que esquematizava a operação de compra de votos é José Dirceu. Digo “é”, no presente, pois foi assim que o procurador geral da República o qualificou; e como o processo ainda não está encerrado, prefiro ficar nos termos da denúncia aceita pelo Supremo Tribunal Federal. O PT é indissociável de Lula, e Dilma também o é. Se há seis anos grande parte da população achava que o partido era o principal agente do esquema, resta saber aonde foram essas pessoas. Simples: não foram a lugar nenhum. Resolveram aderir à turma e sua forma de fazer política, num sinal da mais pura aquiescência com o condenável.

Não pretendo ressuscitar o mensalão. Não há somente esse episódio para trazer luz aos aspectos dos tempos atuais. Há outros, e lembra-los nunca é demais; ainda mais quando a candidata do PT crava 41% das intenções de voto na pesquisa feita pelo mesmo instituto que captou a insatisfação do eleitorado em 2005. Não, não estou fazendo campanha eleitoral nem para A e nem para B. Minha contribuição nesse âmbito seria ínfima. O que quero pôr em perspectiva é a síndrome de Fabrício Del Gongo pela qual estamos passando. Fabrício é a personagem principal do romance A Cartuxa de Parma, do escritor francês Sthendal. Na trama, Fabrício combate na batalha de Waterloo sem se dar conta da importância histórica do conflito. Aqui, passamos por uma era em que a democracia se fragiliza cada vez mais sem que a devida importância seja dado ao que está curso. Abre-se mão de reconhecer isso em nome de, sei lá, uma geladeira nova, um carro novo, nova casa, bolsa auxílio, primeira TV LCD, Prouni…

Lula é o chefe do governo que mais chutou os fundilhos dos sigilos bancário, fiscal e telefônico. O aparato governamental ficou a serviço do PT. Foi assim que conseguiram dados para fazer dossiês contra integrantes da oposição. Petistas não aceitam a existência de uma alternativa a eles mesmos. Querem dizimar as diferenças custe o que custar. Já foram alvos de dossiês fajutos José Serra, Ruth Cardoso e Eduardo Jorge. Mais recentemente, até mesmo Guido Mantega se viu numa saia justa ocasionada pela fabricação de dados a partir da quebra dos direitos individuais. Pergunto-me se quem opta pela continuidade do atual governo comunga com a idéia de que a qualquer momento sua conta bancária, seu imposto de renda e suas conversas no telefone estejam sob monitoração sem devida autorização judicial, ao bel-prazer de uma turma que tomou de assalto o Estado brasileiro.

O povo – que tanto apoiou a imbecilidade da lei Maria da Penha e se comove com a violência contra a mulher – assistiu a um dos momentos mais patéticos do atual governo no que concerne aos Direito Humanos. A iraniana Sakineh, condenada a morte no Irã por apedrejamento, num primeiro momento, não pôde contar com o apoio de Lula. Pedir a Ahmadinejad para que reconsiderasse a condenação seria “avacalhação”. Lula só foi se importar com a barbárie à qual estava exposta Sakineh quando, vejam que coisa, subiu num palanque ao lado de Dilma Rousseff. Só os dotados de enfraquecimento das faculdades mentais entenderam o discurso palanqueiro como uma boa ação do demiurgo. Bobagem! Eu adoraria saber se a turma que almeja pela continuidade deste governo realmente acha “avacalhação” pedir por um pouco mais de humanismo em favor de uma mulher prestes a morrer por um dos métodos mais cruéis.

Ainda no cenário externo, Lula nunca se sentiu constrangido de demonstrar apoio claro a Hugo Chavez e Fidel Castro. Quando a RCTV foi fechada pelo governo venezuelano – só porque a emissora noticiava as falcatruas de Chavez –, dois partidos brasileiros emitiram nota de apoio ao bochechudo: o PSOL e o PT. Em território cubano, Lula deu ombros aos prisioneiros políticos que morriam por causa de uma greve de fome. Preferiu silenciar. Nem uma palavra em apoio àqueles que se levantaram contra a tirania castrista. Quem quer continuidade do governo Lula, concorda com a tese lulista de que os presos pela ditadura cubana e os bandidos de São Paulo são equivalentes, conforme sugeriu o filósofo Lulóvsky?

Foi durante o governo Lula que o direito à privacidade ficou mais frágil;
Foi durante o governo Lula que as instituições ficaram à mercê de interesses partidários;
Foi durante o governo Lula que o respeito às leis foi mandado às favas;
Foi durante o governo Lula que passamos a piscar o olho a ditadores sanguinários;
Foi durante o governo Lula que assistimos ao silêncio frente às ações das Farc;
Foi durante o governo Lula que assistimos o massacre do direito de divergir;
Foi durante o governo Lula que a liberdade de imprensa ficou em xeque;
Foi durante o governo Lula que a democracia representativa quase foi à míngua;

Uma candidata representa, sim, a cíclica ameaça a todos os preceitos do Estado de Direito; outro, não. Dilma surfa na onda da tal conquista do binômio desenvolvimento social com crescimento econômico – mesmo que nossa taxa de crescimento fique um pouco a dever quando comparada com os demais países dos Bric. Por sinal, nunca é demais lembrar: se há crescimento é porque Lula seguiu à risca o modelo econômico deixado por Fernando Henrique Cardoso. Justo Lula, que tanto pregou contra o Proer e contra o Plano Real – pilares da estabilidade que conhecemos hoje.

Não se trata mais de preferência eleitoral. Trata-se, sim, de optar por quem tem mais capacidade de fazer valer as regras do jogo democrático, não da emergência das massas. Ter acesso a comida, crédito e habitação não é tudo. Se tão-somente a economia fosse motivo para opções políticas, a China comunista seria uma das melhores democracias do mundo.

O PT, na atual campanha, já começou a dar sinais evidenciando a que veio. O discurso do horror já teve início. Nas eleições de 2006 essa tática deu certo quando Lula inventou que Alckmin privatizaria o Banco do Brasil e a Petrobras. Agora, já disseram que o Serra vai acabar com a Zona Franca de Manaus, extinguir os concursos públicos e cortar o Bolsa Família. Tudo mentira! Trata-se de prática eleitoreira cujo objetivo é causar medo no eleitor. Eis aí a democracia da era Lula.

Eu prefiro o candidato que não represente nenhuma ameaça aos ideais que cultivo como modelo aceitável pra um país. E não há sensação de estabilidade econômica que me roube isso.

TUDO EM NOME DA ESTABILIDADE ECONÔMICA? NÃO! NÃO MESMO!

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