DO DEBATE DA FOLHA/UOL

O debate realizado pela Folha de S.Paulo e pelo UOL – que, diga-se de passagem, foi o melhor formato adotado até agora para esse tipo de evento – serviu para assistirmos a certos comportamentos não vistos até aqui. Serra mostrou seu lado pouco mais agressivo. Marina Silva, quem diria?!, partiu para o ataque – embora em certos momentos tenha perambulado por aquele vale da sombra e da morte trazido pela metafísica da preservação ambiental –; e Dilma, ao contrário do debate anterior, não gaguejou nenhuma vez. No geral, todos tiveram desempenho satisfatório; mas nas particularidades, Serra, novamente, se saiu melhor.

Logo na primeira pergunta, Dilma tentou pregar um embuste em Serra ao mencionar uma ação direta de inconstitucionalidade movida pelo partido de seu vice Índio da Costa, o DEM, no Supremo Tribunal Federal. Segundo a petista, o objetivo é extinguir com todas as vagas criadas nas universidades pelo Prouni.   Trata-se de uma mentira deslavada. O que a ação pede é a correção de alguns formatos do programa, por exemplo, quando aponta a inconstitucionalidade de existir critérios raciais para a admissão do aluno. Serra desmentiu a aleivosia jogou no lombo da candidata todo o histórico do PT do “quanto pior, melhor”. O tucano trouxe luz à oposição ferrenha que o partido fez contra o Plano Real, Proer e contra o Fundef.

Se um dos maiores prazeres da campanha de Dilma era afirmar que Serra esconde FHC, já podem tirar essa provocação da lista. “Você é muito ingrata com o Fernando Henrique”, disse o tucano à candidata, mencionando todos os feitos do governo anterior, fundamentais para a conquista da estabilidade econômica e o fim da era das inflações de quatro dígitos. Dilma respondeu e admitiu que o PT errou sim ao votar contra as medidas do antigo governo, e novamente tentou vincular o episódio à falta de experiência política do PT à época. Dilma, com isso, inaugura uma nova era na história: a de creditar todas as negligências do passado à falta de vivência e de maturidade. Pode-se sabotar o quanto quiser, mandar às favas o interesse da sociedade em nome de um projeto restrito a interesses partidários (ou alguém acha que o PT era contra o Real por ser a favor de um País melhor?) e, mais tarde, desculpar-se jogando o ônus nas costas da dita “falta de experiência”.

Quando o tucano perguntou o que a candidata pretende fazer para recuperar a credibilidade do Enem, que ultimamente enfrentou problemas com vazamento de provas e de dados confidenciais de alunos, Dilma tergiversou e viajou até ao Paquistão, tudo para dizer que até dados militares dos Estados Unidos vazam. Serra reagiu e disse que vazamento de informações é uma das marcas do atual governo, lembrando dos dossiês feitos contra ele mesmo e, mais recentemente, contra Eduardo Jorge, vice-presidente do PSDB.

Quando o assunto foi política habitacional, ficamos sabendo de algo realmente estarrecedor: Dilma vai fazer o Minha Casa Minha Vida II. Isso mesmo!!! O Minha Casa Minha Vida I mal saiu do papel e já estamos vendo promessas para a versão dois ponto zero do programa. Em lugares onde o déficit habitacional é de 90%, nem 2% das metas foram cumpridos. No Amapá, por exemplo, apenas 0,2% da meta começou a andar! Santo Deus!

Marina Silva, por sua vez, tentou desqualificar a Educação no Estado de São Paulo. Serra lhe apresentou os dados do ensino no estado, que estão entre os melhores do País. O melhor momento de Marina foi quando criticou ao processo de infantilização ao qual o PT está submetendo o eleitor brasileiro com essa conversa-fiada de pai disso, mãe daquilo. No mais, mostrou-se mais agressiva que de costume, mas sem deixar de lado aquela aura, digamos, mística proporcionada pelo discurso da proteção ambiental. Qualquer brechinha retórica, lá vinha Marina usando palavras como sustentabilidade, preservação e etc. Em dado momento, tentou emplacar a pauta da reforma política – assunto chatíssimo em tempos de campanha eleitoral – se qualificando como a única alternativa. Recorreu, para isso, a palavrórios demasiadamente vazios, sem forma nem conteúdo, como “nova política”, “novo acordo social”, dizendo-se ser contra o “consenso oco” inerente ao que ela qualifica como fisiologismo dos últimos 16 anos de governo.

Marina começa a soar repetitiva, chata mesmo. Ela critica os governos Lula e FHC pelo o fato de terem trabalhado amarrados a alianças partidárias. O pulo-do-gato que Marina ainda não explicou é como garantir governabilidade sem acordos no Congresso. Ela se diz avessa às atuais práticas, mas, quando questionada como trabalhará para selar acordos, a única resposta que se ouve é a glossolalia da “única alternativa a tudo o que está aí” e do “eu vou fazer diferente”. O fato é que Marina não se justifica. Até Heloísa Helena nas eleições de 2006 era mais interessante – mesmo, à época, prometendo  tolices como derrubar a Selic via decreto presidencial.

Não há dúvida que o melhor do debate foi José Serra. Não se trata de torcida, mas de lógica. Não teria porque fazer desta página uma plataforma de campanha para nenhum candidato. Não me dou tanta importância assim – e nem a tenho. Até porque quem me lê sabe das minhas preferências e não as escondo. Serra se destacou porque mostrou independência, sem precisar ficar colando sua imagem a de alguém – igual fez Dilma diversas vezes ao falar “meu governo, que é o do presidente Lula”. O tucano não prometeu criar versão 2.0 do 1.0 que sequer saiu do papel. Mais: disse quem anda com ele – mostrando capacidade de formar coalizões no Congresso –, desconstruiu a tese de Dilma de que os juros estão em um patamar aceitável e mostrou com números que a Educação de São Paulo está sim entre as melhores do País e a tendência é melhorar. No entanto, ainda se enrosca para explicar o mensalão do PSDB em Minas Gerais e o apoio de Roberto Jefferson.

Mas e Dilma? Não teve, assim, digamos, um bom momento? Teve, sim. Quando o assunto foi saneamento. “Havia uma coisa chamada fila burra, forma pela qual o governo federal não deixava se investir em saneamento. Se o primeiro não apresentasse, o segundo não levava. Nós estamos botando 40 bilhões, enquanto o governo do senhor Fernando Henrique Cardoso botava muito menos. Discutir saneamento é algo que você não devia tentar, o seu governo não fez nada no Brasil”, disse a petista. Mas o melhor momento mesmo foi o das considerações finais, quando a candidata… LEU sua despedida.

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