PSDB CITA LULA EM HORÁRIO PARTIDÁRIO. PENA QUE NÃO CITA COMO DEVERIA

O uso da figura de Lula pelo o PSDB no horário partidário de Serra, na noite de ontem, pode não obter os resultados esperados pela cúpula tucana. Colar a imagem de Serra à de Lula como se ambos fossem cumpanhêro? Não, não é esse o objetivo. O fato é que à medida que Serra se torna mais conhecido, mais a população o alia como o “candidato que é contra o Lula”. O que o PSDB deseja, creio, é passar para o eleitorado a mensagem de que Serra, mesmo sendo o candidato de oposição, digamos, não o é. Procura-se assegurar ao eleitor que o processo sucessório de Lula não implicará rompimento, mas continuidade. É, com efeito, uma cíclica complicada.

Eu ainda quero entender em profundidade o que se passa pela cabeça dos marqueteiros do PSDB. Bradam que Lula não é candidato. Besteira! Para a maioria ignorante do eleitorado isso é o que menos conta. Se o demiurgo passa o ducado a Dilma, o povo aquiesce silenciosamente. Já escrevi aqui e repito: em nome da estabilidade – e tão-somente Lula não a é –, são capazes de abrir mão de todos os demais princípios.

Surgir na campanha eleitoral fazendo oposição a um presidente com 78% de aprovação exige coragem. E é uma pena constatar que esse destemor está exíguo. Com a inserção da figura de Lula na campanha tucana, agora, uma certeza se concretiza por inteiro: o PSDB não está disposto a atuar no atual cenário como o que de fato é: oposição. Isso é fingimento, e dos mais perigosos.

Qual é o problema de Serra se apresentar como oposição a Lula? São os 78% de aprovação? Então que se ponham os fatos na mesa. Já passou da hora de o PSDB e o DEM se comportarem como partidos maduros que são. Serra precisa mostrar ao eleitorado que um governo não deve cultivar apenas progresso social, mas, também, caráter, lisura, respeito às instituições e à democracia – tudo o que o PT não cultivou em seu governo.

Enfrentar o povo que agora se vê num novo patamar social exige mais audácia, e não mesquinharia política. É preciso fazer essa massa entender que uma classe não emerge para outra do dia para a noite. Se for preciso, que se ponha no ar, sim, uma aulinha bem didática explicando o que foi o Plano Real. Quem sabe assim essa gente passa a entender que Lula é um mero continuador de FHC.

Se o povo adora Lula, evidencie que foi o governo desse presidente que mais solapou os direitos individuais desde a redemocratização. Monte uma daquelas novelinhas chatas, com uma senhora gorda falando pro filho cheio de piolhos que, devido a um vazamento de informações bancárias, alguém foi até a Casas Bahia e comprou um fogão seis bôca em 40 prestações. E, graças a isso, o nome dela agora vai pro, como é mesmo?, pau! Aposto que a craçi trabaiadora entenderá perfeitamente a mensagem que se quer passar.

Lula infantiliza o povo quando se declara pai dos pobres e ao dizer que Lula será nossa (minha, não!) mãe. Serra, por sua vez, permite que a sociedade continue mergulhada na egrégora lulista sem abrir-lhe os olhos. Dilma é uma circunstância caricatural de Lula. Já Serra é o que é. Para que sua candidatura ganhe sentido, é preciso que se oponhe, sem ressentimentos, a tudo o que está aí.

Compete à oposição desmistificar a lenda construída sobre o governo Lula. Se Dilma alia Serra à volta da estagnação, que o tucano alie Dilma à continuidade dos mensalões, às quebras de sigilos bancário e telefônico ao bel-prazer de um partido, às mudanças na lei a fim atender a interesses privados (como no episódio protagonizado pela construção de um semimonopólio da Oi, graças às alterações na Lei Geral de Telecomunicações), e assim vai – a lista poderia seguir, imensa.

Serra também pode assegurar que Dilma daria continuidade aos afagos na cabeça daqueles que deram um pé nos fundilhos da República – Antônio Pallocci já é cotado para assumir a presidência da Vale num eventual governo Dilma – e estreitar ainda mais laços com ditadores sanguinários – ou é mentira que Lula chama Ahmadinejad de “meu amigo, por quem tenho muito carinho”?.

Sim, chega a ser estúpido o uso da figura de Lula na propaganda tucana. Se for usar a imagem de Lula, que seja para desmascará-lo, demonstrando como a democracia ficou mais fraca sob a égide do petismo. Que seja para evidenciar como o Estado viu seus alicerces sendo corroídos pelo fisiologismo. Que seja, também, para mostrar o apreço que este senhor tem pelas leis de seu País, quando, por exemplo, opta por zombar do Tribunal Superior Eleitoral e fazer propaganda eleitoral antecipada no exercício do cargo.

A eleição ainda não está ganha. Mas o PSDB passa a facilitar a sensação do contrário.

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