LULA BRINDA COM A PATOTA

Vivemos numa era política cheia de particularidades. Em assuntos pelos quais a sociedade deveria despertar mais interesse, vemos que ocorre justamente o contrário. A maioria da população não liga mais para essas coisas, vocês sabem, reles. Por que importar-nos-íamos se Dilma Rousseff esconde na manga uma possível volta de José Dirceu num eventual governo petista a partir de 2011? A troco de quê nos incomodaríamos com o festival de bisbilhotice no qual se transformou a Receita Federal a fim de suprir as necessidades do Partido? Por que raio deveríamos nos importar com as intenções ocultas de Franklin Martins – esse gigante da liberdade de imprensa que declarou recentemente que a TV dos Trabalhadores é só início de uma era em que os jornalistas dos aquários (sala de chefe de redação, na linguagem jornalística) hão de ser confrontados com uma nova realidade? Nada disso importa mais. A lata do lixo virou hospedeira dos valores de outrora. A tal da ascensão social se transformou num ente de razão que atravessa transversalmente as convicções hodiernas.

Frente a este aspecto de nosso tempo, não deveria ser assustador que certos fenômenos começassem a figurar aqui e alhures, principalmente na campanha eleitoral. Como sou um bicho muito estranho, ainda ouso me espantar com o que desafia o bom senso. Não sou exótico?

Na noite de ontem, Lula estrelou uma peça publicitária eleitoral pedindo votos para um senador de São Paulo. Não,  ele não pedia votos nem para Marta Suplicy nem para Aloízio Mercadante. O contemplado pela benção era Netinho de Paula, candidato ao Senado pelo PC do B. E o pior: pesquisas de intenção de voto feitas no Estado indicam que o ex-pagodeiro (é ex mesmo?) deve compor o quadro do Senado em 2011. O povo vota em Netinho assim como vota em Tiririca, aquele que não sabe o que faz um deputado federal mas quer chegar lá para saber. O porquê de ambos candidatos atraírem votos de uma boa parcela do eleitorado não me cabe especular. Prefiro que os cientistas políticos se encarreguem disso. Mas o motivo de Lula querer vê-los lá no Congresso, bem, isso não é difícil de entender. Basta lançar um pouquinho de luz ao ramerrão para se dar contra do embuste que está em andamento.

Nada menos do que 54 cadeiras do Senado estão no jogo nestas eleições. Delas, apenas 17 podem se tornar efetivamente  dos partidos da oposição. Nos oito anos de governo Lula, o Senado foi o calcanhar de Aquiles da situação – foi nesta que Casa que a CPMF foi derruba, por exemplo. Mesmo assim, o trator governista foi implacável nas comissões específicas e nas CPIs (quem não se lembra daqueles “erres” inconfundíveis de Ideli Salvati durantes as seções? E da cabeleira balançante de Wellington Salgado?). As alianças construídas por Lula, com efeito, garantiram ao governo um certo conforto. Nesta altura do campeonato, Lula apadrinhar Netinho ganham um sentido todo especial: trata-se da construção de uma base, atenção!, clientelista para atuar num eventual governo Dilma.

Lula volta e meia recorre àquela retórica vigarista de que é preciso mudar a política deste país, alterar a elite que governa o Brasil há 500 anos. Trata-se de uma fala ignorante, típica de gente que limita sua leitura às orelhas dos livros. Basta ler Os donos do Poder, de Raymond Faoro, para perceber que as elites políticas se renovam de tempos em tempos, e não se fixam no poder, como sugere Lula. Basta circular pelo Congresso Nacional para encontrar políticos oriundos de classes políticas e sociais baixas que só agora, devido a um conjunto de fatores que não vale ser detalhado nesta oportunidade, chegaram ao poder. Os ternos mal cortados de alguns deputados querem nos dizer alguma coisa. Faoro discorre sobre a formação política brasileira traçando um paralelo com o que ocorre em Portugal, onde é comum ter o Estado como uma extensão do privado. Com isso, está-se criado o ambiente favorável à criação de relações clientelistas.

Ok, mas e Netinho com isso? Ora, tudo! Ao ir à TV pedir votos para o cara que “chega na Cohab no maior astral”, Lula deixa clara sua intenção de trazer para debaixo de seu guardachuva gente de qualquer categoria em nome de uma coalizão que, mesmo defeituosa do ponto de vista técnico -político, garanta tranqüilidade à sua pupila, caso eleita. E daí que entra Faoro: não me parecerá estranho se Lula recorrer à falsificação da história e usar seu discurso da “elite política que governa este país há 500 anos” para convocar a população a eleger um senador tão, assim, digamos, peculiar como Netinho de Paula.  A periferia também precisa emergir no Senado, não é mesmo?

Quando o assunto é a eleição de Tiririca, aí a coisa começa a fica ainda mais séria. Não pelo o fato de sua candidatura ser mais uma sátira a algo sério, mas, sim, porque sua figura está sendo usada de maneira descarada em nome de um projeto de governo que quer extinguir a oposição no Congresso. Não, não estou sendo apocalíptico. Sou tão-somente arauto da lógica.

Explico

Uma das maiores disputas existentes dentro dos partidos políticos é a briga por números que entrem facilmente na cabeça do eleitor, como 1234, 1313, 45555, e assim vai. E qual é o número de Tiririca? 2222! Sim, se o próprio Tiririca se apresenta como uma brincadeira ao eleitor – e o povo adora uma palhaçada, não é mesmo? -, o PL não está; muito pelo contrário: o partido aposta seriamente na eleição de Tiririca. Não é por menos. Caso essa onda de ridicularia pegue e o candidato amealhar alguns milhares de votos, vão para o Congresso, além dele, mais alguns companheiros do partido, graças ao quociente eleitoral. Foi assim que nas eleições de 2002 Enéas levou consigo para a Câmara mais quatro deputados do Prona sem sequer terem recebido um miserável voto. Trocando em miúdos: votando em Tiririca, está-se votando em mais um monte de candidatos x e y cuja trajetória pode ser semelhante à de Valdemar Costa Neto, também do PL.

Eis aí o aleivosia: o governo apóia candidatos desqualificados, que se usam de suas gracinhas e de seu pagode para atrair votos, e, de lambuja, cria no Congresso um ambiente favorável à aprovação de tudo aquilo que lhe der na telha, inclusive, por que não?, uma possível indicação de José Dirceu para ocupar um cargo em alguma estatal; quem comporá uma possível CPI para investigação sobre os vazamentos da Receita, um projeto de lei que delineie novos horizontes para a liberdade de imprensa…

E encerro fazendo um convite ao leitor: leia novamente o primeiro parágrafo deste post.

LULA BRINDA COM A PATOTA

2 pensamentos sobre “LULA BRINDA COM A PATOTA

  1. Ricardo diz:

    Desculpe-me pelo envio incompleto, mas finalizando:
    É lamentável a alienação do nosso povo, pois numa hora tão importante como essa, o povo se esquece o que está por traz de tudo isso, o Brasil, nossa terra que ao longo desses anos acompanhou adormecido e sem se posicionar de maneira mais dura com relação a perda de nossa usina de gás, o envio de vultuosas contribuições para países necessitados, esquecendo-se que a fome e a miséria aqui também não acabaram, o empréstimos de recursos a países vizinhos para contrução de grandes obras e estradas, esquecendo-se que aqui também estão fazendo falta e mais que poderiam esses recursos gerarem mais empregos aqui mesmo, além é claro de se vangloriarem que hoje além de não devermos mais para o FMI, ainda estamos emprestando recursos ao mesmo, por que não utilizar-mos esses recursos em nossa saúde tão abandonada, por que ao invés de se dispor desses recursos não se aplicar em mais educação para a população. Finalmente o receio do que se fará com os recursos Pretrosal com a base governista sem oposição forte em ambas as casas legislativas.

  2. Ricardo diz:

    Prezado Leandro

    Vejo no seu post toda a minha preocupação com o andamento deste pleito, tenho certeza que Vossa Senhoria esta corretissimo em suas ponderações, e como eleitor compartilho da mesma posição, entendo ainda, que a Justiça eleitoral deveria se posicionar, afinal o nosso Presidente não se encontra afastado de seu cargo para poder entrar a todo momento no horário eleitoral e em comícios pedindo a população votos para quem quer que seja e nossa Justiça Eleitoral acompanhar isso pacificamente, ora maior uso da máquina do que esse não existe, uma vez ou outra o mesmo falar de seu apoio a um ou outro candidato tudo bem, mas, vir a público e dizer que este ou aquele candidato continuará a fazer o que ele espera para o país, ai já é demais.
    Não há como desvincular a figura da pessoa Lula ao Presidente Lula, daí o motivo pelo qual o mesmo deveria ser proibido de aparecer nos horários eleitorais, pois como já disse não se afastou do cargo para fazer a campanha da sua Candidata.
    É lamentável a alienação do nosso povo, pois numa hora tão importante como essa, o povo se esquece o q

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