MANDAR AS LEIS ÀS FAVAS VIROU UM VALOR

O sigilo fiscal de Verônica Serra foi quebrado. Além dela, mais quatro pessoas ligadas ao PSDB também foram vítimas da ilegalidade. Lula se pronunciou sobre o assunto. Disse:

A Receita é uma instituição de muita credibilidade. Não vamos dizer que a Receita perdeu a credibilidade antes de a gente saber o que aconteceu. É importante a gente não precipitar a desconsideração a uma instituição que tem se pautado pela seriedade, pelo sigilo, como se fosse guardiã de todos nós. Vamos saber o que está acontecendo porque não falta gente para tentar causar problema em época eleitoral. Vamos aguardar. Eu confio, confio muito na PF, na Receita, confio muito na seriedade da Receita e da Polícia Federal. Se tiver alguém que praticou um dano, uma falsificação, isso pode ficar certo que virá a público.

A Polícia Federal na qual Lula diz confiar é mesma que até hoje não chegou a conclusão nenhuma sobre o dossiê dos aloprados. Quatro anos se passaram, e ainda não sabemos quem estava por trás da confecção daquela joça. Agora a coisa é mais grave.  Em 2006, o dossiê foi feito pelos envolvidos na Máfia dos Sanguessugas; agora, foi tudo arquitetado tendo a Receita Federal, um órgão público, como braço do petismo. Tudo para atender a demandas político-eleitoreiras. Lula afirma que a Receita tem credibilidade. Ficou provado que não tem! Uma entidade que se submete a interesses de um partido político para prejudicar adversários não tem um pingo de compromisso como guardiã de sigilos garantidos em lei. Estamos de volta a 2006, mas , agora, é bem pior.

Em entrevista ao SBT, Dilma disse repudiar o fato de Serra ter atribuído os vazamentos ao PT, e justificou dizendo que à época – 2009 -, sua campanha ainda nem existia. Mentira deslavada! Todos que acompanham política diariamente sabem que Lula começou a construir sua criatura ainda em 2007.

É com espanto que assisto a tudo isso e noto que não há uma reação à altura por parte da sociedade. O silêncio é preocupante, sinal de um dos aspectos de nosso tempo: a disseminação de certos valores ditados de cima para baixo. O texto que segue abaixo é longo, com um certo alcance teórico. Peço que leiam até o fim. Talvez um pouco de luz seja lançada nas trevas em que vivemos.

***

O PT tomou o poder. Sim, instalou-se nas dependências da República fazendo do Estado uma mera extensão de seu curral. Imiscuiu suas franjas em todos os setores do governo num claro atentado à democracia e à manutenção do Estado de Direito. Lula chegou lá pelo voto do eleitorado. Isso é inquestionável. Questionável é o fato de o demiurgo ter solapado os pilares da ordem em nome de uma causa partidária, cujo projeto implica, em sua essência, a construção de um totalitarismo disfarçado.

Vivemos sob o manto do petismo personificado em Lula. Ninguém melhor para cumprir esse papel que um ex-operário sem formação que chegou à presidência, não é mesmo? O povo adora esse tipo de advento. É como se  a origem de Lula fosse um atenuante e lhe garantisse uma licença especial. Já chego lá.

Lula e o PT seqüestraram para si a história do País. Construíram a teoria de que o Brasil nunca antes existira antes de 2002, como se tudo o que vemos hoje fosse resultado de uma colheita regada tão-somente por Lula e Dilma Rousseff. Conseguiram transformar Fernando Henrique Cardoso no demônio da história brasileira. Por conseguinte, colaram em quaisquer outros candidatos que se apresentem como alternativa ao PT o estigma do fantasma do passado, cuja intenção seria a destruição dos láureos do presente. Em 2006, Alckmin privatizaria o banco que mais financia casas populares no Brasil (Caixa Econômica Federal), e em 2010 Serra acabará com o Bolsa Família e com a zona franca de Manaus. Tudo segue a narrativa petista, assim como todos se submetem às recomendações de remição de um padre.

Hoje, o PT consegue envolver todos em seu minueto da mistificação. Nessa sina de construir presciências com um pé no passado, eles dizem: Serra voltar à Presidência da República seria a volta dos tempos da estagnação. Serra, se eleito, não criará tantos empregos. Mais: todos os programas sociais correriam um sério risco e as obras em curso – como Jirau, Transnordestina, transposição do Rio São Francisco -, sob a gerência do tucanato, estariam seriamente comprometidas. Para embasar o enredo, citam, óbvio FHC. Quem tem um mínimo de honestidade intelectual há de concordar que FHC trabalhou em um cenário econômico totalmente desfavorável; azar esse que Lula não teve. Os petistas, então, fazem ressurgir nos eleitores todos esses anos em que o País passava por ajustes a fim de jogar todo o feito de FHC na lata do lixo. O objetivo é claro: dizer a todos que Serra repetirá o ex-presidente.

Já que a moda é dizer que um repetirá outro, vamos na onda. Assim como Lula se cercou de gente da pior espécie, Dilma também o fará. Seus auxiliares tentarão fraudar a soberania do Congresso Nacional a fim de amealhar feitos pro partido, nem que para isso tenha que se construir um sistema de pagamento de mesadas aos congressistas. Dilma, assim como Lula, não saberá de nada. A filha de Dilma, quem sabe?, pode se tornar uma empresária de sucesso do dia para a noite. E como ninguém é de ferro, nos finais de semana poderá pegar o avião presidencial e levar algumas amigas para um chá no Palácio da Alvorada. Lula mandou às favas seu passado anti-Sarney e se aliou ao que de mais obsoleto há na vida política. Dilma, em um claro sinal de continuidade ao legado lulístico, há de se juntar à turma da modernização do atraso também. Lula comparou presos políticos de Cuba aos criminosos de São Paulo. Dilma também o fará. Se Serra repetiria os índices de crescimento de FHC, Dilma manterá o pífio desempenho de Lula em comparação aos demais emergentes e aos Bric. Dilma também manteria nossa ridícula taxa de investimento em relação ao PIB, que, num ranking mundial, só não é menor que a do Turquemenistão.

Se vale associar as infelicidades de FHC a Serra, o mesmo pode ser feito com Dilma! Estou apenas aplicando a lógica da narrativa petista.

Há, sim, um pouco de stalinismo nisso tudo. No livro Sussurros, a vida privada na Rússia de Stálin, do excelente historiador Orlando Figes, podemos ver em detalhes como essa história da construção do discurso e da distorção da história pode servir para a concretização de um projeto totalitário de governo. Stalin, pra implantar o comunismo, usou a estrutura do Partido Comunista pra disseminar o ódio contra os camponeses e contra qualquer outra pessoa que tivesse alguma espécie de ganho. O motivo: eles auferiam lucros – que eram ínfimos, diga-se de passagem – em detrimento de um bem maior: a classe trabalhadora. Stalin conseguiu difundir um novo conjunto de valores que deveria ser o fio condutor de todos na Rússia. Para entender um pouco mais como funcionava a indústria de construção de ideologias stalinista, segue trecho do livro:

Os líderes bolcheviques instigavam suas fileiras a seguir o exemplo dos revolucionários da Rússia tsarista, que “haviam sacrificado a felicidade pessoal e renunciado às famílias para servir à classe operária”. Eles criaram o culto ao “revolucionário abnegado”, construindo uma nova moralidade na qual todos os antigos mandamentos foram substituídos pelo princípio único de serviço ao Partido e à sua causa.Na visão utópica deles, o ativista revolucionário era um protótipo de uma nova espécie de ser humano – uma “personalidade coletiva” (…), que envolvia o rompimento da concha que envolve a vida privada.

Eis aí como agiu Stálin. A tal da “personalidade coletiva” implicava, compulsoriamente, que todos abrissem mão de seus próprios valores para incorporar o que o Partido ditava. A nuvem stalinista assombrou de tal modo a vida na Rússia que pensar qualquer coisa contra o que estava em curso caracterizaria uma traição à maior causa da história: o triunfo da classe operária. Com os processos de coletivização das propriedades no campo, a fome se alastrou. Reclamar de fome? Nem pensar! Era um mal necessário em prol da causa maior, da classe trabalhadora. A única moral aceitável passou a ser a do Partido. Seus asseclas defendiam essa bandeira custe o que custar. Quem discordava era tido como inimigo do povo! O resultado disso tudo: 200 milhões de pessoas tiveram suas vidas destruídas. Sim, vocês devem ler Sussurros.

Mas e Lula com isso? Ora, é óbvio que não estou sugerindo que Lula coletivizará propriedades, tampouco instalará uma ditadura no país. O objeto comum nessa enredo é o método. Lula é o pai dos pobres. Graças a isso, conseguiu traçar um projeto de governo –que também rege sua sucessão no Planalto– construindo um novo conjunto de valores. Para um certo tipo de gente, falar mal de Lula é um acinte! Na Rússia de Stálin, falar mal do Partido era ir contra um projeto maior: a consolidação do sonho do proletariado; no Brasil de Lula, apontar falcatruas é golpismo. Na Rússia de Stálin, a fome era um “mal necessário”, no Brasil de Lula, o seqüestro das instituições é tolerável, pois nunca antes na história deste país as pessoas, sei lá, comeram tanto iogurte ou se higienizaram tanto com papel higiênico Neve – como se uma coisa compensasse a outra. O PT criou um novo código de valores. Ir contra eles, é, para a turba, ir contra o projeto maior: a melhora no padrão de vida dos brasileiros.

É uma ideologia asquerosa! Mas está em prática, e na maior cara larga. Lula chegou a sugerir que o sigilo dos tucanos foi quebrado a pedido de Aécio Neves, que àquela altura do campeonato ainda tinha chances de sair candidato à Presidência pelo PSDB. Dilma e José Eduardo Cardoso, presidente do PT, entraram com um processo contra José Serra. Sim, eles querem transformar em culpados as vítimas. A inversão de valores ocorre a céu aberto, e todos, com raríssimas exceções, assistem a tudo como se o que estivesse em curso fosse normal, aceitável, tolerável.

Não, não é. Quebra de sigilo fiscal é romper com o que de mais valioso tem um país: sua Constituição. O direito ao sigilo é direito garantido pela Carta. Mas para um certo tipo de gente, as leis podem ficar em segundo plano. Pior: há quem consinta. Como já disse aqui no blog, em nome da estabilidade, permite-se que as regras do jogo democrático sejam quebradas na maior sem-cerimônia. É aquele tipo de gente que acha que uma nova cozinha, uma vaguinha no Prouni ou uma ajudinha mensal podem perdoar a avacalhação geral, como se estabilidade social e ética fossem elementos intercambiáveis.

Sim, são esses valores que estão sendo construídos pelo PT. Um dia, quem sabe – queira Deus que não! – eles conseguem.

MANDAR AS LEIS ÀS FAVAS VIROU UM VALOR

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