ASSIM NÃO, NETINHO! ASSIM, NÃO!

Estava demorando! Mas aconteceu…

Juro pra vocês que no mesmo dia em que escrevi o post sobre o apoio que Lula declarou ao candidato ao Senado Netinho de Paula, havia preparado outro texto em tom de, digamos, vaticínio, cuja síntese era: Netinho se aproveitará de sua condição de negro para construir algum cenário que lhe seja favorável. Optei por não publicar. Eu mesmo cheguei à conclusão de que estaria sendo muito injusto com nosso amigo que “chega na Cohab no maior astral”. Não deu outra! Assistam ao programa eleitoral do cantor. É curto. Leva pouco mais de um minuto.

Pois é. O pretenso senador declara:
Olha, gente, o apoio do Lula é muito importante pra mim. Num comício que a gente fez juntos, Lula disse que uma coisa que ele não tirava da cabeça quando venceu a eleição pra presidente era que ele não podia falhar. Porque se falhasse, nunca mais um operário, um cara do povo, ia chegar lá. Eu e a Dilma conversamos e vimos que também sentimos a mesma coisa, viu! Ela porque o País nunca teve uma mulher presidente. EU, PORQUE SÃO PAULO NUNCA ELEGEU UM SENADOR NEGRO, QUE VEIO DA PERIFERIA! EU TAMBÉM SINTO QUE NÃO POSSO FALHAR!

Vejam que lógica formidável: São Paulo, de fato, nunca elegeu um senador negro. Se porventura o fizer agora – como tudo indica que o fará, segundo últimas pesquisas de intenção de voto ao Senado -, o eleito não poderá deixar a desejar em sua atuação, porque, senão, nunca mais um senador negro seria eleito novamente.

É uma declaração preconceituosa contra todos os negros deste País. Ora, um senador deve ser incorrigível porque ele foi eleito para ser incorrigível, independentemente de sua condição social, econômica ou seja lá o qual for. Negro, branco, pardo, amarelo, rosa, gay, bissexual, gordo, careca, não interessa o que seja, candidatou-se a qualquer cargo eletivo, que se enquadre no jogo democrático e atue dentro do que lhe é determinado pelas leis.

Se se levar a declaração de Netinho de Paula à risca, defrontar-mos-emos com um comportamento tipicamente vigarista do ponto de vista político: o de que um senador da República, se negro, não pode errar porque é negro! E se errar, um discurso de conspiração racial começaria e ganhar coro na sociedade, cujo objetivo seria atribuir o erro do parlamentar à sua cor!

Quando este senhor diz que sente que “não pode falhar”, nota-se claramente um viés rácico em sua fala. Santo Deus! Então quer dizer que o candidato deseja ser um bom senador não porque assim tem que ser, mas somente porque é negro? Então quer dizer que é a sua condição de negro que deve fazê-lo irrepreensível, e não o dever do ofício parlamentar?

Tal declaração me remete a 2008, nas eleições americanas, quando o discurso do politicamente correto ganhou contornos abomináveis, conferindo à candidatura Obama uma espécie de oportunidade da remição americana com seu passado de segregação racial. Não votar em Obama seria racismo! Estariam todos os americanos compelidos a aderir ao democrata, pois somente isso demonstraria efetivamente o fim de uma era de conflitos entre brancos e negros. O discurso foi construído de tal forma que muitos americanos foram às urnas para votar em uma causa, em uma superação, em uma simbologia, e não em um candidato.

Vão querer fazer o mesmo com Netinho. Não votar no “mano”   poderá ser caracterizada uma afronta! Mais: é como se devêssemos nos penalizar se no dia das eleições não dermos nossa contribuição a essa arenga de eleger “o primeiro senador negro de são Paulo”. Vocês sabem, essas histórias do “primeiro negro”, do “primeiro homossexual”, do “primeiro palhaço”, do “primeiro operário”, da “primeira mulher”, etc e tal nunca sensibilizou muito este blogueiro. As qualidades se sobressaem na individualidade da pessoa, não no seu contexto manada, no qual se procura classificar o ser humano em categorias.

ASSIM NÃO, NETINHO! ASSIM, NÃO!

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