UMA QUESTÃO DE MÉTODO

O estratagema petista de inibir a liberdade de imprensa começa a ganhar forma e conteúdo. A repulsa que essa gente tem pelo jornalismo que traz à luz as entranhas de um governo paralelo, o qual opera à margem da legalidade, se delineia em documentos oficiais, em programas partidários, em propostas de governo e, mais recentemente – e com mais assiduidade – nos discursos do presidente da República.

O Lula palanqueiro não deixa de ser o Lula chefe de Estado. O Lula com a camisa para fora da calça e com o suor escorrendo pelas axilas em um comício não deixa de ser o Lula cujos trinques se vêem em assembléias de governo. Se o demiurgo tem por hábito tornar indistinguíveis suas funções institucionais de seus afazeres partidários, não há por que nos fazermos de cândidos extremados ao ponto de tentar separar o que é simples palavrório do que é método. Já chego lá.

Amanhã, quinta-feira, uma manifestação “contra o golpismo midiático” será realizada no centro de São Paulo. O comunicado da realização do evento está no site do PT. Lá, lemos: “As centrais sindicais, movimentos sociais, partidos políticos e lideranças de vários setores, com apoio do movimento de blogueiros progressistas, convocam para a realização de um Ato Público contra a baixaria nas eleições e contra o golpe midiático que têm como objetivo forçar a ida do candidato do PSDB ao segundo turno”.

O que eles chamam de golpe midiático, é óbvio, são as últimas notícias dos escarcéus ocorridos na Casa Civil – aquele ministério tão perto da Presidência da República, mas tão longe da República! A nota segue naquele tom sindicalista cuja egrégora, quase sempre, é a estupidez. Farei algumas intervenções em vermelho.

COMPAREÇA AO ATO EM DEFESA DA DEMOCRACIA!
CONTRA A BAIXARIA NAS ELEIÇÕES!
CONTRA O GOLPISMO MIDIÁTICO!

Na reta final da eleição, a campanha presidencial no Brasil enveredou por um caminho perigoso. Não se discutem mais os reais problemas do Brasil, nem os programas dos candidatos para desenvolver o país e para garantir maior justiça social. Incitada pela velha mídia, o que se nota é uma onda de baixarias, de denúncias sem provas, que insiste na “presunção da culpa”, numa afronta à Constituição que fixa a “presunção da inocência”.
Engraçado que nunca antes na história deste país “denúncias sem provas” derrubaram quatro pessoas da Casa Civil, inclusive sua ministra, e um diretor dos Correios em apenas duas semanas, não é mesmo? Se o que se tem noticiado até agora são mentiras, o que será que acontecerá quando as verdades começarem a ser publicadas?

Como num jogo combinado, as manchetes da velha mídia viram peças de campanha no programa de TV do candidato das forças conservadoras.
Quem o PT pensa que é para condenar o uso de manchetes de jornais em campanhas partidárias? O próprio Mercadante faz isso em seus programas. Marta Suplicy fez o mesmo quando disputava a reeleição à Prefeitura de São Paulo.

Essa manipulação grosseira objetiva castrar o voto popular e tem como objetivo secundário deslegitimar as instituições democráticas a duras penas construídas no Brasil. A onda de baixarias, que visa forçar a ida de José Serra ao segundo turno, tende a crescer nos últimos dias da campanha. Os boatos que circulam nas redações e nos bastidores das campanhas são preocupantes e indicam que o jogo sujo vai ganhar ainda mais peso.
Os incautos podem achar que o que se quer é precaver a população: “olhem bem, essas denúncias são todas orquestradas para que Serra vá ao segundo turno”; mas não é nada disso. O que eles querem é liquidar a fatura logo no primeiro turno, mesmo que para isso recorram à vigarice intelectual. O método é simples: 1) surgem as denúncias; 2) em vez de se defenderem, partem para o ataque de quem denunciou; 3) com isso, crêem, jogam a reputação dos jornais e revistas na lata do lixo; 4) uma vez estigmatizada a “mídia”, eles saem sem máculas do certame.

Conduzida pela velha mídia, que nos últimos anos se transformou em autêntico partido político conservador, essa ofensiva antidemocrática precisa ser barrada. No comando da ofensiva estão grupos de comunicação que – pelo apoio ao golpe de 64 e à ditadura militar – já mostraram seu desapreço pela democracia.
Se o referencial de democracia desses valentes se refletiu no Plano Nacional de Direitos Humanos III, o desapreço é todo deles.

É por isso que centrais sindicais, movimentos sociais, partidos políticos e personalidades das mais variadas origens realizarão – com apoio do movimento de blogueiros progressistas – um ato em defesa da democracia.
Besteira! Não tem nada de defesa dos valores democráticos nesse ardil. O que eles fazem é usar os valores da democracia para solapá-los e, disso, tirarem proveito próprio. A quem mais interessa uma imprensa silenciosa?

O petismo não comunga com liberdade de imprensa. Não sou eu quem diz isso, mas sim a própria história do partido – ou eu minto ao dizer que o PT emitiu nota de apoio a Hugo Chávez quando o bochechudo fechou a RCTV? José Dirceu disse na Bahia que um dos infortúnios do Brasil é o excesso de liberdade de imprensa (leia: JOSÉ DIRCEU: NOSSO MAL É MUITA LIBERDADE DE IMPRENSA). Na mesma ocasião, declarou: “a eleição da Dilma é mais importante do que a eleição do Lula porque é a eleição do projeto político, porque a Dilma nos representa”. Pois é. Eu antevi ainda no começo deste ano que num eventual governo Dilma imperariam as vontades do PT, e não as dela (leia: QUEREM COMPARAR GOVERNOS? ENTÃO VAMOS LÁ). A, como diria André Singer, autonomia bonapartista de Lula não é conferida a Dilma, o que a faz mais refém dos radicais do PT do que Lula.

Este é o método do PT e que já está em andamento: menos imprensa, mais PT do que Dilma e demonização de todos que não se enquadram nesse projeto. Corolário: menos democracia.

UMA QUESTÃO DE MÉTODO

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