METAMORFOSE

Se restava alguma dúvida de que Dilma Rousseff não existe, a gota d’água que pôs fim nesta suspeita caiu na noite de ontem, no debate promovido pela rede Bandeirantes de televisão.

Nos certames do primeiro turno, vimos uma Dilma serena, com uma cara típica de quem estava a apreciar a brisa do mar. Quando tinha a oportunidade de perguntar, optava por questionar Plínio ou Marina. Àquelas alturas do campeonato, os instituto de pesquisa garantiam-lhe vitória com folga ainda no primeiro turno. Nos últimos dias da campanha antes do 3 de outubro, o que vimos foi a turma petista adotar ares de afoiteza, subestimando a vontade do eleitor. Lula subiu em palanques país afora exaltando a verdadeira opinião pública: a das ruas, carimbando na imprensa, que noticiava os escarcéus da Casa Civil, um labéu essencialmente eversivo. Na onda de 80% de popularidade, o demiurgo se auto-conferiu o poder de mandatário da vontade alheia, chegando a solicitar ao de Santa Catarina que extirpassem o DEM da política, por exemplo. A resposta veio das urnas. E elas nos apontam alguns corolários:

– instituto de pesquisa não ganha eleição;
– Lula, ao contrário do que cria, não manda no voto do eleitor;
– seus 450% de popularidade não legitimam sua criatura;
– o feel good factor não é elemento exclusivo na hora do voto;
– e o povo de Santa Catarina quer o DEM na política. Raimundo Colombo venceu.

Com um cenário tão favorável à Dilma, não havia, até então, motivo para esboçar agressividade em seus discursos. Passada a lua-de-mel proporcionada por gigantes como Marcos Coimbra e Ricardo Guedes, o segundo turno bateu às portas. E os petistas demonstraram-se, vejam que coisa, decepcionados. A certeza da vitória no primeiro turno era tamanha que a festa em Brasília estava até armada.

Ainda não sei quem ganhará estas eleições. Não me atrevo a palpitar sobre o que nem quatro institutos lograram êxito em fazer. Justiça seja feita ao Datafolha, o único que conseguiu resultados mais próximos da realidade. E foi justamente este instituto que trouxe no fim de semana passado a primeira pesquisa de intenção de voto para Presidência da República. O que se verifica nesse levantamento é uma expressiva subida de Serra e uma considerável queda de Dilma. Em 24 de agosto, a petista tinha 55% das intenções de voto contra 36% de Serra. Considerando os limites da margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, podemos ter Dilma com 53% (- 2) e Serra com 38% (+ 2), diferença de 15 pontos percentuais. Depois desta, mais oitos pesquisas foram feitas. Os últimos números trazem a petista com 48% (com a margem de erro, tem entre 50% e 46%) e o tucano com 41% (com a margem, tem entre 39% e 43%). Ou seja, o que era 15 pontos de diferença, hoje pode ser apenas três!

O DEBATE
Frente a esse novo cenário – improvável segundo os desenhos que tínhamos até pouco tempo atrás – foi que Dilma e Serra se enfrentaram. Quem abriu o bloco de pergunta entre candidatos foi Dilma. Agressiva e com uma cara de botar medo em Nero, acusou Serra de promover uma campanha suja. Aproveitou para trazer à tona um processo em que o tucano é réu por calúnia e difamação. O caso ainda está em andamento. Mas nunca é demais lembrar que, só neste ano, Lula já foi condenado sete vezes pela Justiça Eleitoral. Adiante… Aquilo Dilma chama de campanha suja nada mais é do que as verdades que têm surgido na rede sobre sua dúbia posição sobre o aborto e sobre as promiscuidades dentro da Casa Civil protagonizadas por Erenice Guerra, mulher extrema confiança de Dilma segundo… Dilma!

A estratégia adotada por esta senhora ficou clara logo na sua primeira pergunta a Serra, quando afirmou que a “regulamentação do aborto” foi instituída por ele quando ministro da Saúde. A afirmação é verdadeira, mas é de uma vigarice intelectual sem tamanho, pois o objetivo não é esclarecer, mas obscurecer o real sentido da “regulamentação”. A lei que regula o aborto no Brasil – permitindo a interrupção da gravidez em casos de estupro e quando a vida da mãe corre risco –, foi criada em 1940, dois anos antes do nascimento de José Serra. O que o tucano fez quando ministro foi simplesmente fazer valer a lei, determinando à rede de hospitais do SUS que prestassem atendimento às mães que abortassem ou por risco de morte ou por estupro. Não é um escândalo? Dilma cobra Serra por ele ter cumprido… a lei! É mesmo um acinte. O que a candidata quis foi dividir com Serra o ônus da polêmica do aborto. Impossível! Serra nunca defendeu e nem tomou nenhuma medida que visasse a descriminalização de nada. Quem o fez foi Dilma, que defendeu essa idéia publicamente em 2007 em uma sabatina da Folha de S.Paulo. Vejam o vídeo abaixo.

Vendo fustigada sua investida de jogar Serra e aborto na mesma bacia das almas, Dilma optou por qualifica-lo de “mil caras”. Não colou também. Afinal, não é Serra quem ora se diz favorável ao aborto e ora contra. Não é Serra que ora diz acreditar em Deus e ora diz crer “numa força superior”, como declarou a petista.

Com as duas primeiras estratégias minguadas, restou ressuscitar o tema das privatizações, colocando em questão a capitalização da Petrobras. Serra respondeu: “é só chegar a campanha eleitoral e o PT vem sempre com essa história. No caso de venda de empresas públicas, eles reclama que venderam ações no governo passado, mas não falam do Banco do Brasil, que colocaram em Nova York. Quanto à Petrobrás, é lembrar que o José Eduardo Dutra [presidente do PT] elogiou a lei aprovada pelo FHC”. Da mesma maneira que o Antonio Palocci se derramou em elogios para a política econômica”.             Há uma coisa curiosa nas críticas do PT às privatizações. Se as condenam tanto assim, por que cargas d’água não fizeram sequer uma auditoria nos processos de privatizações conduzidos por FHC?

De resto, uma onda de inverdades proferidas por Dilma foram postas por terra. A petista criticou a segurança em São Paulo e usou o Rio de Janeiro como exemplo. Se ela pretende copiar o modelo carioca para todo o País, é bom começarmos a nos preparar para um cavalar aumento da violência: o Rio de Janeiro registra o triplo do índice de homicídios de São Paulo. As Unidades Pacificadoras presentes nos morros cariocas diminuiu sim o domínio do tráfico, no entanto, não houve nenhum aumento no número de presos. Cabe perguntar: aonde vão esses traficantes, então?

Se o primeiro debate dá a tônica da campanha, não resta dúvidas de como se comportará o PT até o dia 31 de outubro. Foi Dilma quem se disse favorável ao aborto e, agora, por pura conveniência, mudou o discurso. Todavia, doravante, tratarão de unir Serra à imagem de quem apóia o aborto. Sim, as privatizações deram certo e foram chave para a modernização e barateamento do nosso sistema de telefonia, mas os petistas tratarão de estigmatizar as ações de FHC. Mais: trarão à baila mentiras, falarão que Serra privatizará o pré-sal e a Petrobras. É bom o PSDB não cair no ardil tal qual como foi em 2006.

Vamos ver como se comportarão os candidatos nos demais debates. Serra mostrou-se como sempre. Já Dilma deu a prova cabal de que não existe, comporta-se como querem os membros de sua campanha. Ontem, dura, agressiva, mostrou uma recaída. Parecia até ela mesma.

METAMORFOSE

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s