A CANALHICE DE UM PODER CONSTITUÍDO

Eles (vocês sabem quem) estão assanhadíssimos. Sempre que se veem encurralados por fatos que lhes desmascaram, passam a buscar no éter, na esquina, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê quaisquer ônus que possam jogar no lombo dos adversários com o intuito de dizer: “estão vendo como somos todos iguais?”. Nivelar por baixo é o mote dessa gente.

Bastou Dilma Rousseff ser alvo de uma bexiga d’água no Paraná para que o PT igualasse o episódio à agressão sofrida por José Serra no Rio de Janeiro. Há quem caia embuste. Eu não caio. Quem jogou a bexiga contra Dilma agia só, movido pela sua própria vontade, sem estar aparelhado por influências metafísicas superiores. Já quem jogou objetos contra José Serra não foi uma, mas foram várias pessoas mobilizadas pelos setores sindicalistas do PT. O tucano teve sua passagem obstruída pela turma do deputado estadual derrotado nas urnas Sandro Mata-Mosquitos (PT-RJ). Ele movimentou sua base para hostilizar a campanha de Serra. Eis a diferença: quem convoca tropa para agredir o adversário é o PT, e não os outros.

Mas há algo de ainda mais estarrecedor nesse episódio: a participação do Presidente da República na consolidação de uma farsa cuja contribuição implica nada mais nada menos do que a ruinação dos alicerces da democracia do Estado. A farsa: Serra teria sido feito um drama tremendo só porque foi atingido por uma bolinha de papel. O fato: Serra foi alvejado não somente por uma bolinha de papel, mas por outros objetos também, tanto que recebeu recomendação médica para que entrasse em repouso. Dilma dizer que Serra “exagerou” na dose, tudo bem. Apesar de a afirmação ser mentira, a candidata é tão-somente candidata. Já quando Lula o faz, aí a coisa complica, pois este senhor carrega no ombro o peso de uma das mais altas instituições da República. Assistam abaixo à matéria veiculada ontem no Jornal da Globo. Volto depois.


Vale a pena transcrever a fala do presidente. Chamo a atenção para dois termos em negrito:

“Venderam o dia inteiro que esse homem tinha sido agredido. Uma mentira mais grave do que a mentira daquele goleiro Rojas, do Chile, que no Maracanã caiu e fingiu que um foguete tinha machucado ele. Ou seja, primeiro bateu uma bola de papel na cabeça do candidato. Ele nem deu toque para a bola, porque ele olhou pro chão e continuou andando. Vinte minutos depois, esse cidadão recebe um telefonema e, a partir do telefonema, ele bota a mão na cabeça e vai ser atendido por um médico que foi secretário da Saúde do governo do prefeito César Maia, no Rio de Janeiro, e foi o diretor do INCA quando o Serra foi ministro da Saúde”.

Lula está a quase oito anos como presidente da República e ainda não aprendeu a exercer com compostura a liturgia do cargo que ocupa. Esse senhor, palanqueiro por excelência, vem a público e se refere ao candidato da oposição como “esse homem” e “esse sujeito”. Baseado em imagens veiculadas pelo SBT e pela Record, foi além: estigmatizou como mentira e fingimento a imagem de Serra com a mão na cabeça imediatamente após ter sido atingido por um segundo objeto, como ficou claro na reportagem do Jornal da Globo. “Ah, mas até aquele momento ele não tinha conhecimento de tudo o que ocorrera”. É mesmo? Mas agora tem. Pergunto: Lula virá a público se retratar ou manterá incólumes suas aleivosias?

É claro que o presidente da República não voltará atrás no que disse. Perde a democracia. Sua fala, irresponsável em todos os sentidos, foi proferida no auge de uma disputa eleitoral contra um dos candidatos à sua sucessão. Na condição de presidente, Lula é representante não só de seus asseclas e de seus contumazes lambe-botas, mas também daqueles que não vão com sua cara, daqueles que repudiam sua conduta, daqueles 4% que avaliam seu governo como péssimo, e, vejam que coisa, dos candidatos da oposição. Seu achaque, por conseguinte, é conjuntural, não pessoal. O que estamos assistindo nesses últimos tempos é a um presidente eleito democraticamente solapando o regime pelo qual chegou ao poder em nome de suas próprias aspirações. Ao reduzir Serra à condição de “mentiroso”, o recado passado é o da apologia à aniquilação do adversário por meios institucionais.

Não, Lula não se referiu a Serra dessa maneira por mero descuido. Está em seu DNA o anseio por destruir o “inimigo” – sim, é assim que a oposição é classificada por essa gente. Existir oposição ao governo é um dos fatos que garantem o exercício da democracia. E é contra isso que Lula  vocifera. A divergência ao PT não pode existir; já as divergências que o PT tem em relação aos demais podem, afinal, elas são oficiais, são legais. São as dissensões de um poder constituído: o da Presidência da República.

E é em meio esse turbilhão de atentados à democracia que vemos muita gente defendendo a idéia de que, sob Lula, o Brasil vive uma nova era democrática. E vive mesmo. Nunca antes na história deste país a democracia foi tão minada. Mas isso é assunto pra um outro post.

A CANALHICE DE UM PODER CONSTITUÍDO

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