ALÉM DE PACIFICAR, PRENDER É PRECISO

Sérgio Cabral, nos últimos dois anos, mostrou-se um eficiente marqueteiro de si mesmo. A estrofe de seu poema são as UPPs, que ocupam, por motivos óbvios, destaque nas imprensas nacional e internacional. Com a promessa de pacificar terrenos que vinham atém então vivendo sob o jugo do tráfico, as Unidades de Polícia Pacificadora instalaram-se nessas regiões e levaram tranqüilidade aos moradores. No que se propunha a fazer, essas UPPs foram eficientes: pacificaram. Mas só. E pronto, bastou isso para que essa medida fosse louvada em todo País como ação vitoriosa de Sérgio Cabral. Dilma Rousseff, inclusive, prometeu expandir esse modelo de segurança para todo o Brasil.

Como bem sabem os que me lêem, discordar da corrente não me causa nenhum constrangimento. Costumo dizer que se Virgílio não vem até mim, dirijo-me para o diabo só. “Não quero que ninguém me pegue pelo braço”, já dizia Paulo Francis. Se essas UPPs são o supra-sumo das medidas de combate ao crime, poder-se-ia pregar aos quatro cantos que as cadeias não são mais necessárias. Se tão-somente pacificar territórios é o teto das ações de segurança, então que joguemos no lixo o Código Penal. Pra que medidas corretivas? Fiquemos apenas com as preventivas. Eis as sínteses de corolários nos quais podemos chegar se se seguir a lógica-Sérgio-Cabral-de-combate-ao-crime. A impressão latente é a de que uma vez instaurada a paz nos morros, os traficantes submeter-se-iam imediatamente à nova realidade lhes tolhida.

Os morros foram tomados pela polícia? Sim! O tráfico perdeu espaço? Nem tanto! Os moradores passaram a se sentir mais seguros? Sim! O Estado voltou a ditar as regras? Não! As UPPs foram um sucesso? Não! Logo quando começaram os ataques, não faltaram bocós atribuindo os vandalismo ao, atenção, sucesso da política de segurança carioca. Isso mesmo: bandido incendiando carros e transportes públicos seria uma espécie de certificado de qualidade. Ficamos assim, então: quanto mais fogo na cidade, mais méritos tem sua segurança. Santo Deus!

Uma pergunta ficou no ar durante todo o processo de mistificação gradual ao qual formos submetidos: se a PM vai ao morro e coíbe a ação de traficantes, aonde foram parar, então, esses benditos criminosos? No período em que as UPPs se expandiram, o número de prisões no Estado do Rio de Janeiro não aumentou. Não há como dissociar prisões de resgate de territórios. Se traficantes perdem espaço mas não vão à cadeia, há de se esperar  que dêem início a ações alternativas. Nunca é bom subestimar essa gente. E deu no que deu: dos morros, o terror invadiu o asfalto. Ações coordenadas resultaram em mais de 100 carros incendiados, e mais de 30 mortes foram registradas. Arrastões começaram nas principais avenidas, disseminando pânico em diversas partes da cidade. Sim, os atos terroristas ocorridos na última semana nada mais são do que o resultado da negligência do sistema das UPPs, e não de um êxito, metafísico.

Segundo o último balanço divulgado pela Secretaria de Segurança Pública do Rio, desde domingo passado até às 11h30 de ontem, foram presas 88 pessoas e 130 foram detidas; 104 armas e 16 granadas foram apreendidas. Ótimo! Curioso é notar que tais números tenham sido registrados somente após a reação dos marginais às UPPs. Por que essas apreensões não aconteceram antes? Se as forças pacificadoras no alto dos morros têm competência para pacificar, é preciso também ter para prender – o que não aconteceu. E só ocorre agora, vejam que ironia, graças aos traficantes, que reagiram à perda de espaço em seus “domínios”.

Todos foram ludibriados pelos discursos esperançosos de Sérgio Cabral. Arrebatou-se a população com uma arenga mistificadora: de que o Estado estava finalmente retomando o controle. Mentira! Bandido sob controle do Estado é bandido na cadeia. Um exemplo disso é o Estado de São Paulo, cuja população carcerária é de 399,80 por 100 mil habitantes. No Rio, essa relação é de 1,66 por 100 mil, atrás de estados como Minas Gerais e Paraná. Aqui em São Paulo, o índice de homicídios é de 9 por 100 mil habitantes (um dos mais baixos do País); no Rio, é de 34, 36 por 100 mil – quase o quádruplo dos números paulistas. Frente a isso, é inegável que uma das melhores medidas contra violência ainda é colocar bandido atrás das grades, e não somente “pacificar”.

Não, não sou contra as UPPs. Sou contra apenas que tenham sido usadas de forma tão errada e como mote da produção de embustes. “Ah, mas você não é nenhum especialista em segurança para criticá-las”. Não, não sou mesmo. E é justamente isso que me espanta: um leigo jogando luz sobre um prisma tão óbvio.

ALÉM DE PACIFICAR, PRENDER É PRECISO

Por dentro do blog

Na semana que vem, a partir do dia 28, voltarei a postar com a regularidade costumeira.

Até lá.

Por dentro do blog

PRATO CHEIO PRA OPOSIÇÃO

A oposição no Brasil, protagonizada pelos partidos PSDB, DEM e PPS, é uma não-oposição. Deputados federais e senadores eleitos para cumprir a função de intensa vigilância e cobrança do governo que se omitem frente a essa obrigação são coniventes com o que se pratica a soldo na máquina pública, inclusive com o que há de execrável. 44% do eleitorado nacional (45 milhões de eleitores) disseram um não a Lula. Esses eleitores cujo voto de confiança foi em Serra mandaram o sinal de que não aquiescem com tudo o que faz quem está no poder. 52% do eleitorado será governado pelos partidos de oposição nos Estados. São cifras pra lá de consideráveis. São números que desenham uma corrente. São dados que devem ser levados em consideração. Mais do que isso: não são apenas estatísticas etéreas. Por trás desse emaranhado numérico há pessoas, gente comum, gente que acredita sim numa outra via de poder, num outro consórcio de governo –; e são cidadãos cuja única via de fazê-lo é confiar seu voto em quem, em tese, está no Congresso para confrontar, como diz a corrente comum, “tudo isso que está aí”.

Repertório para requerer explicações do governo nos próximos tempos a oposição já tem de sobra. Na mesma semana em que Dilma foi eleita, começaram a pipocar os detalhes de uma arquitetura cafajeste: a volta da cobrança compulsória de contribuição para financiar a saúde (ler post abaixo). Na semana seguinte, Franklin Martins renunciou de vez das meias-palavras e declarou de vez que irá até as últimas conseqüências para aprovar o projeto de regulação da imprensa (sei lá por que, eles adoram usar o termo “mídia”, que é errado). O Enem, pela segunda vez consecutiva, revelou a inépcia de Fernando Haddad – o ministro fofinho do governo – para gerenciar o um exame de tamanha importância. Lula, primeiramente, descartava a hipótese de ter havido erros na prova; em Seul, como lhe é típico, mudou o discurso, e admitiu que um segundo Enem pode ser realizado. O TCU apontou uma série de irregularidades em 32 obras tocadas pelo governo federal. O prejuízo estimado com os  sobrepreços chegaram a R$ 2,7 bilhões. Detalhe: 18 das 32 obras são do PAC, cuja mãe é a Dilma, conforme nos foi enfiado goela abaixo durante a campanha eleitoral. A Caixa Econômica Federal comprou 49% das ações do banco Panamericano, instituição praticamente quebrada.

São fatos que obrigatoriamente devem estar na pauta para cobrar explicações do governo. Por razões políticas? Sim, pode ser. Mas há uma razão muito mais forte: a oposição deve cumprir seu papel. Nunca antes na história deste país a democracia ficou tão oca por falta de discurso alternativo a quem está no poder. Os escândalos listados acima não podem passar incólumes. Há uma sociedade que merece esclarecimentos, e, para tê-los, é indispensável que o PSDB, DEM e PPS abram mão da covardia que incorporaram durante os anos Lula. Por medo ou por falta de competência, sei lá, os representantes dos brasileiros que disseram NÃO a Dilma têm tido uma atuação ignominiosa no âmbito das atribuições democráticas às quais foram confiados. Parte dos tucanos chegou a propor uma oposição “propositiva”, sem grandes confrontamentos com a base governista. É o fim do mundo!

Em qualquer democracia que se preze, a oposição tem um papel combativo, austero. Aqui no Brasil, não. Tucamos e demistas assumem um papel de coadjuvantes na atuação política, o que, indiretamente, implica menos democracia e menos representatividade.  Em oito anos de governo Lula, os eleitos para fiscalizar quem estava no poder exerceram com ímpar perfeição o papel da mediocridade. Tal acunha virou idiossincrática. Lamentável de todos os pontos de vista que eleitos para contestar adiram ao silêncio, à insignificância. A oposição renunciou ao seu papel de forma ignominiosa. À míngua ficaram milhões de brasileiros cuja voz no Congresso mostrou-se rouca, diminuta.

Que nos próximos anos os escarcéus – como os listados acima – não fiquem dependendo de parlamentares medíocres para serem trazidos à luz. Que o PSDB, o DEM e o PPS empunhem o pendão lhes garantido por 45 milhões de eleitores e arrostem o governo e suas mazelas com a destemidez inerente às oposições.

 

PRATO CHEIO PRA OPOSIÇÃO

Sim, eu tenho preconceito

Na Folha de hoje, Leandro Narloch publica um artigo irretocável. Em tempos de politicamente correto, vale a pena a leitura.

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Logo depois de anunciada a vitória de Dilma Rousseff, pingaram comentários preconceituosos na internet contra os nordestinos, grupo que garantiu a vitória da candidata petista nas eleições.
A devida reação veio no dia seguinte: a expressão “orgulho de ser nordestino” passou a segunda-feira como uma das mais escritas no microblog Twitter.
O racismo das primeiras mensagens é, obviamente, estúpido e reprovável. Não se pode dizer o mesmo de outro tipo de preconceito -aquele relacionado não à origem ou aos traços físicos dos cidadãos, mas ao modo como as pessoas pensam e votam. Nesse caso, eu preciso admitir: sim, eu tenho preconceito.
Eu tenho preconceito contra os cidadãos que nem sequer sabiam, dois meses antes da eleição, quem eram os candidatos a presidente. No fim de julho, antes de o horário eleitoral começar, as pesquisas espontâneas (aquela em que o entrevistador não mostra o nome dos candidatos) tinham percentual de acerto de 45%. Os outros 55% não sabiam dizer o nome dos concorrentes. Isso depois de jornais e canais de TV divulgarem diariamente a agenda dos presidenciáveis.
É interessante imaginar a postura desse cidadão diante dos entrevistadores. Vem à mente uma espécie de Homer Simpson verde e amarelo, soltando monossílabos enquanto coça a barriga: “Eu… hum… não sei… hum… o que você… hum… está falando”. Foi gente assim, de todas as regiões do país, que decidiu a eleição.
Tampouco simpatizo com quem tem graves deficiências educacionais e se mostra contente com isso e apto a decidir os rumos do país.
São sujeitos que não se dão conta de contradições básicas de raciocínio: são a favor do corte de impostos e do aumento dos gastos do Estado; reprovam o aborto, mas acham que as mulheres que tentam interromper a gravidez não devem ser presas; são contra a privatização, mas não largam o terceiro celular dos últimos dois anos. “Olha, hum… tem até câmera!”.
Para gente assim, a vergonha é uma característica redentora; o orgulho é patético. Abster-se do voto, como fizeram cerca de 20% de brasileiros, é, nesse caso, um requisito ético. Também seria ótimo não precisar conviver com os 30% de eleitores que, segundo o Datafolha, não se lembravam, duas semanas depois da eleição, em quem tinham votado para deputado.
Não estou disposto a adotar uma postura relativista e entender esses indivíduos. Prefiro discriminá-los. Eu tenho preconceito contra quem adere ao “rouba, mas faz”, sejam esses feitos grandes obras urbanas ou conquistas econômicas.
Contra quem se vale de um marketing da pobreza e culpa os outros (geralmente as potências mundiais, os “coronéis”, os grandes empresários) por seus problemas. Como é preciso conviver com opiniões diferentes, eu faço um tremendo esforço para não prejulgar quem ainda defende Cuba e acredita em mitos marxistas que tornariam possível a existência de um “candidato dos pobres” contra um “candidato dos ricos”.
Afinal, se há alguma receita testada e aprovada contra a pobreza, uma feliz receita que salvou milhões de pessoas da miséria nas últimas décadas, é aquela que considera a melhor ajuda aos pobres a atitude de facilitar a vida dos criadores de riqueza.
É o caso do Chile e de Cingapura, onde a abertura da economia e a extinção de taxas e impostos fizeram bem tanto aos ricos quanto aos pobres. Não é o caso da Venezuela e da Bolívia.
Por fim, eu nutro um declarado e saboroso preconceito contra quem insiste em pregar o orgulho de sua origem. Uma das atitudes mais nobres que alguém pode tomar é negar suas próprias raízes e reavaliá-las com equilíbrio, percebendo o que há nelas de louvável e perverso. Quem precisa de raiz é árvore.

Sim, eu tenho preconceito

ODINHO DE LULA PATROCINA RETORNO DA CMPF, SIM

Dilma não conseguiu ser ela mesma durante a campanha eleitoral. Se tivesse ido à peleja sem despir-se do que de fato era, provavelmente não lograria sucesso nas urnas. Cá entre nós, tecnocratas são chatos mesmo! Com aquele jeitão de gerentona na fase pré-aposentadoria e com os fios curtos desencapados sempre à vista, a então ministra da Casa Civil não abria mão de recorrer à austeridade toda vez que confrontada. Não, não a condeno pela postura que tinha (até porque quem me conhece sabe como me porto em uma boa briga de idéias, hehe), apenas jogo luz no fato de sua metamorfose.

Naquela fase da luta pelos votos, a então candidata comprometera-se com a responsabilidade fiscal, o que motivou o mercado a crer que Dilma adotaria uma postura com forte tendência à maior controle sobre os gastos públicos. À época, a petista até acenara com uma redução da carga tributária. Agora, passada a fase em que não é mais necessário mais se apresentar ao eleitorado na condição de pedinte, Dilma e sua claque simpatizam com a volta da CPMF. Claro que não é a “C-P-M-F”. Agora é CSS (Contribuição Social da Saúde). Mas isso é o de menos. Muda-se o nome, mas o saque compulsório do bolso do contribuinte é o mesmo.

Essa história de ressuscitar um imposto já derrubado pelo Congresso traz em suas entranhas mais do submundo da política do que podemos imaginar. Dilma, naquela entrevista concedida ao lado de Lula na quinta-feira passada, onerou os governadores pela idéia da volta de um imposto para financiar a saúde. “Não pretendo enviar um projeto recriando a CPMF, mas tenho visto mobilização de governadores nessa direção”, disse. Laranjas! Essa é a palavra que define com perfeição os governadores nessa história. Vejam se não é mesmo uma coisa incrível: passam-se três dias depois das eleições e, do nada, uma metafísica influente arrebata os governadores e lhes martela no juízo a necessidade de recriar a CPMF. E tudo assim, numa sincronização perfeita, com raciocínios alinhados e vozes uníssonas em prol de uma causa. “Ah, mas alguns governadores vieram a público mesmo defender mais dinheiro pra Saúde”. É mesmo? Cid Gomes, eleito no Ceará pelo PSB, foi quem colocou a boca no trombone. Depois disso, como um efeito cascata, vimos mais e mais gente aderir a idéia. “Ah, mas até o Anastasia simpatiza com isso”. Sim, é verdade. Ouso dizer que sua falta de tato político o fez pender para o lado mais óbvio da coisa: que a saúde precisa de mais dinheiro. Tolice! A saúde precisa de mais dinheiro? Ora, a segurança, a cultura, a agricultura, a educação também têm a mesma carência. E como ficamos?

Desviei-me um pouco do mote. Retomo.

Por trás das articulações da volta do imposto da saúde, há um fator essencialmente vigarista cuja germinação teve início em 2007, no Senado. Foi lá que Lula sofreu sua maior derrota, uma humilhação imperdoável em seus oito anos de mandato e que até hoje o faz despertar aquele extinto animalesco: a oposição – com uma mãozinha de alguns descontentes da base aliada – derrubou a CPMF. À época, nos bastidores, conversava-se sobre uma possível intenção de Lula de concorrer ao terceiro mandato. Para isso, uma emenda teria de ser enviada ao Congresso para ser apreciada e votada. Com a derrubada da CPMF, uma coisa ficou clara: na Câmara, a tal emenda que garantiria a Lula o direito de disputar mais uma eleição poderia passar, mas no Senado não passaria. Foi o sinal de que Lula pode muita coisa, mas não pode tudo. E, como sabemos, qualquer um que submete a democracia às suas aspirações não engole tão facilmente uma derrota… democrática!

Se no governo Dilma a CPMF voltar, para Lula, isso será uma vitória. Para ele, a vingança tem sabor de mel. A oposição raivosa – como ele adora estigmatiza-la – que fique com o sabor do fel.

Aventar a possibilidade do ressurgimento de mais um imposto é fazer quem votou em Dilma Rousseff de besta. Como do PT espero qualquer coisa, não me surpreendo, o que não me faz ficar boquiaberto com tal especulação. Essencialmente, os argumentos pró  retorno do imposto tornam-se risíveis quando confrontados com algumas realidades:

– conforme revelou o Estadão, metade dos estados cujos governadores defendem a volta do imposto não investe 12% dos recursos na saúde, como determina o Conselho Nacional de Saúde;
– a arrecadação do Tesouro em 2003 era de 21% da renda nacional. Em 2011, deverá ser de 24%;
– a antiga CPMF rendia em torno de 1,4% do PIB.
– ou seja, a arrecadação do governo cresceu 2 CPMFs, o que deve ria suprir com folga os recursos do antigo imposto.

E por que o governo defende com tanto entusiasmo a volta da contribuição? Simples: o dinheiro que poderia ser usado para a saúde foi sugado pela má gastança pública, fruto do populismo incurável do senhor Luis Inácio Lula da Silva. O Bolsa Família e os demais programas de transferência de renda absorveram a maior partes das receitas do montante das “2 CPMFs”.

E vale lembrar: o governo Dilma ainda nem começou.

 

ODINHO DE LULA PATROCINA RETORNO DA CMPF, SIM

A PRIMEIRA FATURA DO PMDB

Apenas dois dias se passaram das eleições, e o PMDB já deu início àquilo que lhe é de praxe: exigir sinecuras onde bem deseja. Passadas 48 horas da vitória de Dilma, José Eduardo Dutra e Antônio Palocci já haviam dado início aos trabalhos de montagem da equipe de transição do próximo governo. O afazer não é desprezível: é partir das ações desse grupo que sairá, por exemplo, boa parte do corpo de ministros. Definir chefes de ministérios é estratégico para sedimentar mais apoio no Congresso. O PSB, por exemplo, saiu mais forte das urnas, com o dobro de governadores (seis, no total) em relação a 2006, 34 deputados federais ante 27 nas eleições passadas e três senadores. Com esses números, pelo menos três ministérios estão na lista de exigência dos peessebistas – Cidades, hoje com o PP; Integração Nacional, com PMDB; e manter o controle do Ministério da Ciência e Tecnologia mais Secretaria de Portos. O objetivo é claro: controlar os ministérios cujos recursos são liberados em sua maioria para as regiões Norte e Nordeste, onde o PSB logrou maiores êxitos.

Frente a isso, uma falha quase imperdoável foi cometida pelo PT: montou a equipe de comandará a transição sem chamar o PMDB, o principal sócio no negócio. Ninguém governa sem o PMDB? Não! Esses chupins são mesmo terríveis. Nem Lula conseguiu tal proeza. Não há muito, num sinal de claro constrangimento ao PT – Aloízio Mercadante que o diga, sendo obrigado a revogar o irrevogável –, Lula ficou ao lado de Sarney para a presidência do Senado. José Dirceu, ex-ministro chefe da Casa Civil, chegou a declarar no programa Roda Viva que se não houvesse esse apoio, no dia seguinte, José Serra estaria sentado à mesa com o PMDB fechando apoio para as eleições de 2010. Governabilidade é tudo! Ocorre que, a partir de 2011, não será mais Lula quem receberá as faturas do PMDB, será Dilma. Ela não é ele. Ela não dialoga como ele. Ela não negocia como ele. Cientes da inépcia com o principal aliado – ou lembrado dela por alguém, sei lá –, o PT viu-se obrigado a chamar Michel Temer para comandar os trabalhos de transição.

Vamos como se sairá Dilma Rousseff no front dos certames por cargos. O que se tem cogitado nos bastidores é a adoção da regra de verticalização como critério para cessão de fatias do governo. Se o PMDB já deixou claro que não quer nem um milímetro a mais nem a menos do que já tem – e são sete cargos no alto escalão se se considerar a presidência do Banco Central –, o PSB pode faturar ministérios com a porteira fechada. Assim, uma área do governo pode ser entregue de ponta a ponta à responsabilidade de uma única sigla. Atualmente, não vê isso. Edison Lobão, por exemplo, é ministro de Minas e Energia, mas estatais responsáveis por áreas subordinadas à pasta têm em seus quadros gente do PT ocupando cargos executivos, como ocorre na Eletrobrás. Com a verticalização, os partidos do bloquinho de apoio poderão receber como consolo um ministério inteiro para administrar, o que pouparia Dilma de ceder mais cargos em diversas áreas diferentes.

A conferir.

 

A PRIMEIRA FATURA DO PMDB

A “VEZ DA MULHER” NÃO EXISTE

Confirmada a eleição de Dilma Rousseff, aqui e alhures, à exaustão, ouvimos e lemos que o Brasil finalmente elegera a “primeira mulher presidente da República”. Alguns entoam isso como uma espécie de prelúdio de uma nova era, algo divisor de águas. Dilma lá, no entanto, não é a mulher lá. Se o que se quis colar na eleição da petista foi a égide de um feminismo, sinto dizer: ele não existe – nem nunca existiu. Dilma lá é Lula lá. Dilma lá é o projeto de Lula, não de uma trajetória planejada para a emergência de uma mulher no posto de primeira mandatária do país. Dilma lá é a consagração de um projeto de poder cujo mote prioritário nunca foi a eleição de uma mulher, mas, sim, a continuidade de um anseio pessoal e partidário. Mulherismo? Dilmismo? Nada disso! É lulismo. Pelo menos até aqui. Se a partir de primeiro de janeiro o gênero sexual se tornar assunto preponderante, o será, registre-se, desvinculado de qualquer propósito inerente à campanha de Dilma até aqui.

Ao contrário do que se diz, Dilma não teve autonomia em sua campanha. Lula interferiu nos rumos do certame desde, pasmem!, 2007! Ao carregar Dilma pelo braço para os quatro cantos do País e vende-la como a mãe do Plano de Aceleração do Crescimento, era claro o intento de fazer da então ministra da Casa Civil uma gerente eficiente. O corolário, então, seria o óbvio: eficiência gestora do governo Lula seria, por conseguinte, excelente presidente da República. O plano, no entanto, não cravou os resultados obtidos nos primeiros momentos. Tomando-se por base pesquisas realizadas pelo instituto Datafolha ao longo de 2009, nota-se uma gradual e lenta evolução de Dilma nas intenções de voto, mas sempre abaixo de José Serra. À época, os cenários apresentados aos eleitores eram diversos – com sem Ciro Gomes na disputa, com e sem Heloísa Helena e com e sem Aécio Neves.

Na média, na pesquisa divulgada em 20 de março de 2009, Dilma tinha 12,6% das intenções de voto levando em consideração os cinco cenários possíveis, alternando combinações de candidatos. José Serra, àquela altura, tinha em média 41%, mas considerando-se apenas três cenários nos quais o tucano aparecia – nos outros dois, Aécio era a figura provável do PSDB. Já na última pesquisa Datafolha divulgada em 2009 – momento em que a cobertura jornalística já era mais intensa e as alianças políticas começavam a vir à luz –, Dilma Rousseff aparecia, em média, com 24,5%; e Serra com 38,5% — uma diferença de 14 pontos percentuais.

Em maio deste ano começaram a ser exibidas as primeiras propagandas publicitárias na TV. Foi justamente neste período que pela primeira vez Dilma empatou com Serra. Ambos registravam 37% das intenções de voto. Em 23 de agosto, o Datafolha divulgou a primeira pesquisa depois do início do horário eleitoral gratuito no rádio e na TV. Vale lembrar: no primeiro programa de Dilma, quem protagonizou o vídeo foi Lula. Tudo orbitou em torno da idéia de sucessão, chegando ao cúmulo de sermos obrigados a ouvir uma musiquinha que afronta qualquer princípio democrático: “Deixo em tuas mãos o meu povo”. Nas democracias, o povo conduz alguém à presidência; no regime de Lula, o povo é conduzido às mãos de quem ele bem entende. Mas isso é outro assunto. Aos números: considerando-se apenas os votos válidos, Dilma Rousseff apresentava 17 pontos de vantagem sobre José Serra. A petista tinha 54% das intenções de voto contra 37% do tucano. Ode a Lula!

Ao longo da campanha, Lula ganhou cada vez mais espaço. Já no fim do primeiro turno, envolto pela aura palanqueira à qual aderiu em detrimento da função institucional da Presidência da República, ultrapassou os limites da radicalização da ação política. Sugeriu a extirpação de um partido político da democracia, vociferou contra a imprensa e mandou a lei eleitoral às favas. Resultado: a disputa foi ao segundo turno. Nuvens negras chegaram a pairar sobre o QG do PT. Lula saiu de cena no início do segundo turno. Dilma caiu e Serra cresceu. Lula voltou. Dilma cresceu novamente.

O regime de lulodependência estabelecido na campanha de Dilma evidencia um elemento que rui com todos os argumentos cujo fio condutor é o mote do “da vez da mulher”. Uma ova! Todas as vezes em que Dilma ganhou certa autonomia vimos as pesquisas irem de encontro àquilo que suas expectativas desenhavam. Coincidiu com o primeiro debate da TV Bandeirantes, por exemplo, quando começou a ganhar corpo a idéia de uma Dilma mais descolada da imagem de Lula. Dilma mostrou-se mais agressiva, rachando opiniões dentro do PT sobre a eficácia de sua nova postura junto ao eleitorado. Incertezas, àquela altura do campeonato, era tudo o que petistas não queriam. Na dúvida, trouxeram de volta a figura do criador. No socorro à sua invenção, Lula logrou o êxito desejado ao delinear ele mesmo os rumos que a campanha tomaria a partir dali. Coincidiu, vejam que coisa, com os 15 últimos dias mais sujos da campanha. À baila vieram as mentiras das privatizações e a hostilização explícita de Lula a Serra.  Chegou-se ao extremo de a Petrobras anunciar a descoberta de uma nova reserva de pré-sal no porto de Santos. Coincidência? Pode ser. Mas Lula ir até lá só pra sujar suas mãos de óleo não foi resultado de conjugação de fatos alheios ao calor da disputa.

“A vez da mulher” não existe. O povo não quer uma mulher na Presidência da República; quer, sim, alguém que dê continuidade à era Lula, independentemente de ser homem ou mulher. Dilma poderia ter entrado na campanha como a técnica competente que tocou obras do governo – concorde-se ou não com essa visão — e saído como alguém que amealhara votos graças a ela mesma. O risco de náufrago seria iminente. Saiu vitoriosa da campanha, mas não como mulher competente; mas como, para a maioria, a “muié” do Lula. Dilma poderia ter saído maior das urnas. Saiu menor, reduzida à mera condição de sucessora indicada.

A “VEZ DA MULHER” NÃO EXISTE