A “VEZ DA MULHER” NÃO EXISTE

Confirmada a eleição de Dilma Rousseff, aqui e alhures, à exaustão, ouvimos e lemos que o Brasil finalmente elegera a “primeira mulher presidente da República”. Alguns entoam isso como uma espécie de prelúdio de uma nova era, algo divisor de águas. Dilma lá, no entanto, não é a mulher lá. Se o que se quis colar na eleição da petista foi a égide de um feminismo, sinto dizer: ele não existe – nem nunca existiu. Dilma lá é Lula lá. Dilma lá é o projeto de Lula, não de uma trajetória planejada para a emergência de uma mulher no posto de primeira mandatária do país. Dilma lá é a consagração de um projeto de poder cujo mote prioritário nunca foi a eleição de uma mulher, mas, sim, a continuidade de um anseio pessoal e partidário. Mulherismo? Dilmismo? Nada disso! É lulismo. Pelo menos até aqui. Se a partir de primeiro de janeiro o gênero sexual se tornar assunto preponderante, o será, registre-se, desvinculado de qualquer propósito inerente à campanha de Dilma até aqui.

Ao contrário do que se diz, Dilma não teve autonomia em sua campanha. Lula interferiu nos rumos do certame desde, pasmem!, 2007! Ao carregar Dilma pelo braço para os quatro cantos do País e vende-la como a mãe do Plano de Aceleração do Crescimento, era claro o intento de fazer da então ministra da Casa Civil uma gerente eficiente. O corolário, então, seria o óbvio: eficiência gestora do governo Lula seria, por conseguinte, excelente presidente da República. O plano, no entanto, não cravou os resultados obtidos nos primeiros momentos. Tomando-se por base pesquisas realizadas pelo instituto Datafolha ao longo de 2009, nota-se uma gradual e lenta evolução de Dilma nas intenções de voto, mas sempre abaixo de José Serra. À época, os cenários apresentados aos eleitores eram diversos – com sem Ciro Gomes na disputa, com e sem Heloísa Helena e com e sem Aécio Neves.

Na média, na pesquisa divulgada em 20 de março de 2009, Dilma tinha 12,6% das intenções de voto levando em consideração os cinco cenários possíveis, alternando combinações de candidatos. José Serra, àquela altura, tinha em média 41%, mas considerando-se apenas três cenários nos quais o tucano aparecia – nos outros dois, Aécio era a figura provável do PSDB. Já na última pesquisa Datafolha divulgada em 2009 – momento em que a cobertura jornalística já era mais intensa e as alianças políticas começavam a vir à luz –, Dilma Rousseff aparecia, em média, com 24,5%; e Serra com 38,5% — uma diferença de 14 pontos percentuais.

Em maio deste ano começaram a ser exibidas as primeiras propagandas publicitárias na TV. Foi justamente neste período que pela primeira vez Dilma empatou com Serra. Ambos registravam 37% das intenções de voto. Em 23 de agosto, o Datafolha divulgou a primeira pesquisa depois do início do horário eleitoral gratuito no rádio e na TV. Vale lembrar: no primeiro programa de Dilma, quem protagonizou o vídeo foi Lula. Tudo orbitou em torno da idéia de sucessão, chegando ao cúmulo de sermos obrigados a ouvir uma musiquinha que afronta qualquer princípio democrático: “Deixo em tuas mãos o meu povo”. Nas democracias, o povo conduz alguém à presidência; no regime de Lula, o povo é conduzido às mãos de quem ele bem entende. Mas isso é outro assunto. Aos números: considerando-se apenas os votos válidos, Dilma Rousseff apresentava 17 pontos de vantagem sobre José Serra. A petista tinha 54% das intenções de voto contra 37% do tucano. Ode a Lula!

Ao longo da campanha, Lula ganhou cada vez mais espaço. Já no fim do primeiro turno, envolto pela aura palanqueira à qual aderiu em detrimento da função institucional da Presidência da República, ultrapassou os limites da radicalização da ação política. Sugeriu a extirpação de um partido político da democracia, vociferou contra a imprensa e mandou a lei eleitoral às favas. Resultado: a disputa foi ao segundo turno. Nuvens negras chegaram a pairar sobre o QG do PT. Lula saiu de cena no início do segundo turno. Dilma caiu e Serra cresceu. Lula voltou. Dilma cresceu novamente.

O regime de lulodependência estabelecido na campanha de Dilma evidencia um elemento que rui com todos os argumentos cujo fio condutor é o mote do “da vez da mulher”. Uma ova! Todas as vezes em que Dilma ganhou certa autonomia vimos as pesquisas irem de encontro àquilo que suas expectativas desenhavam. Coincidiu com o primeiro debate da TV Bandeirantes, por exemplo, quando começou a ganhar corpo a idéia de uma Dilma mais descolada da imagem de Lula. Dilma mostrou-se mais agressiva, rachando opiniões dentro do PT sobre a eficácia de sua nova postura junto ao eleitorado. Incertezas, àquela altura do campeonato, era tudo o que petistas não queriam. Na dúvida, trouxeram de volta a figura do criador. No socorro à sua invenção, Lula logrou o êxito desejado ao delinear ele mesmo os rumos que a campanha tomaria a partir dali. Coincidiu, vejam que coisa, com os 15 últimos dias mais sujos da campanha. À baila vieram as mentiras das privatizações e a hostilização explícita de Lula a Serra.  Chegou-se ao extremo de a Petrobras anunciar a descoberta de uma nova reserva de pré-sal no porto de Santos. Coincidência? Pode ser. Mas Lula ir até lá só pra sujar suas mãos de óleo não foi resultado de conjugação de fatos alheios ao calor da disputa.

“A vez da mulher” não existe. O povo não quer uma mulher na Presidência da República; quer, sim, alguém que dê continuidade à era Lula, independentemente de ser homem ou mulher. Dilma poderia ter entrado na campanha como a técnica competente que tocou obras do governo – concorde-se ou não com essa visão — e saído como alguém que amealhara votos graças a ela mesma. O risco de náufrago seria iminente. Saiu vitoriosa da campanha, mas não como mulher competente; mas como, para a maioria, a “muié” do Lula. Dilma poderia ter saído maior das urnas. Saiu menor, reduzida à mera condição de sucessora indicada.

A “VEZ DA MULHER” NÃO EXISTE

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