ALÉM DE PACIFICAR, PRENDER É PRECISO

Sérgio Cabral, nos últimos dois anos, mostrou-se um eficiente marqueteiro de si mesmo. A estrofe de seu poema são as UPPs, que ocupam, por motivos óbvios, destaque nas imprensas nacional e internacional. Com a promessa de pacificar terrenos que vinham atém então vivendo sob o jugo do tráfico, as Unidades de Polícia Pacificadora instalaram-se nessas regiões e levaram tranqüilidade aos moradores. No que se propunha a fazer, essas UPPs foram eficientes: pacificaram. Mas só. E pronto, bastou isso para que essa medida fosse louvada em todo País como ação vitoriosa de Sérgio Cabral. Dilma Rousseff, inclusive, prometeu expandir esse modelo de segurança para todo o Brasil.

Como bem sabem os que me lêem, discordar da corrente não me causa nenhum constrangimento. Costumo dizer que se Virgílio não vem até mim, dirijo-me para o diabo só. “Não quero que ninguém me pegue pelo braço”, já dizia Paulo Francis. Se essas UPPs são o supra-sumo das medidas de combate ao crime, poder-se-ia pregar aos quatro cantos que as cadeias não são mais necessárias. Se tão-somente pacificar territórios é o teto das ações de segurança, então que joguemos no lixo o Código Penal. Pra que medidas corretivas? Fiquemos apenas com as preventivas. Eis as sínteses de corolários nos quais podemos chegar se se seguir a lógica-Sérgio-Cabral-de-combate-ao-crime. A impressão latente é a de que uma vez instaurada a paz nos morros, os traficantes submeter-se-iam imediatamente à nova realidade lhes tolhida.

Os morros foram tomados pela polícia? Sim! O tráfico perdeu espaço? Nem tanto! Os moradores passaram a se sentir mais seguros? Sim! O Estado voltou a ditar as regras? Não! As UPPs foram um sucesso? Não! Logo quando começaram os ataques, não faltaram bocós atribuindo os vandalismo ao, atenção, sucesso da política de segurança carioca. Isso mesmo: bandido incendiando carros e transportes públicos seria uma espécie de certificado de qualidade. Ficamos assim, então: quanto mais fogo na cidade, mais méritos tem sua segurança. Santo Deus!

Uma pergunta ficou no ar durante todo o processo de mistificação gradual ao qual formos submetidos: se a PM vai ao morro e coíbe a ação de traficantes, aonde foram parar, então, esses benditos criminosos? No período em que as UPPs se expandiram, o número de prisões no Estado do Rio de Janeiro não aumentou. Não há como dissociar prisões de resgate de territórios. Se traficantes perdem espaço mas não vão à cadeia, há de se esperar  que dêem início a ações alternativas. Nunca é bom subestimar essa gente. E deu no que deu: dos morros, o terror invadiu o asfalto. Ações coordenadas resultaram em mais de 100 carros incendiados, e mais de 30 mortes foram registradas. Arrastões começaram nas principais avenidas, disseminando pânico em diversas partes da cidade. Sim, os atos terroristas ocorridos na última semana nada mais são do que o resultado da negligência do sistema das UPPs, e não de um êxito, metafísico.

Segundo o último balanço divulgado pela Secretaria de Segurança Pública do Rio, desde domingo passado até às 11h30 de ontem, foram presas 88 pessoas e 130 foram detidas; 104 armas e 16 granadas foram apreendidas. Ótimo! Curioso é notar que tais números tenham sido registrados somente após a reação dos marginais às UPPs. Por que essas apreensões não aconteceram antes? Se as forças pacificadoras no alto dos morros têm competência para pacificar, é preciso também ter para prender – o que não aconteceu. E só ocorre agora, vejam que ironia, graças aos traficantes, que reagiram à perda de espaço em seus “domínios”.

Todos foram ludibriados pelos discursos esperançosos de Sérgio Cabral. Arrebatou-se a população com uma arenga mistificadora: de que o Estado estava finalmente retomando o controle. Mentira! Bandido sob controle do Estado é bandido na cadeia. Um exemplo disso é o Estado de São Paulo, cuja população carcerária é de 399,80 por 100 mil habitantes. No Rio, essa relação é de 1,66 por 100 mil, atrás de estados como Minas Gerais e Paraná. Aqui em São Paulo, o índice de homicídios é de 9 por 100 mil habitantes (um dos mais baixos do País); no Rio, é de 34, 36 por 100 mil – quase o quádruplo dos números paulistas. Frente a isso, é inegável que uma das melhores medidas contra violência ainda é colocar bandido atrás das grades, e não somente “pacificar”.

Não, não sou contra as UPPs. Sou contra apenas que tenham sido usadas de forma tão errada e como mote da produção de embustes. “Ah, mas você não é nenhum especialista em segurança para criticá-las”. Não, não sou mesmo. E é justamente isso que me espanta: um leigo jogando luz sobre um prisma tão óbvio.

ALÉM DE PACIFICAR, PRENDER É PRECISO

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