UMA ERA EM QUE SE OPOR É SINAL DE ANTINACIONALISMO

Em 31 de dezembro de 2010 termina o governo que mais desencadeou egrégoras desde a redemocratização.  Se Robert Musil fosse brasileiro (não deu tanto azar; era austríaco) e vivesse durante os anos Lula (foi rapaz de sorte; morreu em 1942), teria repertório suficiente para escrever um livro em que Kakania ficaria no chinelo se comparada à era Lula, tempos em que uma metafísica influente subverteu valores, corrompeu verdades históricas, investiu pesadamente na construção de um mito e, o mais espantoso,: logrou êxito neste último quesito.

Para uns o governo Lula ficou marcado pelo escândalo do mensalão. O episódio acabou virando lugar-comum daquele arquétipo de gente cujas discussões políticas se aprofundam tanto quanto se pode ir fundo num pires. Ia-se falar mal do governo? Taca-lhe mensalão na roda. Ia-se debater desempenho do Congresso? Da-lhe mensalão. “É tudo bandido, corrupto”, nos dizem as burras generalizações. Para pessoas analfabetas politicamente, mensalão virou muleta. Com a imensa repercussão do caso em 2005, não é de se estranhar como o tema passou a ser submetido a avaliações rasas nas mesas de botequim, nas tábuas de passar roupa, na padaria da esquina que serve café em copo de requeijão, e assim vai. Só faltou a Sônia Abrão abordar o escarcéu em seu programa vespertino.

Não, para mim, o escândalo do mensalão não foi o mais marcante do governo Lula. Houve episódios mais significativos do ponto de vista político e da forma como se lê um estado democrático de direito. A compra de voto de parlamentares é peixe pequeno perto do que o senhor Luís Inácio Lula da Silva pôs-se a fazer desde que assumiu a Presidência da República: a satanização do outro, a contumaz tenção de transformar o antagônico em inimigo e a obsessão por tornar mínimo o legado bendito do antecessor.  Sim, esse expediente é o verdadeiro risco ao qual estiveram expostos os alicerces de sustentação do atual regime democrático brasileiro. Sem oposição não há democracia que se sustente.

É cego quem vê com naturalidade o tom adotado por Lula para se referir aos partidos de oposição. O discurso de que a origem sindical do presidente e seu modo animalesco de ser na política justificam seus modos não passa de vigarice. É, na verdade, um método fleumático para garantir à figura de Lula uma espécie de superioridade moral, a qual ninguém pode contestar, pois, se fazê-lo, seria configurada uma rebelião contra uma divindade. Os incautos silenciaram num escancarado sinal da mais pura aquiescência. E deu no que deu: Lula tornou-se um demiurgo. Se no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, na era D.L. (depois de Lula) o Verbo já não estava mais com Deus. Se o Verbo era o próprio Cristo configurando as palavras de Deus, aqui, tudo seria transmutado para Lula. “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”, disse João sobre o Verbo. Nos dias de hoje, poderíamos converter as palavras do discípulo num vaticínio dos anos Lula.

Em 2005, no auge do mensalão, o ramerrame de um provável impeachment de Lula ganhou preponderância. Se fosse sedimentada, a idéia poderia ser acompanhada de um adágio estigmatizador: o de que o primeiro presidente vindo das massas teria sofrido um golpe das elites dominantes deste país. Estaria posta a mesa no deserto dos tolos para que desse início à arenga tão velha como tão tola do confronto de classes. Na verdade, impeachment não seria a medida mais apropriada. O mais correto seria Lula perder o mandato por abuso de poder econômico. Com dinheiro desviado para financiar campanha, a Justiça teria todos os meios para cassar o mandato. Por muito menos, Cássio Cunha Lima, ex-governador da Paraíba, foi cassado. Graças à inépcia e da covardia das oposições, nada disso se concretizou. Lula saiu triunfante da crise ética e ainda mais alvo do que a neve.

Com Lula, vimos a personificação da fraude ocorrer na maior sem-cerimônia. Fernando Henrique Cardoso, o presidente que fatidicamente mudou Brasil, passou para a história como o governante que entregou a riqueza da nação para o capital. A pecha do neoliberalismo passou a orbitar em tornos dos feitos tucano como uma idéia fixa de quem teria se convertido a interesses antipatrióticos. Lula vendeu o peixe. Sábio, sabia da ignorância daqueles que o ouviam. O “nunca antes na história deste país” passou a ser a estrofe de um discurso larápio, mas que arrebatou milhões de pessoas imersas num mundo de cabresto. Daí para a construção de uma história multifacetada na qual prevalece apenas o ideário de um partido foi apenas um passo. Se pousasse um ET no Brasil, teria a impressão de que este país nasceu com Lula. Antes dele, não passávamos de uma terra disforme e vazia.

Como se não bastasse roubar méritos, Lula também recorreu ao método de apontar um culpado para tudo o que desse de errado em seu governo. Freud, em seu livro Psicologia das Massas e Análise do Eu, explica como um ser que aponta um culpado consegue atrair para si a atenção de multidões. Ser-lhe-ia garantida uma espécie de aura superior, a qual garante ao acusador licenças especiais oriundas de uma capacidade de distinção que a ninguém mais é conferida. Em síntese: se há um problema, há uma razão; se alguém identifica quem é a razão, merece nosso credo. Isso deu certo com Hitler, que apontou os judeus como a causa da decadência da superioridade alemã. Deu certo com Stalin, que mandou para debaixo da neve os inimigos do povo, os gulags. Lula colocou a oposição no centro do picadeiro e apontou-lhes o dedo. “Raivosa”, “pior do que doença que não tem cura”, “a turma do quanto pior melhor”, “quem governa para os ricos”, “quem nunca deu oportunidade para os pobres”, “os querem dar o patrimônio brasileiro aos interesses privados” estão na lista de delicadezas que Lula e sua turba conferiram à oposição. Uma vez estigmatizada, não teriam calibre para se levantar contra o governo. Se o fizesse, seria um ato contra a nação. Os mais de 80% de aprovação do presidente seriam uma égide intransponível.

Uma questão de método, que funcionou graças uma conjugação de fatores que não cabem tratar aqui. O mais notável deles foi a economia, que, graças às medidas adotadas nos últimos 20 anos, tem conseguido auferir bons dividendos ao Brasil.

Uma vez solidificados os prolegômenos da farsa, o caminho para as distorções históricas e a construção de uma narrativa rezada segundo uma mentira se abre. O perigo, então, passa a ser proporcional às licenças que o povo faculta a quem está no governo. O Plano Nacional dos Direitos Humanos III quase passa incólume pela sociedade. Se aprovado, a propriedade privada, a liberdade de expressão e a liberdade religiosa estariam em xeque. Ninguém mesmo costuma dar muita bola para esses papos fincados no campo das idéias, mesmo que tais idéias tragam em seu cerne ameaças incomensuráveis.

No campo internacional, Lula resolveu dar o braço a regimes ditatoriais e lhes convidar para o minueto dançado sobre os valores que garante a dignidade humana. Chamou o apedrejador de mulheres Ahmadinejad de “meu amigo, por quem tenho muito carinho”, o governo chavista de democrata “até demais” e não condenou Fidel Castro por reprimir com armas e prisão aqueles que se opõe a seu governo. Lula discursar contra o americanismo é sinônimo de lucidez e de não-subserviência ao imperialismo; já omitir-se frente a flagrantes condições de avacalhação dos direitos humanos é sinônimo de respeito à autodeterminação das nações e dos povos. Com Lula, passamos a viver essa era: a de rearranjos ideológicos não delineados por princípios de um Estado, tampouco por políticas fundamentadas em nossa própria Constituição, mas sim por uma política desenhada na cartilha de um partido, pensada por pessoas enviesadas ideologicamente.

O lulismo tornou-se supranacional, conseqüência das outorgas dadas pela população que “nunca antes na história deste país comeu tanto arroz e feijão” a esse modo de fazer política.

Com Lula, vimos o culto à ignorância. Não da ignorância inerente à estupidez, mas sim àquela que denota a falta de conhecimento. Engoliu-se tudo o que o demiurgo disse como se tudo o que saísse de sua boca fossem verdades incontestáveis. O diabo é que eram contestáveis. Ninguém teve a sina espasmódica de jogar luz sobre os fatos e apresenta-los como de fato são. Calada, inibida e demonizada por Lula, a oposição aderiu ao condenável silêncio do medo, da apatia. Se não há ninguém no Congresso para desmascarar Lula, quem o fará? Foi assim que assistimos à minuciosa construção de uma lenda, de um ser irrepreensível. Lula disse que foi ele, um operário que sequer tem o ensino fundamental completo, o maior fazedor de universidades deste país. Toda vez que falava isso, as platéias se levantavam e aplaudiam. O fato é que Lula não é maior criador de faculdades. Trata-se de uma mentira. Com um pouco de boa-vontade, é possível despi-lo. Basta fuçar no site do Ministério da Educação para constatar que:

– Lula não criou 13 universidades federais como vive dizendo por aí. Criou apenas quatro. As demais são frutos de fusões e desmembramentos de instituições que já existiam. Além disso, muitas dessas faculdades ainda nem saíram do papel;
– entre 1995 e 2002, anos FHC, a taxa média de crescimento de matrículas nas universidades federais foi de 6%. Nos anos Lula, esse índice foi de 3,2%;
– com FHC, as vagas noturnas nas federais cresceram 100%. Com Lula, 15%;
– Entre 2002 e 2008, as universidades federais se transformaram em cabides de emprego da companheirada. 62 mil professores estavam empregados em 2008, 35% a mais que em 2002. O curioso é que nesse mesmo período o crescimento de alunos foi de 21%;
– em 2003, as vagas ociosas nas federais eram 0,74%. Em 2008, passaram para 4,35%. Em números reais, isso significa em os desligamentos passaram de 44.203 em 2003 para 57.802 em 2008;
– entre 1998 e 2003, segundo mandato de FHC, houve 158.461 novas matrículas nas universidades federais. EM oito anos de governo Lula, foram apenas 76.000.

Eis aí dados que poderiam ser confrontados com o mundo azul desenhado por Lula. A oposição, tolhida pelo discurso palanqueiro, deixou-se conformar com os despautérios. Armas não lhe faltaram. Na campanha eleitoral recém-encerrada, PSDB e DEM tiveram a oportunidade de se consertar com eles mesmos. Porém, o que se viu foi um discurso pobre, sem alternativas à arenga lulista.

Com Lula, prevaleceu o discurso do ódio, a idéia da existência de dois brasis em que um necessariamente está contra o outro. Os ricos e os pobres foram colocados em lados opostos no tabuleiro. Os primeiros estariam incomodados com a ascensão dos segundos (quem não se lembra quando Lula chamou os estudantes ricos de babacas, que não aprovavam mais alunos nas salas de aula porque estes eram emergentes?). No regime lulista, o DEM precisa ser extirpado da vida democrática e o sarneyzismo não pode ser contestado. Na era Lula, a oposição não é integrante do cotidiano previsto na Constituição, é um elemento que atrapalha a vida do governo. Uma vez pespegadas tamanhas barbaridades, a fenda na xícara de chá que abre o caminho para a terra dos mortos, como escrevera Auden, abre-se imediatamente. Se o outro a quem lhe é garantido o dever de contestar é abolido do jogo, a via para a criação de conveniências está aberta. Daí, surgem os mensalões, os dossiês, as alianças escusas para manipular investigações de CPIs, o abuso do poder político…

Mensalão foi café pequeno perto do que Lula arquitetou e conseguiu realizar em seu governo: reduzir quem não concorda com ele a pó, à condição de inimigo. Deu no que deu.

UMA ERA EM QUE SE OPOR É SINAL DE ANTINACIONALISMO

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