DESENCONTRANDO O INDIVÍDUO

Está em gestação na Câmara dos Deputados – nas comissões de Educação e de Direitos Humanos – um projeto que confere ao Estado o direito de se intrometer na cultura familiar e no livre-arbítrio que os pais têm de passar valores a seus filhos. A patacoada da vez um kit anti-homofobia a ser distribuídos a 43 milhões de alunos do Ensino Médio da rede pública em todo o País. Assistam atentamente ao vídeo abaixo, intitulado “Encontrando Bianca”. Ele faz parte de uma coletânea de cinco “atrações”, todas produzidas pelo Ministério da Educação em parceria com diversas entidades gays.

É assim que o Estado quer “educar” os alunos. Exibe-se a crianças ainda em idade escolar um Ricardo que decidiu virar Bianca e que acha um absurdo ELE não poder usar o banheiro d’ELAS. Imaginem se o embuste pega! Todos os travestis passarão a requerer direitos garantidos somente às mulheres. Não ceder lugar a “elas’ no transporte público poderá ser considerado falta de cavalheirismo.

No final do ano passado, realizou-se na Câmara um seminário para discutir as diretrizes do projeto. A deputada petista Fátima Bezerra estava impossível como ela só. Para justificar a adoção do vídeo nas escolas como material didático (!!!), chega a, pasmem!, usar o resultado eleitoral. Disse a nobre deputada: “Inclusive quando destacava aqui a questão da disputa político-eleitoral recente que nós vivenciamos no Brasil, disputa político-eleitoral essa sem dúvida alguma muito importante, muito decisiva para os destinos do nosso País. (…) Houve determinados momentos da disputa em que eu fiquei muito assustada. Assustada, angustiada, apreensiva, porque de fato nós presenciamos e inclusive enfrentamos o debate de temas que vieram à tona na agenda político-eleitoral, agora, recentemente, no nosso País, e vieram à tona de forma muito violenta. O debate que se instalou trouxe à tona as questões de natureza religiosa, a questão da homofobia, a própria questão de gênero, a questão de raça; enfim, tudo isso veio à tona de forma muito violenta, de forma muito virulenta, e na verdade revelou-nos um sentimento predominante em determinados setores da sociedade brasileira. É claro que esse sentimento não foi majoritário; muito pelo contrário, esse sentimento foi derrotado nas urnas”.

É uma completa esculhambação! Notem a artimanha enrustida na palra: 1- setores da igreja manifestaram seu apoio à candidatura de José Serra pelo o fato de o tucano nunca ter tergiversado sobre o aborto e o casamento civil homossexual; 2- Dilma Rousseff, que aderiu à conveniência de mudar de discurso no auge do certame, viu-se compelida a refazer suas convicções para atrair o voto dos religiosos. Essa mudança efelcística imposta pelo estratagema, seria, então, o resultado de um conservadorismo raivoso; 3- como Serra, o candidato que atraiu a maioria dos votos daqueles que dão importância a temas como aborto e homossexualismo foi derrotado, o corolário (deles) não poderia ser outro: agora, estão livres para se intrometer na conduta dos alunos em tudo que seja inerente ao aborto e ao homossexualismo.

O debate sobre cidadania deve ser promovido? Claro. Sempre. Mas há meios e meios de fazê-lo. Se o que se quer evitar é homofobia nas escolas, que se mostre as conseqüências penais que o crime implica. Promover a aceitação do outro na diferença é algo que compete à moral passada aos filhos no seio da família, e não em vídeos escandalosos que deturpam conceitos ainda em formação de quem está em idade escolar. Se eu ensino a meu filho que não é adequado a meninos usarem esmalte, não é o Estado que dirá o contrário. Se educo meu filho a fazer sua necessidades fisiológicas somente no banheiro masculino, não cabe ao Estado dizer-lhe que uma visitinha ao toilet feminino é razoável. Se visto meu filho com roupas desenhadas para homem, não é o Estado que o convencerá a usar saias.

O Estado que quer ensinar diversidade aos alunos é o mesmo que não tem competência para ensina-los a destrinchar os objetos diretos de “Os Lusíadas”. O Estado que quer educar as crianças sobre homossexualidade é o mesmo que não consegue ensinar os verbos modais da língua inglesa. O Estado que quer doutrinar sobre condutas sexuais é o mesmo que não tem aptidão para ensinar o que são ligações iônicas, o que são os vetores, como usar a fórmula de Baskara, o que são mitocôndrias, a diferença entre angiospermas e gimnospermas, o que foi o Iluminismo…

NADA DE  CONTAGIOSO
Não, não acho que o vídeo seja um estímulo à prática homossexual. Não estou entre aqueles neuróticos defensores da tese de que o homossexualismo pode ser incentivado e é contagioso. Ser gay não é opção, é orientação. Já contei aqui como se comportava um garoto de minha sala de aula nas primeiras séries da escola. Ele adorava acariciar as madeixas da professora. Achava lindo de morrer encher seu caderno de garranchos rosas. Tinha um requebrado todo particular no andar e uma delicadeza bruta na forma de dizer “ai” todas as vezes que a professora lhe chamava a atenção. Pergunto: uma criança na faixa etária de 7 e 8 anos tem o poder de optar por ser gay? Uma criança que ainda crê na lenda da cegonha tem discernimento para trilhar sua vida sexual? Claro que não. É pilantra intelectual quem chama homossexualismo de um mal a ser combatido. Não se combate o que é natural de cada um.

Alguns podem perguntar: mas, partindo de suas premissas, qual o mal, então, de mostrar às crianças um menino virando travesti? O mal está no agente que mostra: o Estado. Vou além: toda essa movimentação não passa de joguete político, fruto da ação de movimentos sociais que se auto-outorgam representantes de quem muitas vezes sequer lhes dão bola. 100% da platéia que assistiu ao seminário sobre o projeto era engajada na causa. A gente sabe como esses movimentos funcionam: vivem a procurar minorias para representar e, em nome delas, requerem alguns milhões de reais. A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais já conseguiu R$ 3 milhões, graças a uma emenda da deputada Fátima Bezerra. Os recursos serão destinados para a criação da Escola sem Homofobia, seja lá o que isso queira dizer. Além disso, o movimento também conseguiu mais R$ 11 milhões, cujo destino ainda é insabível.

MISTIFICAÇÃO
”Azigreja”, como sempre, levam pau nessa toada. Em nome do Estado laico, acham-se no direito de interferir como bem lhes aprouver na herança cultural e comportamental que as crianças têm dentro de casa. O Estado é laico, mas não é ateu. Se um pai ensina a seu filho que o casamento ideal é do homem com a mulher, não cabe a escola conspurcar essa visão. Já se um pai ensina ao filho que ser gay é bom, não cabe à escola e nem a mais ninguém dizer o contrário. Ter religião é um direito tão garantido como não ter nenhuma.

Eu, pessoalmente, coloco-me acima dos dois lados. Não tomo partido nem dos gays e nem dos religiosos. Minha religião é a religião do indivíduo, do homem como senhor soberano de si mesmo, o qual não se submete a nada que se sobreponha à consciência. Nunca dei bola pra esses sistemas de classificação que vivem como nuvens sobre nossas cabeças. Segundo eles, nós sempre temos de pertencer a algum grupo. Ou não existimos.

Estou pouco me lixando se fulano é gay, se cicrano é bissexual e se beltrano é transexual. Não me relaciono com categorias. Importo-me somente com as pessoas, tão-somente as pessoas, sem a pecha que lhes impingem compulsoriamente. Não levanto bandeira dos gays — o homem por trás dessa caracterização me interessa muito mais. Não levanto bandeira dos negros — o indivíduo oculto sob essa signa é-me muito mais importante. Não empunho a causa dos cristãos — eles, livre de crença, entregues à sua própria razão sem a influência de uma metafísica etérea são-me mais agradáveis.

O Estado, ao querer explicar cidadania valorizando categorias – respeite o gay, o negro, o aidético, etc –, só contribui para a degradação inescapável do ser humano. Falta é promover o indivíduo. Falta é despertar a consciência de que o homem deve ser respeitado porque é homem, e não porque integra minorias.

Não estou do lado da igreja.
Não estou do lado dos gays.
Estou do lado do ser humano como indivíduo, livre de qualquer tipo de taxonomia.

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SOBRE O JEITO DILMA

Estamos há 288 horas sem ouvir a voz de Lula. Estamos há 288 horas sem ouvir a voz de Dilma Rousseff. O Lula calado de hoje é a consequência de um processo democrático. Quando o Oráculo falava besteiras aos quatro cantos do País, classificavam-no como animal político, cujo perfil atendia perfeitamente à construção mítica inerente a um líder de massas. Na ausência de intelecto, não titubeava em vociferar sandices contra todos que tinha por inimigo. Socorria-se nas licenças concedidas aqui e ali da maioria dos setores da sociedade, os quais enxergavam em sua falta de leitura uma espécie de sabedoria alternativa.  A gente conhece bem esse fenômeno. Um velho analfabeto teria muito mais a dizer do que um jovem universitário diplomado, pois enquanto o primeiro permanecia em seu estado natural (!!!), o segundo não teria discurso melhor, pois sua fala não seria dotada da pureza de um certo primitivismo. Há, aos montes, quem ainda pense que as respostas de que o mundo precisa virão de onde menos se espera. Tolos! A vacina, o carro, o Stilnox e o vaso sanitário vieram de justamente de onde… se esperava que viessem.

Lula calado é isso: a ausência de picaretagens retóricas. Dilma calada já seria algo diferente: seria algo de seu perfil gerencial-técnico-administrativo-eficiente, seja lá o que isso queira dizer. Se Lula não podia ver a luzinha da geladeira acendendo que já começava a dar entrevista, Dilma recolhe-se em seu gabinete distante de qualquer sinal de microfone. Ela não precisa dar declarações, seus ministros e assessores que cuidem disso, já declarou um graduado funcionário do Planalto. Se esse modelo é o ideal ou não, não me cabe especular. Apenas gostaria de saber até quando esse estilo tão, diria, Dilma, irá permanecer.

Quando tiveram início as repercussões de que a então candidata não passava de um poste de Lula, não demorou para que graduados petistas – com destaque para José Eduardo Dutra – viessem a público desmistificar esse ponto de vista. Ouvimos que Dilma não é do tipo de pessoa que se deixe influenciar, que é uma gestora cuja capacidade gerencial seria elemento garantidor de que, em seu governo, as cartas seriam dadas não por um ente superior de razão,  mas sim por ela própria, imprimindo sua marca ao modelo de governar. O engraçado é que sua (dela) forma de governar começou com mais da metade de seus ministros sendo indicada por Lula. “Ah, mas olha o que ela fez com o PMDB, reduzindo em 37% o orçamento do partido na gestão de ministérios, lhe entregando apenas quatro pastas, quando, sob Lula, tinham seis”, pode argumentar um incauto. Respondo logo: isso não quer dizer absolutamente nada.

Em setembro do ano passado, em meio ao auge das eleições, José Dirceu fez um discurso na Bahia no qual destacava o porquê que a vitória de Dilma Rousseff era tão premente para o PT. Disse Dirceu: “A eleição da Dilma é mais importante do que a eleição do Lula, porque é a eleição do projeto político, porque a Dilma nos representa (…). Ela é a expressão do projeto político, da liderança do Lula e do nosso acúmulo desses 30 anos, porque nós acumulamos, nós demos continuidade ao movimento social. Se nós queremos aprofundar as mudanças, temos que cuidar do partido e temos que cuidar dos movimentos sociais, da organização popular. Temos que cuidar da consciência política, da educação política e temos cuidar das instituições, fazer reforma política e temos que nos transformar em maioria”. Para Dirceu, o PT só seria maioria num governo Dilma. Mas por que não no governo Lula? O próprio Dirceu responde: “Lula é duas vezes maior que o PT. Mas nós temos que transformar o PT num partido”. Corolário: em nome do lulismo, o petismo ficou à míngua por oito anos.

Não foram poucas as vezes em que o núcleo duro do PT ficou pelas tampas com as decisões de Lula. A aliança feita com José Sarney desceu goela abaixo de muitos petistas. Aloizio Mercadante, então senador, chegou a declarar que, se mantida a decisão do partido (na verdade, de Lula) de dar as mãos ao sarneyzismo, abdicaria da liderança do governo na Casa em caráter irrevogável. Mercadante foi chamado ao Planalto. De lá, saiu com as orelhas quentes e continuou na liderança, mandando às favas a irrevogabilidade. Com Lula, o PT viu-se coagido a negociar com Renan Calheiros e com alas ainda mais suspeitíssimas do PMDB. Estourando o escândalo do mensalão, Lula e a cúpula peemedebista acertaram procedimentos a serem tomadas a partir de então para que nada ofuscasse os planos do governo no Senado e na Câmara. A fatura: à revelia da vontade do PT, o Oráculo concedeu seis ministérios ao PMDB.

Lula saiu do centro do picadeiro. As cortinas estariam abertas para que Dilma impusesse seu modo de governo. Seu silêncio seria, então, a primeira evidência disso, certo? Não sei. Alguns não tergiversam ao assegurar que sim, essa opção de atuação fora dos holofotes já é por si só uma prova de que se delineia no horizonte um desenho cujos contornos têm tão-somente o jeito Dilma. O curioso é que esse modo tããããão Dilma vai ao encontro dos desígnios do PT. O PT não gostava das concessões ao PMDB? Dilma reduziu em dois seus ministérios. O PT queria aumentar sua participação na hora de fatiar o orçamento?  O núcleo duro-duríssimo da esplanada é 100% petista (Saúde, Educação – maiores orçamentos –, Planejamento e Casa Civil). O PT quer mais espaço no segundo escalão? A cúpula peemedebista já foi toda posta pra fora dos Correios. Quem os substituirá? O petista Paulo Bernardo (Comunicações) decidirá.

Claro que ainda é cedo para fazer qualquer prognóstico mais bem desenhado. Não corro o risco de dizer que há Dilma demais onde pode haver de menos. O que pode estar em andamento de fato é o que Dirceu já manifestara como meta do PT pós-eleição de Dilma Rousseff: torná-lo maioria.

SOBRE O JEITO DILMA

NO FISIOLOGISMO, PMDB MOSTRA-SE MAIS EFICIENTE COMO OPOSIÇÃO DO QUE A… OPOSIÇÃO

Enquanto o imbróglio PMDB-Dilma não caminha para um desfecho republicano, o PSDB e o DEM permanecem no lugar em que fincaram seus pés nos últimos oito anos: no ostracismo. Com Dilma, o PMDB perdeu 37% das verbas. Até agora a decisão da petista de colocar Alexandre Padilha na Saúde não desceu goela abaixo de alguns abutres peemedebistas. A Previdência também é outro certame. A pasta tem o maior orçamento da Esplanada – R$ 260 bilhões –, mas 96% dessa quantia são destinados a despesas obrigatórias. Ou seja, apenas R$ 182 milhões são livres para investir. Corolário: o PMDB, no afã de amealhar mais cargos, sinaliza causar dois embaraços à presidente: 1- aprovar salário mínimo num valor acima dos R$ 540; 2- surpreender na eleição para presidente da Câmara.

O aliado passou a ser, vejam que coisa, uma pedra no caminho. Já PSDB e DEM, cujo discurso na campanha era de um mínimo de R$ 600, permanecem mais inativos que um espectro. Claro, pra que oposição? Qual a importância de um senador eleito como Aécio Neves levantar a bandeira de seu partido durante a campanha e defender, sim, um mínimo acima do proposto pelo governo? Por que José Serra, que sinalizou que sua lida não acabara ali e é ex-governador do estado mais rico do País, inclinar-se-ia à manifestar seu repúdio – se é que tem – ao fisiologismo descarado em andamento na esplanada? 54 milhões de votos disseram “não” ao modelo lulista de governista. 54 milhões de pessoas viram em Dilma o continuísmo de um projeto ao qual não referendavam. E a oposição continua a ignorar esses 54 milhões de votos.

PSDB e DEM começam bem. O PMDB, aliado, mostra-se mais competente como oposição.do que a própria oposição. Enquanto isso, o PSDB que fique com seu discurso “propositivo”.

NO FISIOLOGISMO, PMDB MOSTRA-SE MAIS EFICIENTE COMO OPOSIÇÃO DO QUE A… OPOSIÇÃO

Por dentro do blog

Chego atrasadíssimo a dois assuntos (ver posts abaixo). Mas fica o registro. A partir do dia 10, estou de volta. Mas, vocês sabem, posso descumprir o trato e dar as caras por aqui antes, hehe.

Por dentro do blog

PAULO VANNUCHI DE SAIAS

Se há uma reticência que me incomoda é  querer abrir o parêntese já fechado dos crimes cometidos durante a ditadura militar. Os esquerdistas mais raivosos teimam em voltar à arenga numa sem-cerimônia obstinada. Saiu Paulo Vannuchi da Secretaria de Direitos Humanos. Entrou Maria do Rosário Nunes. E o que disse a secretária em seu discurso de posse? Que quer, sim, instaurar a Comissão da Verdade. Fico pensando como pode a pasta concentrar tantos interesses oriundos de quem provavelmente se alimenta de pasto em um espaço tão curto de tempo. O antecessor foi um dos principais tutores do Plano Nacional de Direitos Humanos III, aquele, que cassava até mesmo o direito de propriedade privada. A pândega chegou ao então presidente Lula, que só não sancionou a lei graças aos fatos mais escrotos da estrovenga terem vindo à tona em tempo. Ali, por exemplo, via-se o aborto como um “direito humano”. Santo Deus! Agora, a atual secretária mostra-se de igual forma totalmente inclinada a dar andamento à aprovação do PNDH.

Adiante.

O projeto de lei que cria a tal Comissão da Verdade foi enviada para apreciação do Congresso em maio do ano passado pelo então presidente Lula. Ainda aguarda aprovação. De acordo com a redação do projeto, um dos objetivos da criação dessa comissão é “promover a reconciliação nacional” e “promover o esclarecimento circunstanciado dos casos de torturas, mortes, desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres e sua autoria, ainda que ocorridos no exterior”. Trata-se de algo escandaloso! É um afronta à memória do País e um pé nos fundilhos da Lei de Anistia. Sem ela, não haveria democracia possível. Foi a Anistia que consagrou o acordo histórico que selou a paz, dando perdão tanto a militares quanto a extremistas populares. Quem apóia a instauração da tal comissão não quer outra coisa a não ser um revanchismo bocó, e, quem sabe, abrir uma fenda para a concessão de mais bolsas ditaduras.

Pois bem, e o que foi que disse Maria do Rosário? “Faço um apelo à Câmara dos Deputados, poder de onde venho, e ao Senado Federal, com os quais quero manter uma relação de muita proximidade e respeito. Que façamos um bom e democrático debate e possamos aprovar o Projeto de Lei que cria a Comissão da Verdade. Não queremos aqui fazer um embate entre parlamentares contra ou a favor da medida, mas resgatar a nossa história e contá-la de forma completa”, E prosseguiu: “devemos dar seguimento ao processo de reconhecimento da responsabilidade do Estado por graves violações de Direitos Humanos, com vistas à sua não repetição, com ênfase no período 1964-1985, de forma a caracterizar uma consistente virada de página sobre esse momento da história do país”.

Eis aí uma Vannuchi de saias. A nova secretária também se demonstrou muito entusiasmada ao se referir ao PNHD III. “Atuaremos de forma integrada às demais áreas de governo, investiremos na transversalidade das ações, objetivando potencializar iniciativas que façam avançar as bases já lançadas de um Sistema Nacional de Direitos Humanos, cumprindo as metas estabelecidas no Programa Nacional de Direitos Humanos”, afirmou.

Então fica combinado assim: no que depender de Maria do Rosário, cessarão no Brasil a propriedade privada e a garantia dos direitos individuais, e prevalecerão diretrizes como a instauração do revanchismo, descriminalização do aborto, critérios de acompanhamento editorial de veículos de comunicação e outros pontos polêmicos como a união civil de homossexuais. Tudo isso está, no tal PNDH. Eu, pessoalmente, como já deixei registrado em vários posts, sou a favor da união civil de pessoas do mesmo sexo (o que não tem implicações religiosas, como igrejas verem-se compelidas a casar homossexuais) e que tenham direito de adotar filhos, desde que sejam comprovadas as condições dos pais de educá-los adequadamente. Prefiro uma criança num lar a vê-la num abrigo. Mas isso é assunto pra outros vários posts.

Dilma Rousseff, até o momento, só se expressou com silêncio sobre todos esses assuntos. Quando tentou fincar uma posição mais clara sobre o aborto, demonstrou-se ambígua. O que ela pensa a respeito de tudo isso ainda é um mistério. Sobre a Comissão da Verdade, uns dizem que o fato de ela ter mantido Nelson Jobim na Defesa sinaliza mais conservadorismo em questões relacionadas ao passado. Já com relação ao PNDH, lembro que o projeto, em 2009, passou pelo crivo da Casa Civil, quando a atual presidente ainda dava as cartas por lá.

E estamos apenas no 5º dia de governo. Quem disse que sem Lula não haveria assunto?

PAULO VANNUCHI DE SAIAS

E AS VÍTIMAS DOS “COMPANHEIROS QUE TOMBARAM PELO CAMINHO”?

Não, não assisti à posse de Dilma Rousseff. Não vi ao vivo sequer uma palavra proferida pela presidente. Enquanto ela recebia a faixa presidencial de um dos maiores falastrões da contemporaneidade, eu recebia, gostosamente, uma boa porção de isca de peixe. Enquanto ela falava no Congresso, eu tergiversava com amigos sobre a bravura das ondas de uma das praias do litoral norte de Florianópolis. Enquanto ela era ovacionada pela população que soltava perdigotos ao gritar “Dil-má, Dil-má” e “Lu-lá, Lu-lá”, eu me submetia aos perdigotos salgados vindos do Atlântico.

Mas eis que recebo uma ligação em meu celular. “Você está vendo a posse da Dilma?”, perguntou-me um amigo. Alcoviteiro, ele me deixou a par do que a presidente disse sobre os companheiros de militância terrorista que “tombaram pelo caminho” e que não estavam lá para celebrar a ocasião que naquele momento coroava os desígnios dos valentes: a democracia levando uma mulher à Presidência da República. “Ele está me ligando para tirar uma com a minha cara, e num tom todo peculiar que particularmente odeio, desses utilizados por aquelas senhoras desocupadas que telefonam a outras desocupadas no meio tarde: ‘ai, menina, você viu a Sonia Abrão hoje?’”, pensei comigo.

Fiz mau juízo. Não é que Dilma resolveu mesmo recorrer à vigarice intelectual de atribuir à sua causa passada uma glória nada coerente aos objetivos almejados pela turminha do VAR-Palmares? Justamente no dia em que mais estava sob os holofotes, flertou com uma mentira histórica. Se a presidente lamenta que seus amigos terroristas (quem milita em uma organização terrorista, independentemente de pegar em armas ou não, é o que?) “tombaram pelo caminho”, poderia ter-se solidarizado com as famílias daqueles que foram mortos justamente pelos, digamos, companheiros dos companheiros que tombaram pelo caminho. Apenas para registro, menciono alguns deles:

– 26/06/68-  Mário Kozel Filho – Soldado do Exército – SP
– 27/06/68 – Noel de Oliveira Ramos – civil – RJ
– 12/10/68 – Charles Rodney Chandler – Cap. do Exército dos Estados Unidos – SP
– 07/11/68 – Estanislau Ignácio Correia – Civil – SP
– 09/05/69 – Orlando Pinto da Silva – Guarda Civil – SP
– 10/11/70 – Garibaldo de Queiroz – Soldado PM – SP
– 10/12/70 – Hélio de Carvalho Araújo – Agente da Polícia Federal – RJ
– 27/09/72 – Sílvio Nunes Alves – Bancário – RJ
– 11/07/69 – Cidelino Palmeiras do Nascimento – Motorista de táxi – RJ
– 24/07/69 – Aparecido dos Santos Oliveira – Soldado PM – SP
– 22/10/71 – José do Amaral – Sub-oficial da reserva da Marinha – RJ
– 05/02/72 – David A. Cuthberg – Marinheiro inglês – Rio de Janeiro
– 29/01/69 –  José Antunes Ferreira – guarda civil-BH/MG
– 01/07/68 – Edward Ernest Tito Otto Maximilian Von Westernhagen – major do Exército Alemão – RJ
– 25/10/68 – Wenceslau Ramalho Leite – civil – RJ

A lista é imensa. Há muitos outros nomes. Em oportunidades futuras, publicarei outras vítimas feitas pelos “companheiros que tombaram pelo caminho”. Ou, pra ficar mais sutil, dos companheiros dos “companheiros que tombaram pelo caminho”. Afinal, a gente sabe, né, eles nunca pegaram em armas!!!

E AS VÍTIMAS DOS “COMPANHEIROS QUE TOMBARAM PELO CAMINHO”?