SOBRE O JEITO DILMA

Estamos há 288 horas sem ouvir a voz de Lula. Estamos há 288 horas sem ouvir a voz de Dilma Rousseff. O Lula calado de hoje é a consequência de um processo democrático. Quando o Oráculo falava besteiras aos quatro cantos do País, classificavam-no como animal político, cujo perfil atendia perfeitamente à construção mítica inerente a um líder de massas. Na ausência de intelecto, não titubeava em vociferar sandices contra todos que tinha por inimigo. Socorria-se nas licenças concedidas aqui e ali da maioria dos setores da sociedade, os quais enxergavam em sua falta de leitura uma espécie de sabedoria alternativa.  A gente conhece bem esse fenômeno. Um velho analfabeto teria muito mais a dizer do que um jovem universitário diplomado, pois enquanto o primeiro permanecia em seu estado natural (!!!), o segundo não teria discurso melhor, pois sua fala não seria dotada da pureza de um certo primitivismo. Há, aos montes, quem ainda pense que as respostas de que o mundo precisa virão de onde menos se espera. Tolos! A vacina, o carro, o Stilnox e o vaso sanitário vieram de justamente de onde… se esperava que viessem.

Lula calado é isso: a ausência de picaretagens retóricas. Dilma calada já seria algo diferente: seria algo de seu perfil gerencial-técnico-administrativo-eficiente, seja lá o que isso queira dizer. Se Lula não podia ver a luzinha da geladeira acendendo que já começava a dar entrevista, Dilma recolhe-se em seu gabinete distante de qualquer sinal de microfone. Ela não precisa dar declarações, seus ministros e assessores que cuidem disso, já declarou um graduado funcionário do Planalto. Se esse modelo é o ideal ou não, não me cabe especular. Apenas gostaria de saber até quando esse estilo tão, diria, Dilma, irá permanecer.

Quando tiveram início as repercussões de que a então candidata não passava de um poste de Lula, não demorou para que graduados petistas – com destaque para José Eduardo Dutra – viessem a público desmistificar esse ponto de vista. Ouvimos que Dilma não é do tipo de pessoa que se deixe influenciar, que é uma gestora cuja capacidade gerencial seria elemento garantidor de que, em seu governo, as cartas seriam dadas não por um ente superior de razão,  mas sim por ela própria, imprimindo sua marca ao modelo de governar. O engraçado é que sua (dela) forma de governar começou com mais da metade de seus ministros sendo indicada por Lula. “Ah, mas olha o que ela fez com o PMDB, reduzindo em 37% o orçamento do partido na gestão de ministérios, lhe entregando apenas quatro pastas, quando, sob Lula, tinham seis”, pode argumentar um incauto. Respondo logo: isso não quer dizer absolutamente nada.

Em setembro do ano passado, em meio ao auge das eleições, José Dirceu fez um discurso na Bahia no qual destacava o porquê que a vitória de Dilma Rousseff era tão premente para o PT. Disse Dirceu: “A eleição da Dilma é mais importante do que a eleição do Lula, porque é a eleição do projeto político, porque a Dilma nos representa (…). Ela é a expressão do projeto político, da liderança do Lula e do nosso acúmulo desses 30 anos, porque nós acumulamos, nós demos continuidade ao movimento social. Se nós queremos aprofundar as mudanças, temos que cuidar do partido e temos que cuidar dos movimentos sociais, da organização popular. Temos que cuidar da consciência política, da educação política e temos cuidar das instituições, fazer reforma política e temos que nos transformar em maioria”. Para Dirceu, o PT só seria maioria num governo Dilma. Mas por que não no governo Lula? O próprio Dirceu responde: “Lula é duas vezes maior que o PT. Mas nós temos que transformar o PT num partido”. Corolário: em nome do lulismo, o petismo ficou à míngua por oito anos.

Não foram poucas as vezes em que o núcleo duro do PT ficou pelas tampas com as decisões de Lula. A aliança feita com José Sarney desceu goela abaixo de muitos petistas. Aloizio Mercadante, então senador, chegou a declarar que, se mantida a decisão do partido (na verdade, de Lula) de dar as mãos ao sarneyzismo, abdicaria da liderança do governo na Casa em caráter irrevogável. Mercadante foi chamado ao Planalto. De lá, saiu com as orelhas quentes e continuou na liderança, mandando às favas a irrevogabilidade. Com Lula, o PT viu-se coagido a negociar com Renan Calheiros e com alas ainda mais suspeitíssimas do PMDB. Estourando o escândalo do mensalão, Lula e a cúpula peemedebista acertaram procedimentos a serem tomadas a partir de então para que nada ofuscasse os planos do governo no Senado e na Câmara. A fatura: à revelia da vontade do PT, o Oráculo concedeu seis ministérios ao PMDB.

Lula saiu do centro do picadeiro. As cortinas estariam abertas para que Dilma impusesse seu modo de governo. Seu silêncio seria, então, a primeira evidência disso, certo? Não sei. Alguns não tergiversam ao assegurar que sim, essa opção de atuação fora dos holofotes já é por si só uma prova de que se delineia no horizonte um desenho cujos contornos têm tão-somente o jeito Dilma. O curioso é que esse modo tããããão Dilma vai ao encontro dos desígnios do PT. O PT não gostava das concessões ao PMDB? Dilma reduziu em dois seus ministérios. O PT queria aumentar sua participação na hora de fatiar o orçamento?  O núcleo duro-duríssimo da esplanada é 100% petista (Saúde, Educação – maiores orçamentos –, Planejamento e Casa Civil). O PT quer mais espaço no segundo escalão? A cúpula peemedebista já foi toda posta pra fora dos Correios. Quem os substituirá? O petista Paulo Bernardo (Comunicações) decidirá.

Claro que ainda é cedo para fazer qualquer prognóstico mais bem desenhado. Não corro o risco de dizer que há Dilma demais onde pode haver de menos. O que pode estar em andamento de fato é o que Dirceu já manifestara como meta do PT pós-eleição de Dilma Rousseff: torná-lo maioria.

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