RESSURGINDO, COM MAHLER

Milhares e milhares de pessoas cultivam a música; poucas, porém, têm a revelação dessa grande arte. A frase é do grande compositor alemão Ludwig Van Beethoven (1770 – 1827), revolucionário no seu tempo – foi o primeiro a usar um coral de vozes em uma sinfonia, sua famosa Nona. A máxima de Beethoven merece ser apreciada a fundo. Como, afinal das contas, tem-se a “revelação” dessa grande arte?

Desenvolver a capacidade de sensibilizar-se mediante uma peça musical (e estamos falando de música erudita, registre-se) é atividade a ser exercida em doses homeopáticas, a qual, num paralelo, podemos tê-la sob o mesmo prisma de Éthienne Bonnot de Condillac quando tratou da noção do eu em seu Traité des sensations (1754), reproduzido pelo excelente escritor argentino Jorge Luis Borges n’O Livro dos Seres Imaginários. Condillac nos convida a refletir sobre a origem das ideias. A figura utilizada para tal é uma estátua de mármore cujas feições assemelham-se às humanas. Num primeiro momento, Cadillac atribui ao monumento apenas um sentido: o olfativo, aquele que chama de “talvez o menos complexo de todos”. Um cheiro de jasmim é o começo da biografia da estátua. Por um instante, tão-somente esse cheiro é o único presente no universo. Ele é o universo. Depois, esse universo também será o cheiro da rosa, e do cravo, e da dama-da-noite… Consideremos que na consciência da estátua haja um cheiro único, e já teremos a atenção; que perdure um aroma quando o estímulo tiver cessado, e teremos a memória. Que uma impressão atual e outra reminiscente ocupem a atenção da estátua: eis a comparação. Percebendo analogias e diferenças, temos o juízo. Que a comparação e o juízo novamente ocorram, e temos a reflexão. Que uma lembrança agradável seja mais fulgurante que uma impressão desgostosa: já temos a imaginação. Concebidas as faculdades do entendimento, as da vontade surgirão após: amor e ódio, esperança e medo. E assim Condillac percorre um instigante caminho, atribuindo à estátua sentidos desencadeados a partir de outros até que se chegue ao cume: a noção do eu.

Que sejamos todos estátuas. Nosso universo é o silêncio. Irrompe um som uníssono e trêmulo como o de muitas abelhas cujo bater das asas é perfeitamente sincronizado. Em seguida, um conjunto de graves veludos quase que truculentamente atravessa esse trêmulo. Os primeiros são sons de violinos e violas, os segundos cellos e contrabaixos; todos  nos atraindo para o mundo da 2ª Sinfonia do compositor austríaco Gustav Mahler, Ressurreição. Se mantivermos o trêmulo em nossa consciência, eis a memória. A atenção é desviada para o grave. Percebemos a diferença de timbres? Eis a comparação! E assim vamos… À noção do eu – e a outras, como veremos adiante — se chega pelo som também.

Para executar Ressurreição são necessários 4 flautas, 2 piccolos, 4 oboés, 2 english horns (também conhecidos como oboé d’amore), 5 clarinetes, 4 fagotes, 1 contrafagote, 10 trompas, 8 trompetes, 4 trombones, 1 tuba, 2 tam-tams, 1 bass drum, 1 snare drum, 1 teclado de glockenpiel, 1 triângulo, cymbals (suspensos e raspados), chimes, 8 tímpanos, 1 órgão, 2 harpas, violinos, violas, cellos, contrabaixos, coral de vozes e duas solistas. Grandes formações orquestrais são características das obras de Mahler. Sua oitava sinfonia, por exemplo, é mundialmente conhecida como a “Dos Mil”, por exigir mais de mil pessoas entre orquestra, solistas, corais adulto e infantil para tocá-la. Além da quantidade de pessoas, Mahler também quase sempre escrevia obras longas, com mais de uma hora de duração. Ele dizia que suas sinfonias deveriam ser tão grandiosas como o mundo, e elas deveriam abraça-lo.

Graças à sua ousadia de escrever para um grande número de instrumentos, Mahler conseguiu explorar sonoridades diversas, nos chamando a atenção para diferentes coloridos orquestrais, os quais se apresentam de formas alegres a tristes, de folclóricas a temas infantis, de melodia e harmonia introspectivas a explosões sonoras que nos remetem efusivas marchas militares e majestosos pesantes!

E é passando por todas essas variações que em Ressurreição, que nos conta o triunfo da vida sobre a morte, Mahler nos envolve num mundo cuja tônica é mostrar como a vida é bela e horrorosa; que, sim, há dores, mas elas hão de cessar. É uma mensagem de esperança. Se por um lado a morte é atroz, é também libertadora, pois nos arrebata dos malgrados inerentes à condição humana. “Devo morrer para viver”, canta o coral já no final da sinfonia (essa parte se inicia aos 48 segundos do vídeo abaixo), versos de Goethe que, em Ressurreição, surgem fortemente nas vozes em uníssono de um coral sustentado por cordas em tremulo e respondido por um estouro dos pratos, marcando o início de uma escala ascendente das trompas e, após, novamente, o coral repete: “Devo morrer para viver”.

“Ah, mas que  coisa mais pessimista”, podem observar alguns. Não necessariamente. O homem é uma herança de si mesmo. Cada instante devemos decidir o que fazer no instante seguinte, já diria Ortega y Gasset, e isto faz da vida do homem um problema permanente. Morremos um pouco a cada minuto, mas ressurgimos também em momentos mil. Ninguém é plenamente feliz. Vivemos em busca de felicidades momentâneas como compensatórias dos únicos nirvanas plenos aos quais temos direito: um no útero da mãe, e outro na…morte. Mas isso já é assunto para a Psicanálise.

Mas qual, afinal das contas, é a revelação da música, para volvermos ao inicio do texto? No caso específico da Segunda Sinfonia de Mahler, podemos afirmar que a essência é a eterna ressurreição do homem. Viver é ressurgir de um amor não correspondido, é ressurgir da perda de um ente querido, é ressurgir das intrigas do cotidiano, é ressurgir dos medos, é ressurgir das inseguranças, é ressurgir das calúnias que nos torpedeiam, é ressurgir das frustrações, é ressurgir de um momento, de um pensamento, de um preconceito, de uma rejeição, de uma rusga, de uma lágrima que cai…

Por isso vivemos.
Por isso ressurgimos.
Abaixo, o final da Segunda Sinfonia de Mahler. A orquestra é a Filarmônica de Viena, conduzida por Leonard Bernstein.

RESSURGINDO, COM MAHLER

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