MAIS INDIVÍDUO, MENOS CATEGORIAS ORGANIZADAS

Os dias que se seguem estão especialmente miseráveis. Não me refiro ao fato de o povo ter ou não mais comida na mesa, se as pessoas que moram num cômodo e cozinha na periferia de qualquer grande cidade brasileira já têm condições de parcelar em dezenas de meses televisões de tela plana cujas medidas chegam a 42 polegadas, se a higienização das pudentas hoje se dá mais com papel higiênico Neve, se os aeroportos já não mais comportam apenas as classes altas, mas também as emergentes, felizes da vida por saber que há Big Mac em Cumbica também… Enfim, eu poderia elencar mais e mais razões para a euforia hodierna. Entretanto, não é de bens materiais amealhados que quero falar. Trata-se de algo bem mais valioso: o indivíduo.

Leitores meus de antiga data sabem bem que mando às favas esses papinhos medíocres de coletividades, esse fenômeno execrável ao qual quem adere vê-se impelido de abrir mão das próprias convicções em nome de uma causa coletiva. É, como disse Freud, o heterogêneo submergindo no homogêneo. Por que toco nesse assunto? Bem, antes, peço que assistam a um videozinho do pastor Silas Malafaia. Sua fala e a reação desencadeada por ela merecem nossa atenção. Aos fatos.

Como notaram, o pastor queixa-se da cobertura desigual dada pelo jornal O Globo à Marcha pra Jesus realizada no ano passado. Na Folha de S.Paulo e n’O Estado de S.Paulo, o evento contou com chamadas de capa e matérias de meia página dentro dos jornais. Já n’O Globo, tudo resume-se a um minúsculo box. A mesma falta de atenção não foi dada à Parada Gay, também realizada no mesmo ano. O diário carioca dá chamada – com foto – de capa para o evento e a ele dedica extensa reportagem. O mesmo fizeram Folha e Estadão.

Como soçobrar não é do feitio de Malafaia e costuma ser fácil presa da ira, emenda relembrando o episódio em que um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus chutou uma santa. Não por ser iconoclasta, claro, mas por pura ignorância. À época, sublinha o pastor, a imprensa inteira passou “15 dias” massacrando o bispo. O fenômeno atingiu tal dimensão que o agressor de estatuetas de gesso viu-se obrigado a sair do País, pois até ameaças de morte começara a sofrer. Construído o pano de fundo, Malafaia traz à luz: ““Os caras na Parada Gay ridicularizaram símbolos da Igreja Católica e ninguém fala nada. É para a Igreja Católica ‘entrar de pau’ em cima desses caras, sabe? ‘Baixar o porrete’ em cima pra esses caras aprender. É uma vergonha”.

Malafaia refere-se aos 170 cartazes que a organização da Parada espalhou pela Avenida Paulista, nos quais 12 modelos com corpos esculturais, cuidadosamente trabalhados nos três supinos, peck deck, rosca scott, rosca direta, extensão ombro, cavalinho, remadas, pulleys, gêmeos, glúteos, adução, carrinho e todos os demais aparelhos (de tortura, diria tia Íris, de Fina Estampa) disponíveis em boas academias. A finalidade do cartaz era, digamos, didática: use camisinha. Ocorre que os 12 modelos, em fotografias flagrantemente homoeróticas, aparecem caracterizados com santos da Igreja Católica. Você consegue imaginar São João com barriga com seis gominhos e só 4% de gordura no corpo? E São Sebastião com 45 centímetros de braço e um peito tão notadamente trincado como depilado? Pois é. Foi exatamente isso que fizeram os organizadores do evento. Só faltou um logo da Probiótica e outro da Universal ao lado dos modelos.

Mal acabaram de ir ao ar na TV Bandeirantes pelo programa Vitória em Cristo, os apontamentos de Malafaia ecoaram pela rede, ganhando contornos hostis em meio à comunidade GLBT. Tudo por causa da oração “baixa o porrete”. Para alguns, tratar-se-ia de um incentivo à homofobia. Para resumir a ópera, o Ministério Público Federal em São Paulo, agora, exige que o pastor se retrate em rede nacional. Diz o MP na ação: “as gírias ‘entrar de pau’ e ‘baixar o porrete’ têm claro conteúdo homofóbico, por incitar a violência em relação aos homossexuais”. “É uma piada”, reagiu Malafaia.

Considero Silas Malafaia uma das grandes desonestidades intelectuais dos dias atuais. Hábil em discursar para a massa, tem a capacidade de, em nome da Bíblia, eclipsar verdades históricas. Como se não bastasse isso, também costuma imergir em campos cujos conhecimentos específicos figuram no rol das teorias físicas, químicas, matemáticas e biológicas. Num culto há alguns anos, Malafaia, ainda com relevante bigode, propôs-se a provar que a teoria do Criacionaismo é verdadeira, à qual a ciência fornece amparo, segundo ele. Chegou a socorrer-se na Primeira Lei da Termodinâmica. Disse o pastor: “a energia não pode ser criada nem destruída e que a quantidade total de energia no universo é sempre a mesma, que a energia pode tomar várias formas”. Ele então ridiculariza o que dizem os evolucionistas, quando dão conta de que a energia continua em expansão no universo. “Agora vamos submeter o postulado criacionista dentro da Primeira Lei da Termodinâmica. Deus fez todas as coisas completas e acabadas. Perfeito! A quantidade de energia é sempre a mesma”. É ou não é pra cair da cadeira? Trata-se de uma vigarice sem tamanho. A Primeira Lei da Termodinâmica é válida para SISTEMAS ISOLADOS. Mas o bonitinho tratou logo de jogar o universo na conversa. O universo, pastor Silas Malafaia, não é um sistema isolado!!! É constrangedor ver um nomão desses dizendo asneiras por aí, ao que multidões respondem ‘amém’, literalmente.

Como isso não bastasse, o valente também resolveu meter a Segunda Lei da Termodinâmica na conversa. “Ela [a lei] diz: o universo caminha de níveis organizados para níveis cada vez mais desorganizados. (…) Toda a natureza está em descendência. O que os evolucionistas dizem? Que o universo caminha de níveis desorganizados para níveis cada vez mais organizados. É totalmente contrário da segunda lei. (…) Já Deus fez todas as coisas completas, acabas e perfeitas. Quando o pecado entrou no mundo, desarrumou o sistema. Perfeito!”. Malafaia deve ter fugido das aulas de Física. De onde ele tirou esse conceito ridículo? Pior: de onde tirou coragem para falar asneiras em público, sem sequer pestanejar um segundo? A lei questão, na verdade, defende que uma parte de um sistema fechado ao interatuar com outro agente terá seu equilíbrio térmico estabilizado. Melhor explicando: por que uma xícara de café não fica quente para sempre? Por que ao perder temperatura o líquido não fica gelado, apenas frio? 

Encerrando o festival de abobrinhas, Malafaia discorreu sobre a lei da causalidade. “Sabe o que diz essa lei? Que nenhum efeito é quantitativamente maior e qualitativamente superior à causa. Nenhum efeito pode ser maior do que a causa”. Bem, o pastor deveria ler mais Aristóteles. Nunca vi essa teoria ser resumida tão porcamente. Mas atemo-nos às suas palavras, pois elas mesmas o colocarão por terra. Segue ele: “vamos ver o que a evolução diz. Matéria inanimada, causa. Vidas mais complexas, como eu e você, efeito. Não pode”. Já pararam de rir? Então sigamos. “Agora vamos submeter ao postulado criacionista. Deus, grande, tremendo, onipotente, onisciente, eterno, cria o homem, um ser com suas limitações. Deus, causa, maior do que o homem. Ta perfeito!”. Malafaia diz que essa lei é aceita em todos os campos da ciência. Mentira! No campo da filosofia, sim; da ciência, não. Vamos ver: uma simples bituca de cigarro (causa), senhor Malafaia, não pode incendiar uma floresta (efeito)? Um vírus (causa) não pode aniquilar dezenas de milhares de humanos (efeito)? Cinco bolinhas de chumbinho (causa) não podem comprometer mortalmente o organismo de um animal (efeito)? Vigarice pura!

Apesar das divergências que nutro com Malafaia, vejam bem, não pretendo cala-lo. Ele é livre para dizer besteiras, assim como os crentes que o escutam são livres para admirá-lo e crer piamente em tudo o que diz. Mas afinal das contas, o que querem os militantes gays com o pastor? Enfatizo: MILITANTES GAYS, não gays. Ora, querem sim, silenciar sua voz. Usam-se, para isso, de artifícios constrangedores. O tal “descer o porrete” notadamente não tem sentido ipsis litteris. Mas que… Que Malafaia não se atreva a dizer em seu programa que Deus vai fazer a obra e todos morreremos de alegria. Será acusado de genocida.

Há escamoteado na matriz sobre a qual está construído esse enredo algo que deveria nos despertar preocupação: a tendência de as pessoas se permitirem ser seqüestradas por correntes de opinião. Em nome disso, passam a se submeter a ideais homogêneos, tendo seus atributos individuais apagados, pois não são mais considerados como imperativos; a não ser, claro, que tais convicções comunguem com a causa. Caso não, esqueça seus valores e adira imediatamente ao pacote de moções apresentado.

Os resultados disso são aterradores. Explico: sempre haverá ONGs e entidades à procura de minorias afim de representa-las. Assim nasceu a Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, cujo presidente é o ilustre Fernando Quaresma. Ele já antecipou que o tema da Parada neste ano será o apoio incondicional à distribuição do tal kit gay nas escolas. O assunto causou fervor no ano passado, quando o deputado federal Jair Bolsonaro trouxe à luz o que de fato continha nesse material. (Não, não endosso as idéias pterodátilas do ilustre deputado, antes que me perguntem). Não custa lembrar: trata-se de um vídeo intitulado Conhecendo Bianca, no qual um adolescente de nome Ricardo conta sua história para virar Bianca. O público-alvo do filme são crianças! Tratei longamente desse assunto em outro post aqui no blog, em 16 de janeiro do ano passado. 

Se o tema da parada este será o apoio à adoção do kit, presume-se que os gays sejam todos favoráveis ao certame, não? Afinal das contas, uma entidade como a APOGLBT jamais deixaria de ecoar os anseios de seus representados, certo? Vamos ver. Leiam trecho de um comunicado feito no site da associação.

Homofobia tem cura: educação e criminalização! – Preconceito e exclusão, fora de cogitação! é o tema da 16ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, que ocorre em junho de 2012. A frase faz referência ao problema da discriminação como uma doença social que afeta a cidadania coletiva e reivindica a aprovação do projeto didático Escola Sem Homofobia e do Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122/2006 como as principais ferramentas para combater esse vício. O tema foi o mais votado pelo público em uma enquete realizada no site da organização. Assim como as outras opções, a frase escolhida é resultado de um concurso cultural promovido nas redes sociais.

Atentaram para o trecho em destaque? Podemos presumir que uma entidade do calibre da APOGLBT tem uma relevante gama de engajados, correto? Afinal, eles organizam o maior evento gay do Brasil, arrastando milhões para a Paulista. Nada mais justo que a associação tenha legitimidade para definir em favor de que os gays deverão se posicionar neste ano, podemos concluir. Prossigamos com o comunicado do site.

A autoria do tema é de Anita da Costa Prado e Luis Guilherme, que participaram do concurso #temadapadara, promovido pela Associação durante o último mês de novembro. Entre cerca de 250 sugestões recebidas por e-mail, Facebook e Twitter, as frases de Anita e Luis foram selecionadas pela diretoria e coordenadores da entidade com outras quatro, que formaram mais duas opções de tema. Em votação realizada no site da APOGLBT, o tema composto pela dupla foi o escolhido pelo público.

Homofobia tem cura: educação e criminalização! – Preconceito e exclusão, fora de cogitação! (de Anita Costa Prado e Luis Guilherme) –164 votos (41%)

Onde tem amor, tem família! – Casamento e adoção, nós também queremos! (de Maju Doria e Carol Martins) 148 votos (37%)

Manifeste sua identidade! Celebre a diversidade! – Somos o que somos e lutamos pelo que queremos!(de Gabriel Ribeiro e Paulo Cesar Gonçalves) 85 votos (21%) 

Entenderam? O maior evento gay do Brasil reivindicará a adoção do kit gay nas escolas por decisão de 164 votos – o que não quer dizer que sejam 164 pessoas, pode ser menos. É claro que a grande maioria das pessoas que vão ao evento deve dar de ombros pras causas evocadas por seus organizadores. Mas é essa não é a questão. O embuste é: 164 votos não derrubam nem síndico de prédio, mas decidem por que milhões de gays militarão, pautam veículos de imprensa, ganham o mundo, arrastam para o palco e trios elétricos autoridades, amealham patrocínios oficiais, e assim vai.

Mas o qual o liame entre Malafaia e a militância gay? Simples: o massacre pelo qual passa o pastor nada mais é que do que resultado de correntes organizadas. Tenho amigos gays, às dezenas. Perguntei a eles o que achavam da declaração do líder religioso. 100% disseram-se ser indiferentes. Entretanto, uma minoria acha-se no direito de chamar para si a responsabilidade da causa gay, se autoconfere legitimidade para tal, e faz um estardalhaço sem tamanho. É o mesmo que o ocorre com os negros. Vez por outra surge uma ONG dizendo que “os negros” querem mais cotas nas universidades e requerem mais literatura negra nas escolas, seja lá o que isso queira dizer. Uma ova! Não demorará muito para que surjam organizações falando em nome dos gordos, dos carecas, dos albinos, dos banguelos e dos que gostam da música de Mussorgsky ; e, para eles, reivindicando privilégios especiais, como se outorga para isso tivessem.

É preciso reconhecer mais o indivíduo e menos as categorias. Um cidadão evangélico, gay, negro, gordo, magro ou admirador do Chicabon deve elevar o estandarte de suas próprias convicções. Jamais permitir que correntes de opinião tomem sua voz sem consentimento e, com isso, promovam conflitos no campo das idéias pelos quais ele – o homem-indivíduo – não está disposto a lutar. Nos dias de hoje, um gay que preste é um gay que levante a bandeira GLS. Um negro legítimo é aquele que exige cota e por ela batalha. Pobre bom é o pobre que vota no PT – se vota no PSDB é alienado. 

Tempos cruéis.

Ou começamos a nos valorizar como indivíduos e não como categorias ou qualquer dia desses não poderemos mais pisar nas ruas sem que estejamos todos engajados em alguma causa. 

É claro que a grande maioria das pessoas que vão ao evento deve dar de ombros pras causas evocadas por seus organizadores. 

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