EXIBIR NOSSA POBREZA AGORA É UM IMPERATIVO

Vamos dizer tudo, aborrecendo, por conseguinte.

O príncipe Harry, como todos sabem, está no Brasil. Passa seu último dia hoje no interior de São Paulo, onde participou de um jogo beneficente de pólo. Antes disso, esteve no Rio de Janeiro. Lá, teve a oportunidade de conhecer uma comunidade (dizer “favela” hoje em dia virou motivo para despertar ódio na turminha do politicamente correto) pacificada, o complexo do Alemão. Foi no morro que Harry assistiu à apresentação de um coral formado por criancinhas pobres e desafinadas. Nem preciso dizer que o segundo atributo, demérito, deixa de ser levado em conta quando seu possuidor  tem o primeiro. Antes de ir ao Alemão, Harry teve oportunidade de jogar rugby com menininhos da zona sul da cidade.

O terceiro na linha de sucessão do trono britânico deve ir embora sem passar pela capital do estado. Que absurdo! Ele tem de conhecer as virtudes dos paulistanos também, ora essa!

A galerinha das comunidades do extremo sul bate uma lata como ninguém. O príncipe vai perder essa? Consta que a rapaziada do Instituto Baccarelli – a mesma que numa noite de apresentação de Ennio Morricone no teatro Alfa cantou “Sina” antes do concerto – está fazendo aulas de inglês. O inglês vai embora sem ouvi-los cantar Imagine? Urge levar Harry juntamente com Buzão, aquele rapper da gente do SPTV, a uma comunidade da zona norte, para que possa ver como nossos jovens mandam bem num rap e como improvisam para fazer lindos documentários de boniteza duvidosa. Outra coisa que o britânico não pode perder é uma apresentação de capoeira dos nossos meninos de qualquer escola pública da zona leste da cidade. É um must! A arte de plantar os membros superiores no chão e ficar com os membros inferiores pro alto encanta qualquer um. Ainda mais quando somos brindados pelo acompanhamento de um berimbau e um canto arrebatador de Paraneuê. Ah, claro, é indispensável levar Harry para um “tibum” no Sesc Itaquera. Ele precisa saber como nossa gente se refresca no verão.

Está por trás disso uma coisa que chamo de ode ao pobrismo. Essa corrente prega que nossos valores mais elevados estão sintetizados na favela, no rap, no funk, na bateção de lata, e por aí vai. Há alguns anos escrevi um ensaio sobre isso, o qual compartilho com vocês agora.

É algum dia do mês de dezembro de 2008. Regina Casé está no Rio de Janeiro. Passeia pela praça Egeu, próxima às ruas Abdon, Aquim, Ezequias, Elá e Salatiel. Ali nas redondezas também há a praça Nataniel, cercada pelas ruas Davi, Cesareia, Caldeia, Roboão, Amiúde e Israel. Entre crianças saltitantes, Casé avança para outra praça, a Eliseu, no centro das ruas Jessé, Judá, Jordânia e Amom. Ali se aglomeram pessoas das redondezas da praça Demétrio, entre as ruas Josué, Cenáculo, Salim e Josias. Mães com mais de três filhos vêm das proximidades da praça Hazael, próxima de Creta, Rimon, Jafia e José de Arimateia. Eis a Cidade de Deus. Se pelas sagradas escrituras o lugar preparado pelo Pai aos que foram fiéis até o fim é cercado por muralhas de ouro, atravessado por ruas de cristais, cheios de mansões e com anjinhos voando de um lado para o outro numa eterna alegria, o bairro periférico do Rio de Janeiro resume-se num marrom predominante: o da terra, o de alguns barracos e o das pessoas. Se na Jerusalém celestial há um coral de milhares de santos entoando glórias àquele que os criou acompanhado por uma orquestra de serafins e querubins, d’onde Regina Casé está emana uma música com melodia linear, atonal, não harmônica, ritmo marcado por pancadas e letras que nos convidam a práticas inimagináveis quando se está em meio a um lugar, digamos, tão bíblico.

“A periferia é o centro”, proclama Regina Casé no Central da Periferia, quadro levado ao ar pela Rede Globo no dominical Fantástico.  É bom analisar parcimoniosamente o que a pretensa repórter do pensamento moreno quer dizer com essa história de “centro”. As minudências que nos ajudam a concluir o que pensa Casé vão-se revelando à medida que sua parcialidade frente ao meio em que está exala-se escancaradamente. “Com esse sucesso todo do funk, por que você acha que durante tantos anos ele continuou sendo esquecido, anulado pela crítica e pelos jornais?”, pergunta Casé. DJ Marlboro responde: “ela vai ser sempre rejeitada, porque as pessoas descarregam nessa música o preconceito que no Brasil é velado contra o preto, o pobre e o favelado”. E assim chegamos a um corolário perigoso: quem não gosta de funk também não gosta de preto, pobre e favelado.

Central da Periferia, à primeira vista, nasce com aquele propósito nobre de mostrar a diversidade do nosso País, a cultura do outro – sua música, seu modo de falar e entender suas metafísicas influentes como liame que, de certa forma, nos mantém num pé de igualdade mesmo na diferença. Ligar a TV ver que a periferia produz funk, rap, vocabulário inadequado e lições de vida é apenas um método cujo fim esconde em suas entranhas algo perverso: o ode ao pobrismo. O que muitos ignoram é o que ele provoca de fato: uma nova forma de apartheid social. Assistir a Regina Casé no meio da multidão da Cidade de Deus, trazendo à luz seus costumes e tradições como se fossem a essência de suas virtudes nos faz pensar que quem é “do asfalto” tem muito a aprender com eles. No Capão Redondo, periferia de São Paulo, Ferréz, um escritor que separa com contumácia o sujeito de seu verbo com vírgula, também figurou no Central da Periferia. Sua literatura marginal – como ele mesmo a denomina – faz apologia àquilo que Eric Hobsbawm chamou em seu livro Bandidos de ladrão social: se rouba o rico em prol dos pobres, amém. Quando Luciano Huck teve seu Rolex levado  por bandidos em um assalto no Itaim Bibi, em São Paulo, Ferréz escreveu um artigo para a Folha de S.Paulo no qual justificou o roubo. “O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou. No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes”. Claro, antes desse epílogo, Ferréz fez um resgate social da vida do larápio. Usaria o dinheiro da venda do relógio para manter a si e a sua família por alguns meses.

No mundo da Central da Periferia, ensinar Camões aos moradores daqueles lugares cheios de abandono (não é, Manuel da Barros?) seria barbárie. A cultura “deles” deve permanecer intacta, livre de nossa sina de português correto. A música de Bruckner ser-lhes-ia impensável como arquétipo de beleza. Nós, os “reacionários”, é que temos de praticar genuflexão quando surpreendidos pelos batidões. É como se o morro não fôssemos nós mesmos, mas sim uma variante dentro de sistemas de valores distintos. Certa feita indagaram Lévi-Strauss se ele se identificava com os índios que estudara. “Não, de maneira nenhuma”, respondeu. Regina Casé e todo mundo que simpatiza com a periferia provavelmente não se identificam com sua cultura, mas tem por ela incontestável e basbaque reverência.

Nesse contexto, podemos até mesmo traçar um paralelo com o Discurso Sobre a Origem da Desigualdade, de Rousseau, o bom humanista que abandonou dois filhos aos cuidados de asilos de crianças. Segundo esse texto, a desigualdade entre os homens aumentou proporcionalmente ao aumento da civilização. O homem, quando em seu estado de natureza, preservaria consigo todas as virtudes necessárias para viver em comunidade, livre, por exemplo, da tentação da propriedade, uma vez que todos os recursos necessários à vida encontram-se abundantemente disponíveis a todos. Rousseau diz que a história das moléstias humanas seguiram  a história das sociedades civis. No auge de seu pensamento, Rousseau crava: “se esta [a natureza] nos destinou a ser sãos, ouso quase assegurar que o estado de reflexão é um estado contra a natureza, e que o homem que medita é um animal depravado”. Não foi à toa que ao comentar tal obra, Voltaire, numa cartinha enviada a Rousseau, disse que ao ler tal discurso sua vontade foi de andar sobre quatro patas.

Na Central da Periferia, o morro tem de prevalecer intocável, sem sofrer nossas influências carcomidas pelo odiável capitalismo – esse que nos trouxe as vacinas, o carro, o vaso sanitário e o Dramin B6.

Então vocês, caros leitores, já sabem: quando receberem visitas de amigos e familiares de fora do estado, nada de levá-los para conhecer o Masp, o Parque da Independência, a Avenida Paulista, a boemia da Vila Madalena, o edifício Martinelli, a Sala São Paulo, a Osesp,  a Oca, o DOM… nada disso. O negócio é presentear-lhes com uma coleção de bonequinhos que retratem todo o sofrimento dos retirantes nordestinos (assim como fez Lula ao dar uma lembrancinha ao Papa), colocá-los numa roda de capoeira (como fizeram com Obama e sua família), promover um favela tour em qualquer comunidade (como fora privilegiado o príncipe Harry), e assim por diante…

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