DIA DAS MÃES SEM MÃE

Queridos,

quem me lê sabe que raramente abordo assuntos pessoais neste espaço. Sinto-me particularmente incomodado com quem faz das redes sociais um meio para espargir imotivadamente suas glórias, suas virtudes e/ou suas desgraças. Como o importante é ser feliz – ou tentar ser, pois só os idiotas são plenamente felizes –, se há quem se sinta bem e faz seu espírito locupletar-se tornando públicas suas intimidades, amém. No entanto, a data de hoje me induz a romper um pouco essa regra.

Como sabem alguns, este é o segundo Dia das Mães que passo sem minha mãe. Perdi-a há quase dois anos, mais precisamente em 17 de julho de 2010, quando um infarto – o quinto! – ceifou a vida que batia naquele peito.  Ingratas as doenças do coração! Das enfermidades físicas, as consequências impingem cansaço, fadiga, dificuldade para respirar, uma sensação de angústia, privação de sono e, no extremo, trombose. Das moléstias do espírito: um amor não correspondido, a saudade de quem cuja volta é impossível, as silentes noites em branco e de impetuosas  lágrimas no travesseiro desencadeadas pelos segredos do… coração!

Sim, minha mãe me faz muita falta. Minha vontade é que ela estivesse viva ainda. Fernando Pessoa já disse que, de tudo nessa nossa vida, ficam três coisas: a certeza de que estamos sempre começando, a certeza de que precisamos continuar e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar. Na mosca!

Não, meus caros, não sou adepto da corrente de pensamento – que é a da maioria das pessoas – cuja filosofia é apregoar que ninguém morre antes da hora, e que nossa descida à sepultura nada mais é que o cumprimento da vontade de seres metafísicos – se é que me entendem. É como se fôssemos fantoches do querer alheio, e nossas próprias vontades – entre elas a principal: a de viver – não existissem, pois não passariam de desencadeamentos do arbítrio do divino.

Se Deus define quando devemos morrer, caberia questionar aos que defendem essa risível teoria o porquê de o Altíssimo ter permitido que gente como Hitler vivesse até 56 anos, Mao Tsé Tung até 82 e Stalin até 74; e gente como Mahler somente até 50, Agostinho até os 75 e Augusto dos Anjos até 30. Qual desses dois grupos de pessoas seria o mais virtuoso?

Eis o corolário:

Morremos porque adoecemos.
Morremos porque sofremos acidentes.
Morremos porque ficamos velhos.
Morremos porque fatalidades ocorrem.
Morremos porque não somos eternos.
Morremos porque a morte faz parte da vida.
E não porque o tribunal penal do céu sentenciou-nos à pena capital.

Minha mãe se foi. Não, não foi um ciclo se fechou, pois se viva fosse, ainda haveria muitas coisas para que fizesse. A vida de alguém não é um fim em si mesma, mas é também a vida dos que a envolve. Um conselho, um abraço, um aceno, um sorriso, um colo, uma aquiescência, um não, um “bom dia”, um “durma bem”, um “está na mesa”, um “como foi seu dia?” são componentes do cotidiano que enriquecem nossa vida e a tornam melhor. A partida de quem nos proporciona isso não é o fim de um ciclo, mas interrupção.

Conquanto a saudade aperte o peito, aprendemos a conviver com ela e nos adaptamos à paisagem da qual muitos de nossos queridos não são mais personagens.

DIA DAS MÃES SEM MÃE

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