TUDO DE NOVO…

Começaram a piscar as luzinhas de Natal. No centro dos shoppings pelos quais passei na última semana, já desponta aquele pinheiro gigantesco, repleto de penduricalhos e fios de algodão. Somos um país tropical – infelizmente –, mas cisma-se com impressionante contumácia simular um Natal gelado por aqui. Por que não nos conformamos logo que brasileiro quer mais é praia, calor, cerveja e farofa, seja Ano Novo, Carnaval, Páscoa, Festa Junina, Dia das Crianças, Finados ou Natal? O bom velhinho, com seus cervos e trenó, que vá procurar sua turma no pólo Norte. Eu adoraria que tivéssemos neve por aqui. Não suporto calor. Basta o termômetro oscilar entre os 22 e 25 graus pra meu humor ir pras cucuias. Basta despencar para 10 graus que meu espírito se locupleta. Mas fazer o quê, não é mesmo? Um dia ainda mudo pra Europa! Ou pra Nova York. O inverno daquela cidade já me basta. Mas como essa não é a realidade destepaíz, não vou comprar uma máquina pra ficar disparando bolinhas de isopor pra me servir de consolo…

Se há algo que me toma de assalto nesta época do ano é a preguiça. As pessoas mudam – não para algo novo, surpreendente, mas sim para aquilo que mudaram no ano imediatamente anterior. Como o verão se aproxima, as academias começam a ficar mais lotadas. Todo mundo querendo queimar os quilinhos a mais para poder mostrar as curvas na praia. Como não resistem a um mês de esteira ou a 15 quilos no supino, logo abandonam seu intento. E a barriguinha continua ali, firme e forte, tal qual – senão pior – no ano passado. E os braços, finos, assim permanecem. Tenho uma amiga — cujas curvas, se submetidas a uma severa avaliação, serão irremediavelmente reprovadas – que promete há três verões entrar em forma. “Meu sonho é andar pela Praia Brava em pé de igualdade com aquelas meninas”, vislumbra. Mas quê…

E aqueles que prometem trocar de carro, estudar mais, arrumar outro emprego, abrir um negócio, tornar-se uma pessoa melhor, ter filhos, fazer vasectomia, repicar as madeixas, arrumar namorada, comprar um iPhone, comprar a casa própria… Engraçado isso. O ano tem 365 dias, e as pessoas só se tocam que precisam prometer – mais aos outros que a si mesmas, registre-se – coisas quando veem o primeiro presépio montado à frente. Ou quando começa aquela nostálgica musiquinha de fim de ano da Globo. “Hoje é um novo dia,/ de um novo tempo que começou”. Pergunto: por que cargas d’água esse “novo dia”, esse “novo tempo” sempre tem de se iniciar justamente às vésperas do fim de um ano e do começo de outro? “Ah, as esperanças se renovam”, podem argumentar alguns. Ah, bom! Então ficamos assim: as pessoas se comprometem pela enésima vez com algo que não vão cumprir só pra sentir aquela pulsão renovadora; mas, na verdade, é tudo mentira. Continuarão gordas, comendo batata frita, tomando Coca-Cola, enfiando goela abaixo aquele frango com bacon e catupiry vindos na pizza nossa de cada dia. O celular ainda será aquele Baby da Telesp Celular. A vasectomia sucumbe à camisinha e aos anticoncepcionais…

Vocês certamente devem estar se perguntando se eu, Leandro Vieira, nunca aderi a esses rituais de pacto autopropositivo. Sim, claro! Em março do ano passado decidi deixar de ser gordo. Vinte quilos se foram, graças à minha profícua e diária vida de exercícios. Enchi-me do meu Blackberry em junho deste ano. Mandei-o às favas e comprei outro aparelho em julho. Em abril de 2005, tive o lampejo de ler a Bíblia toda. Conclui essa jornada um ano e meio depois. Não, queridos, não sou refém de calendário nenhum.

Antes que venham me patrulhar – expediente do qual não tenho medo – esclareço: não tenho nada contra quem põe a si mesmo metas e objetivos. Nenhum vento sopra em favor de quem não sabe onde quer chegar. Só me enche um pouco as paciências gente que arrasta todos esses anseios para o fim do ano, congregando-os em um pacotão, a fim de a partir de primeiro de janeiro do ano subseqüente coloca-los em prática. Assim, Natal e Ano Novo acabam virando uma grande muleta, uma desculpa para a procrastinação.

Como se não bastassem essas ladainhas, somos confrontados com o oba-oba de pelo menos 345 sessões de amigo secreto. No ano passado passei o constrangimento de ter de comprar um livro do Padre Marcelo (!!!) para presentear um desconhecido (o nome dele entrou na roda, fazer o quê?). Além disso, passamos a conviver com a metafísica inerente à época. Eu odeio a musiquinha de Natal das Lojas Pernambucanas. Perco minha rasa resignação com o congestionamento de gente que se forma nas calçadas da Avenida Paulista para tirar foto dos edifícios decorados. A Paulista oferece riscos bem peculiares: em dias comuns corre-se o risco de ser atropelado por skatistas; no Natal, de ficar cego com os flashs incessantes. Sim, os carros também se amontoam na rua. Isso porque há gente que, pasmem, vai fotografar os prédios de automóvel. Os aeroportos se transformam numa balbúrdia. Os shoppings, numa algazarra. Às vezes nos defrontamos com um coralzinho desafinado cantando na rua sempre as mesmas músicas. E passamos a ser questionados repetidas vezes sobre a mesma coisa: “onde você vai passar o Natal?”, “aonde você vai no Fim de Ano?”, porque, como sabemos, todos TEMOS A OBRIGAÇÃO de não ficar em casa entre 25 de dezembro e 2 de janeiro. E em 2013 há um agravante: corro o sério risco de amanhecer em primeiro de janeiro com Fernando Haddad sendo meu prefeito.

“Ah, mas e a família toda reunida, não é lindo?”. Sim, é lindo. Família reunida é bom no Natal, no Ano Novo, no Carnaval, no Dia Mundial do Trabalho, no casamento da prima, numa churrascaria durante um feriado prolongado…

As únicas coisas que me animam nesta época do ano são o décimo terceiro salário e os dias de ócio e de pernas pro ar. Todo o resto não passa de uma variação do mesmo tema já entoado em ocasiões anteriores.

Uns me acham amargo. Outros, chato. Não estou nem aí. Não me incomodo de ser arauto de mensagens incômodas. Os arquivos do blog atestam isso.

TUDO DE NOVO…

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